sexta-feira, novembro 07, 2008

OgonçalO

O Gonçalo corre pelos corredores da Ordem da Trindade sozinho, como se quisesse provocar o silêncio e a doença. Ninguém o proíbe. Vestido de cores outonais, traz ao peito um papel com o seu nome que me faz lembrar o cheiro de um lápis aguçado. O Gonçalo tem um redemoinho na poupa do cabelo que lhe poupa algumas questões existenciais acerca do seu futuro físico - toda a gente sabe que este tipo de redemoinhos capilares são resistentes ao tempo, por isso, ele próprio se vai aperceber que afinal há sempre alguma coerência naquilo que o define.
Mas o miúdo não é assim tão heróico para estar sozinho, de uma das celas hospitalares sai a avó com o cabelo que lhe resta pintado de um vermelho quase eléctrico. A avó não traz nome ao peito nem tem cintura. É recta da cabeça vermelha aos sapatos ortopédicos, assim, meia enchouriçada.
A avó olha para nós e imagina um sorriso conveniente que nunca lhe chega a sair.
Chama:
- Gonçalo.
E o Gonçalo continua a fugir, desta vez vai pelas escadas, já está quase no 2º andar.
E eu, de cá de cima e através do vão, vejo a poupa a fugir também, movimentando-se quase livremente dentro daquilo que o próprio cabelo pensou ser o seu momento áureo de indepêndencia face aos genes. Pergunto:
- Gonçalo, tiveste um irmão foi?
- Não.
( ele já quase no primeiro andar)
- Então, é uma maninha?
- Não. Foi a minha mãe que veio aqui encolher as maminhas.

domingo, novembro 02, 2008

segunda-feira, outubro 27, 2008

insónia

Every word is like a knife
But the silence cuts you twice

quinta-feira, outubro 23, 2008

nada é meu senão uma ideia ou outra e mesmo assim

As coisas fogem-nos, assim, tão le n ta m e nte.
No sábado assaltaram o polo, tadinho dele com aqueles olhinhos expressivos que brilham de noite quando lhes carrego no botão. Talvez tenha deixado as portas abertas porque no dia seguinte não havia sinais de arrombo ou vidros partidos, o que torna o assalto de muito maior relevância porque passam a ser duas partes que têm culpa. Roubaram um maço de cigarros quase vazio e um soutien preto do continente (ainda com etiqueta) que a mãe me tinha oferecido no dia anterior.
Dois dias depois, o carro a ser rebocado. Vejo-o de pernas para o ar e vou a correr para a carrinha azul com 2 polícias lá dentro. Aqueles dois abutres fizeram-me lembrar aquelas estátuas de areia que participam em concursos veranis e aparentemente conseguem resgatar os turistas errantes do absoluto tédio do apartotel.
Peço-lhes para não levarem o carro. Não levam. Peço para não pagar os 70 €, mas isso já não podem, para além do mais já está tudo passado para o papel,
- Não vê? O papel.
Eis senão quando as lágrimas em cascata pela cara abaixo e continuo a chorar compulsivamente, não, compulsivamente não, foiapenascontinuamenteassimeaspalavrasmolhadasoxalá
molhassemtambémoshomenseasestátuassedesfizessem.
No dia seguinte a este desabafo universal com o mundo mediado por duas bestas, chove no Porto. Saio do carro, pego na pasta cheia de fotocópias/apontamentos/possibilidades e sem reparar como,

as folhas todas pelo ar a voar em fila indiana
como se obedecessem a uma ordem divina
depois a chuva a trazê-las à terra novamente
estão agora algumas coladas à estrada
outras continuam na fila para voar
não vou atrás delas
isto de as coisas nos fugirem
espero que os deuses entendam a minha letra

quinta-feira, outubro 16, 2008

in the mood

tripar

Nunca chegamos ao essencial. Diz-se:
O que interessa é o que está por dentro. Mas o dentro é mistério e escuridão.
O dentro é o que não conseguimos ver e por isso temos a lata de dizer que é bom ou mau porque ninguém pode provar o contrário.
O dentro são estas entranhas de que somos feitos, estes intestinos impertinentes, o fígado cansado, o coração em maratona. A minha outra avó está muito doente e eu não consigo ver nada. Tudo escuro, as doenças desenvolvem-se nesse sítio de dentro onde não se consegue ver. O que dirá o pâncreas do esófago? Nada. Convivem animadamente na escuridão absoluta, os cúmplices malditos.
O que importa é o que está por dentro. Não é nada.
Para além disto, a verdade é que temos nojo de tudo o que sai de nós, caca, sangue, catotas. Pois, porque já não nos serve. Não há injustiça senão em nós, que temos nojo das coisas.
O medo também não é flor que se cheire (sempre responsabilizei o medo por todos os males do mundo), mas pelo menos é mais animal. Agora o nojo, o nojo é uma construção humana complexa. Implica essa noção que somos uns seres assépticos que não somos, provoca-nos a mais diversas doenças, rouba-nos a imunidade mental e física.
Não sejamos enojados. Ontem, a Graça trouxe-me rojões e eu comi tripa enfarinhada pela primeira vez. Deixei um bocadinho no prato e fiquei desiludida comigo mesma.
(tripa não é nojo, é bom, mas é demasiado impositiva para um jantar tardio)

quinta-feira, outubro 09, 2008

macaco (2)

macaco

Como toda a gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas. Li quase tudo quanto os nossos historiadores, os nossos poetas e mesmo os nossos narradores escreveram, apesar de estes últimos serem considerados frívolos, e devo-lhes talvez mais informações do que as que recebi das situações bastante variadas da minha própria vida. A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.

in "Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar



(este livro é tão nobre de espírito, tomara toda a gente nascesse de palavras assim, fiquemo-nos pelas estátuas então)

quinta-feira, outubro 02, 2008

momentos descontínuos

A Júlia pediu-me que lhe pintasse dois quadros para a sua casa nova.
Pinta-me dois quadrinhos?
Pinto, mas não sei quando.
Está bem, vou então comprar as telas ao chineses e já volto. Tenho um sofá cor de chocolate.
Comoveu-me o recurso à metáfora, mas desde quando é que ela deixou de dizer castanho?
Talvez tenha sido nesse dia que o Patrick deixou a pasta de amendoim no hostel. É estranho lidar com sítios de passagem. Por fora escreveu o seu nome a verde, mesmo antes de me oferecer um agulha de tricot para eu conseguir ler melhor os ficheiros de computador.
Sempre que me sento naquele terraço.
Sempre que me sento naquele terraço a fumar um cigarro, contrariada por fumar um cigarro e contente por ceder à contradição, eu sou o Porto. Eu sou isto e eu amo esta cidade tal como ela me ama a mim. As gaivotas histéricas, constantes, os dias em que sinto irritantemente feminina. Aquele sino da Sé, um golo de cerveja para olear a estrutura enquanto defino o que ainda tenho para fazer no tempo que me resta para acabar o turno. Entende-me, eu estou aqui neste terraço. Ainda há um lampião do lado de baixo da travessa que acende e apaga. Acende e apaga, sempre foi assim, tenho medo que se apague de vez e acabe o jogo. O jogo consiste em arranjar uma justificação para tal desordem. Olha, vai por ali uma pessoa a passar, se calhar vai acender nesse momento, mas também depende do tipo de pessoa. Ideias carregadas de cepticismo, a luz que acende e apaga. Nunca acreditei em soluções brilhantes.
No terraço ouvem-se os diospiros do jardim abaixo a cairem. Imagino-os doces e rasgados na relva, à espera que algum de nós os apanhe, mas que forma mais altruísta de se matarem.

quarta-feira, outubro 01, 2008

tudo deve ser contado pelo menos uma vez

Tudo o que nos acontece, tudo o que falamos ou nos é narrado, tudo quanto vemos com os nossos próprios olhos ou sai da nossa língua ou entra pelos nossos ouvidos, tudo aquilo a que assistimos (e por que, portanto, somos de certo modo responsáveis), há-de ter um destinatário fora de nós, e esse destinatário vai sendo seleccionado por nós em função do que acontece ou nos dizem ou então dizemos nós. Cada coisa deverá ser contada a alguém - nem sempre a mesma pessoa, não necessariamente -, e cada coisa vai-se colocando de parte como quem folheia e aparta e vai destinando prendas futuras numa tarde de compras.

Tudo deve ser contado pelo menos uma vez, ainda que, como havia determinado Rylands com a sua autoridade literária, deva ser contado segundo os tempos. Ou, o que vem a dar no mesmo, no momento justo e às vezes nunca mais se não se soube reconhecer ou se deixou passar deliberadamente esse momento preciso. Esse momento apresenta-se às vezes (a maioria das vezes) de maneira imediata, inequívoca e compulsiva, mas muitas outras vezes apresenta-se apenas confusamente e ao fim de lustros ou décadas, como acontece com os grandes segredos. Mas nenhum segredo pode ou deve ser guardado para sempre do conhecimento de toda a gente, é forçoso que encontre pelo menos um destinatário uma vez na vida, uma vez na vida desse segredo.
É por isso que algumas pessoas reaparecem.
É por isso que nos condenamos sempre por aquilo que dizemos. Ou por aquilo que nos dizem.

Javier Marías, in "Todas as Almas"

quinta-feira, setembro 25, 2008

pensar ou não pensar

Entro no Sr. Júlio e não o vejo. Está o filho, que é parecido com ele, a servir vinhos e petiscos. Está ali ao fundo um cliente magrinho e fininho que por aqui passa muitas vezes. Costuma beber vinho verde de fato e gravata. O fato fica-lhe largo, como se celebrasse com o alcóol os tempos de jovem quando os tecidos ainda se colavam ao corpo musculado. O bigode é farfalhudo, quase de polícia, e também não lhe cabe. Uma cara triangular, todas as linhas a acabarem num queixo pontiagudo e decidido.
Peço uma cerveja.
Talvez me apeteça presunto mas não peço.
De repente aparece o Sr. Júlio à minha frente. Diz boa tarde menina, pega numa faca e começa a cortar o presunto.
- Mas eu não pedi presunto.
- Mas eu sei que a menina quer. Além do mais não me esqueço de retribuir favores.
- Dei-lhe as batatas sem esperar nada em troca.
- Há uma coisa que se chama consideração.

Calei-me, à espera de ouvir. E continuou a falar. Sobre os anos 50, sobre comunismo, sobre escrita.

- Menina, dê continuidade à sua carreira intelectual.

Sr. Júlio, creio que já o possa ter desiludido. Para além do mais, começou o Outono e passo os dias a sentir as palavras a secarem quando pego no computador. Vou para o atelier e só encontro o passado. Ontem lavei muito bem a casa de banho, desfiz-me da tinta seca que andava a entupir o lavatório. Inscrevi-me num mestrado para aprender uma teoria da qual eu não estou minimamente convicta. Percebo as teorias tão bem, mas não as consigo ver acontecer. Tudo o que estudo parece-me tão distante do presente.
Hoje estou de facto preocupada se a sopa de alface vai ficar cremosa e se a vitela não endurece. Estive a arrumar a cozinha e deitei uma data de legumes fúnebres que me fizeram sentir viva.

terça-feira, setembro 16, 2008

35

Sou o número 35. Há uma folha de rascunho à porta da secretaria onde se tem que escrever o nome e o número de chegada. Havia uma Vânia que era o número 34, como depois só havia branco escrevi 35 tracinho Maria. Depois é-se atendida sabe-se lá quando. Pelo menos na segurança social dizem-nos a hora prevista. Aqui temos uma cambada de gente com cara de impaciente ( se a palavra bicha aterroriza qualquer um, a própria coisa em si desmotiva o mais zen dos monges) e cabelos oleosos. Não sei se é de ser tão escuro neste corredor, mas algo se pasa com o cabelo deste pessoal. Parecem ter todos os pés secos como eu. A vida é mesmo um monólogo.
Bom, voltando à questão das filas. Hoje de manhã também fui ao banco. No banco tive que tirar um papelzinho que dizia "001" e por isso fiquei contente. Apesar do deserto da sala, o homem do banco carregou no botão que fez com que aparecesse o número 001 numa televisão. Dirigi-me ao balcão respectivo e eis senão quando começou mal o dia. Como já referi várias vezes neste blog, não consigo suportar gente que está ao balcão que nos trata como bebés insolentes. Não se lhe podia fazer uma pergunta que aquele ser de fato e gravata por fora porque por dentro era um trapo humano, ficava aborrecido chegando a explusar-me discretamente daquela agência.
- "Na outra de S.Lázaro é que se calhar resolve melhor isso".

Depois cheguei aqui e vejo este papel. Penso:
- Se hoje não fosse o último dia para fazer esta merda.

Vou ter que esperar, não é tão mau assim. Não sei porque nós, humanos, não conseguimos muito bem esperar. Até nem tenho nada de extrema importância para fazer esta manhã. Até pode ser adiado o que teria para fazer. Mas bom, não me apetece estar na bicha. Deixei lá o meu nome com um número na folha de rascunho (que pode ser aldrabada e modificada sem que ninguém dê por isso) e vim comigo para a sala dos computadores.
Não sei o que terei deixado lá.
Um possível lugar marcado.
Um número e uma assinatura.
Os pés secos reflectidos nos pés dos outros.
A vontade de receber um jacto de água que nos invada os corpos, se entranhe nos cabelos, o sebo bem lavadinho, os papéis das propinas desfeitos, a folha de rascunho sem números ou nomes - uma mancha de tinta uniforme, desejos borratados de sermos atendidos anotados por uma BIC.

quinta-feira, setembro 11, 2008

ei-los gios

Recebi um souvenir de Benidorm, enterneceu-me aquele golfinho de plástico. É um golfinho transparente e lá dentro cabem coisas como conchas, água, mini flores plastificadas. Agrada-me especialmente por ser multifuncional. A cauda do golfinho serve como abre cápsulas e o lombo tem um iman para se quisermos decorar o frigorífico. Algures no corpo transparente plastificado do bicho diz "BENIDORM".

- Toma Maria, trouxe isto para ti de Benidor.
(e enquanto admirava encantada a ausência do "m")
- Obrigado, estás maluca, escusavas de ter trazido, não queria que gastasses dinheiro comigo.

Logo a seguir pensei na frase estúpida que tinha dito.
Não percebo porque é que costumamos recusar prendas, não me parece uma atitude propriamente educada ou sensata. É como quando nos dão elogios, ficamos assim:

- Oh, obrigada, não sou nada, até que há gente muito melhor.

Se nos criticam:

- O quê? Olha mas é para ti.

Mas pior que tudo isto é não saber explicar como se gosta de uma prenda que nos deram. Eu sei que sou absurda porque sofro este dilema. A racionalidade é um leão domesticado. Se não fizer cara de espanto ela ainda vai pensar que vou deitar o golfinho fora, ai o que é que vou dizer para ela perceber que gostei, que valeu mesmo a pena ter gasto o que gastou, mas que porra de pensamento calculista este que eu tenho.
Talvez não suportemos a ideia de existência, não duvido que sejamos demasiado pequenos para isso.

(que seca, estou cada vez mais moralista embora não suporte moralistas - fico a tremer de um olho quando vejo aquela vice presidente do Mccain, orgulhosa mulher e mãe, não sei quê Pallin, caçadora de renas ao fim de semana, anti quase tudo que defendo e não defendo assim tanta coisa, pro tudo que considero desumano e insensato)

quarta-feira, setembro 03, 2008

romance suspenso

Passamos a vida à procura de coisas.
Não é uma grande conclusão, esta. Mas julgo ser verdade. A verdade nunca pode ser repetitiva porque é verdade e repete-se sempre de maneiras diferentes. A mentira é como os prédios, crescem onde quisermos, da forma que mais convenha ao senhorio e aos condóminos. E por ser de natureza calculista - a mentira sujeita-se a passar a ser uma coisa monótona com muito menos interesse. Afinal não sei, de repente parece que tudo o que disse até agora (pouco ou nada) deixou de fazer sentido.
Voltemos às pessoas que existem. Nunca poderia ser escritora.
Ela chegou aqui de calças brancas justas, isso, brancas e justas, e nem sequer se notavam as cuecas ou a mínima nódoa. Camisa preta acho eu que era preta, lembro-me apenas do decote e dos botões. Reparei também na traseira dos sapatos que me pareceram asas em vez de solas. Eram moles e silenciosos, não que as asas sejam assim.
- Venho ter com uns amigos.
E os amigos lá estavam, afinal era só um. Ela quis enganar-me com o plural, a marota. Não sei se queria mentir.
A parte mais picante fica para depois. Posso adiantar que não vi nada senão uma manta cor de laranja que tapava duas pessoas.
Por agora sinto-me apenas cansada de mapas, museus em ponto minúsculo, ruas que não estão lá, restaurantes que só sei onde estão se estiver a ir para lá com pés e não com as mãos. As bic nunca encaixaram bem no meu dedo, não sei porquê.
Passamos a vida à procura de sítios que não existem. Quando passam a ser verdade, há que nos entreter com a próxima mentira.
Isto não é um cliché, parece-me demasiado verdadeiro.

sexta-feira, agosto 29, 2008

a sudden gust of wind

água

Cheguei a casa. A minha mãe.
A minha mãe estava de branco e comia um pão de cereais com azeite.
No balcão da cozinha um chá de rosas. Eram botões de rosa cor de rosa botoezinhos assim pequeninos que depois ficam mais bonitos e abertos com a água a ferver. A casa estava a uma temperatura perfeita. A casa tinha sido pintada há dois dias e nem cheirava a tinta como eu gosto. Seco, branco e luz. Espaço e rosas pequeninas que bebemos as duas. Lembrei-me da palavra purgatório. A minha mãe usa camisas de noite brancas que parecem sempre passadas e cheiram ao chá. Depois a minha mãe perguntou-me se eu queria ir almoçar a um vegetariano chamado terra. No terra comemos tofu e arroz integral. Ela pediu um sumo de banana, iogurte e canela e disse várias vezes e todas as vezes como se fosse a primeira:
- Este sumo que está óptimo.
Acho que a sua intenção era que eu pedisse um sumo igualmente de banana, iogurte e canela, mas a mim não me apetecia e por isso não pedi. Pedi uma água das pedras que vinha fresca como eu gosto e não comi sobremesa porque não me apetecia. O telemóvel tocou uma vez e eu não atendi. Viemos as duas a pé pelo mar até a casa, onde eu adormeci por opção.
Escrevi este texto para quem não gostou do sangue do texto anterior. Há sempre alguém que não gosta.

segunda-feira, agosto 25, 2008

a massa

Ela disse:
- O quê, o meu bacalhau com natas não é bom? Tu nunca provaste o meu bacalhau com natas.
A irmã respondeu que já tinha provado e não tinha achado assim nada de especial, naquela quinta feira em que todos comemos juntos. Eu não estava nesse dia. Afinal o bacalhau tinha natas a mais, acabou por confessar a primeira, mas eu sei fazer esse prato que é uma maravilha.
Ela quase que podia ser alta e já foi loira um dia. Não sei desde quando é que quer continuar a ter uma cor na cabeça que já não tem. Não sei onde estava eu nessa quinta feira onde a cor do cabelo talvez se pudesse confundir com a cor do prato e está a apetecer-me vomitar lascas de pensamentos salgados sem qualquer grau de parentesco.
Talvez tenha sido no dia do bacalhau em que conheci a outra senhora de azul que gostava de falar de sangue. Um homem dali morreu e o sangue a sair-lhe pelas orelhas, pelo nariz e tudo. Falava em sangue e bebia leite. Ao lado, cassetes com cantores de penteados duvidosos e olhares penetrantes assistiam frios e impunes à conversa avinagrada. É a vida, olhe, tão novo. E o cantor em silêncio. Só ela falava, a senhora de azul. Eu, que estava com um vestido preto às flores brancas, senti-me possível toalha onde possivelmente se pudesse colocar um prato com peixinhos fritos do rio e recordar entre duas espinhas, possíveis feitos históricos do homem recentemente vivo.
Só não gostei quando vi o saquinho branco do sangue do frango no balcão da cozinha onde se fez o bacalhau com natas. Era arroz de cabidela para o almoço e sinto que este texto está mal cozido e ainda não se lhe tiraram as entranhas ao pito. Na mesma cozinha onde na quinta feira se fez o bacalhau com natas que eu não pude provar, estava um saquinho de sangue fresco para juntar ao arroz. O saquinho parecia daqueles antigos com leite do dia mas tinha sangue em vez de leite, ainda que ambos sejam símbolos de vida e fertilidade. Reparei que o sangue estava cheio de conservantes. Afinal não custa nada comer aquilo, não está tão vivo assim. Isto de matar o bicho e manter o sangue fresco com meia dúzia de números e E´s é de um cinismo atroz.
O que diria a senhora de azul quando visse isto, talvez:
- O meu arroz de cabidela é melhor que o teu, nunca provaste um assim.
Os cantores das cassetes fechados em armaduras de metal, mortos desde sempre naquele mostrador que roda e nós vamos vendo as caras deles ou eles as nossas.
Que fome, dizem, há tanto tempo que não via uma toalha tão bonita.

sexta-feira, agosto 01, 2008

pequenez

Como isto foi acontecer não sei bem. Não quero saber.
Entro no Sr. Júlio com um saco de batatas na mão para lhe oferecer. Vinha pesada, não sei se das coisas na mão ou na cabeça.
Passo o balcão e entro para a cozinha como se fosse minha, há espaços que se tornam nossos porque os já imaginámos antes. Deixo cair o saco e está lá ele, de avental branco e olhar satírico.

- Oh menina, então diga lá como é que se foi lembrar do Big Júlio.

Aquele "big" antes do nome soou-me estranho, mas ignorei-o. Aliás, pensei que se estava a referir às batatas, tipo - oh menina diga lá o que lhe deu para se lembrar de mim enquanto podia oferecer batatas mas é à sua família. Mas não. É então que tira um pedaço de papel que estava em cima do frigorífico. As mãos, que parecem de ferro, acentuam a leveza daquele pedacinho branco com letras impressas.
Leio, leio-me, e encontro-me na cozinha a ler o que escrevi sobre ele e tudo o que aquela tasca significa para mim. Já não sei o que é real - se o que escrevi, se o que estou a ver.
Fico envergonhada. Ele diz-me que aquilo foi lá parar através de outro cliente.
Peço uns petiscos em busca da verdade.
É então que diz:

- A menina não tema pelo seu futuro. A menina escreve muito bem e sabe articular a imaginação. Não tema, ouviu?

O Sr. Júlio leu o meu blog.
Em papel, claro.