Não gosto das amigas da minha avó, nem do natal, nem de ladrilhos de marmelada.
A Lina ligou, eu atendi e sabia muito bem quem era, mas tentei passar por desconhecida.
- Sim, eu vou chamá-la.
A Lina liga muito de vez em quando, no natal ou para anunciar a morte de alguém. Tem cara de gaivota velha, líder de um bando de pássaros que há muito a não segue.
À medida que a minha avó foi ficando cansada de viver, e deixou de a poder convidar para jogar canasta às quartas, ela nunca mais quis saber. Safada da Lina, queria era os pãezinhos de leite com fiambre e a tarte de maçã. Eu bem a vi outro dia no Pingo Doce a comprar pensos higiénicos.
- Menina estes são dos grandes?
- São, minha senhora.
Quando chegava a casa, percebia que era dia de canasta pelo cheiro das águas de colónia trazidas de Vigo. No bule, um resto de chá preto já demasiado amargo. Procurava então restos de bolos e pãezinhos, as senhoras deixam sempre um ou dois. Agora deixam o tempo cuidar delas e dos outros, à espera que o Fado lhes toque à porta, esse que lhes roubou os maridos.
(a não ser a Linda que compra pensos higiénicos para as netas e usa botas de tacão)
Caramba, o que teremos que fazer para que o presente não se divorcie de nós. Eu quero-lhe pedir em casamento, prometo-lhe ser fiel.
A velhice mais terrível é essa, aquela em que o que tempo não desfaz as marcas de baton nos guardanapos de linho, as migalhas dos pães de leite perpetuadas nas tardes de quarta feira sem lanche nem jogadas.
sexta-feira, dezembro 26, 2008
segunda-feira, dezembro 15, 2008
manhã
Preocupam-me ainda as coisas do passado. Escrevo como se o poema fosse uma realidade, ou dele nascessem as folhas da vida, com o verde esplêndido de uma súbita primavera. Sobreponho ao mundo a linguagem; tiro palavras de dentro do que penso e do que faço, como se elas pudessem viver aí, peixes verbais no aquário do ser. É verdade que as palavras não nascem da terra, nem trazem consigo o peso da matéria; quando muito, descem ao nível dos sentimentos, bebem o mesmo sangue com que se faz viver as emoções, e servem de alimento a outros que as lêem como se, nelas, estivesse toda a verdade do mundo. Vejo-as caírem-me das mãos como areia; tento apanhar esses restos de tempo, de vida que se perdeu numa esquina de quem fomos; e vou atrás deles, entrando nesse charco de fundos movediços a que se dá o nome de memória. Será isso a poesia? É então que surges: o teu corpo, que se confunde com o das palavras que te descrevem, hesita numa das entradas do verso. Puxo-te para o átrio da estrofe; digo o teu nome com a voz baixa do medo; e apenas ouço o vento que empurra portas e janelas, sílabas e frases, por entre as imagens inúteis que me separaram de ti.
Nuno Júdice
Nuno Júdice
sábado, dezembro 13, 2008
driving with seixas
No fundo, tenho um fraco pela trivialidade. Atraem-me as mãos normais dele no volante. A conversa mediada pelo retrovisor, os taxistas vivem no mundo do reflexo e de algum silêncio.
Ele pergunta-me:
- Do you speak english?
Eu:
- Yes.
- So, listen this song.
E calámo-nos. Na rádio, a voz rouca e kitsch de Chris Rea:
I sing this song
To pass the time away
Driving in my car
Driving home for christmas
Rio-me. Rimo-nos.
Digo-lhe que é bom sabermos inglês porque assim percebemos as letras das canções.
Ele diz-me várias coisas em tempos diferentes da conversa mas que eu decidi juntar aqui:
- Tem razão menina, é que a música vem sempre acompanhada de poesia. Eu faço o turno da noite. Quando não há clientes, eu falo com os colegas ou leio um livro. Sou Seixas de nome, o meu avô também era Seixas e era conhecido lá na zona do Tua. Não há nada de anormal em trabalhar à noite, durmo sempre das 8 da manhã até às 4. Só não levo pessoas ao Marquês, é tudo para a prostituição, fecho as portas assim por dentro e abro o meu livro.
Ele pergunta-me:
- Do you speak english?
Eu:
- Yes.
- So, listen this song.
E calámo-nos. Na rádio, a voz rouca e kitsch de Chris Rea:
I sing this song
To pass the time away
Driving in my car
Driving home for christmas
Rio-me. Rimo-nos.
Digo-lhe que é bom sabermos inglês porque assim percebemos as letras das canções.
Ele diz-me várias coisas em tempos diferentes da conversa mas que eu decidi juntar aqui:
- Tem razão menina, é que a música vem sempre acompanhada de poesia. Eu faço o turno da noite. Quando não há clientes, eu falo com os colegas ou leio um livro. Sou Seixas de nome, o meu avô também era Seixas e era conhecido lá na zona do Tua. Não há nada de anormal em trabalhar à noite, durmo sempre das 8 da manhã até às 4. Só não levo pessoas ao Marquês, é tudo para a prostituição, fecho as portas assim por dentro e abro o meu livro.
segunda-feira, dezembro 08, 2008
paterna
Não sei se é de termos medo das imagens, isto é, não sei se deveríamos controlar o tempo a que nos dedicamos a elas, ou seja, porque será que tapamos os olhos nos filmes de terror mas nunca deixamos de espreitar.
A minha avó estava bonita, assim, mesmo morta, mas já não sei se era ela ou não. Primeiro custa-me dizer que ela estava morta, como é que alguém morre, e que palavra mais arrojada - morte. Os homens inventam palavras sem saberem o que elas significam. Não há nada mais individualista que um caixão, se ao menos fossem mais largos e houvesse espaço para um compartimento cheio de bebidas, comidas e objectos. Chamem-me materialista, mas eu quero ir lá para baixo com meia dúzia de coisas que gosto, uns cadernos e algumas fotografias.
Voltando ao respeito pelas imagens
(ou simplesmente a ver vamos se eu reconheço qual é o meu estofo para ver um homem desdentado a pousar a minha avó lá debaixo dos nossos pés e depois pegar numa pá prefigurando uma cena de filme de terror série d)
Quanto tempo poderemos nós olhar para alguém que gostamos assim, inerte. As mãos tãos frias, ela nunca tinha as mãos frias, durante anos coçou-me as costas e o cabelo com as unhas sempre a respeitar um tamanho sensato, nunca demasiado arranjadas (detesto unhas perfeitas) e a pele bem tratada com cremes baratos.
Mas quais são as mãos que durante o inverno nos invadem o príncipio das costas,
ali naquele espaço de sedução entre a camisa e um par de calças,
(o idiota que inventou a palavra lombar não fazia a mínima do que falava)
e não nos fazem sentir o frio de fora que está a entrar para dentro,
entrar para dentro é um sublime pleonasmo a meu ver,
eu a pensar: espero que ela não se farte já
eu a pensar: espero que hoje se lembre de me coçar as costas antes de eu adormecer no sofá cama do hostel, cheia de medo que me peçam uma coca-cola a meio da noite, nesse espaço infinito entre a memória e um frigorífico.
A minha avó estava bonita, assim, mesmo morta, mas já não sei se era ela ou não. Primeiro custa-me dizer que ela estava morta, como é que alguém morre, e que palavra mais arrojada - morte. Os homens inventam palavras sem saberem o que elas significam. Não há nada mais individualista que um caixão, se ao menos fossem mais largos e houvesse espaço para um compartimento cheio de bebidas, comidas e objectos. Chamem-me materialista, mas eu quero ir lá para baixo com meia dúzia de coisas que gosto, uns cadernos e algumas fotografias.
Voltando ao respeito pelas imagens
(ou simplesmente a ver vamos se eu reconheço qual é o meu estofo para ver um homem desdentado a pousar a minha avó lá debaixo dos nossos pés e depois pegar numa pá prefigurando uma cena de filme de terror série d)
Quanto tempo poderemos nós olhar para alguém que gostamos assim, inerte. As mãos tãos frias, ela nunca tinha as mãos frias, durante anos coçou-me as costas e o cabelo com as unhas sempre a respeitar um tamanho sensato, nunca demasiado arranjadas (detesto unhas perfeitas) e a pele bem tratada com cremes baratos.
Mas quais são as mãos que durante o inverno nos invadem o príncipio das costas,
ali naquele espaço de sedução entre a camisa e um par de calças,
(o idiota que inventou a palavra lombar não fazia a mínima do que falava)
e não nos fazem sentir o frio de fora que está a entrar para dentro,
entrar para dentro é um sublime pleonasmo a meu ver,
eu a pensar: espero que ela não se farte já
eu a pensar: espero que hoje se lembre de me coçar as costas antes de eu adormecer no sofá cama do hostel, cheia de medo que me peçam uma coca-cola a meio da noite, nesse espaço infinito entre a memória e um frigorífico.
quinta-feira, dezembro 04, 2008
dentro
O homem entra na camioneta com um terço na mão, ostentanto a sua fé e poder.
É grande, sujo, usa gravata e tem barriga. A gravata repousa resignada na curva da pança e não consegue chegar até ao cinto. As gengivas são escuras, ainda que não as tenha visto.
O homem usa gargalhadas secas e altas para reagir à série cómica e estúpida que passa na televisão. Acho depravado tantos passageiros serem obrigados a ver o mesmo filme e a ouvir as gargalhadas de homens como este.
Gosto de ir ao cinema porque está escuro, podemos chorar à vontade sem que o vizinho da cadeira 26 nos desvende a cara molhada. Mais: no cinema não há a possibilidade de escolher a posição da cadeira. Na primeira meia hora de uma viagem entrego-me à angústia de não saber se devo ficar com as costas verticais ou então carregar naquele botãozinho e reprimir as pernas do senhor de trás.
O homem sujo repara nos nossos sapatos lamacentos e começa a apontar com os dedos inchados para o tapete de entrada feito de papel de jornal. Tínhamos que ter passado os pés nas notícias antes de entrar na camionete. Perdoou-nos de forma indecisa por sermos estrangeiros.
As mulheres à minha volta usam lenços na cabeça, normalmente às flores, que denunciam por vezes o comprimento do cabelo. Imagino-me a arrancar-lhes o tecido e a cultura - não sei se é lata ou não - mostra-me esse preto do teu cabelo, será um pouco ondulado, aposto que é brilhante, se te mexeres ele mexe contigo, e a cor das tuas pernas, terás varizes internas ou externas, não faz mal nem uma coisa nem outra.
Esqueço-me das cores delas, das gengivas do outro, da chuva lá fora.
Abro "Memórias de Adriano" e recomeço a viagem paralela.
É grande, sujo, usa gravata e tem barriga. A gravata repousa resignada na curva da pança e não consegue chegar até ao cinto. As gengivas são escuras, ainda que não as tenha visto.
O homem usa gargalhadas secas e altas para reagir à série cómica e estúpida que passa na televisão. Acho depravado tantos passageiros serem obrigados a ver o mesmo filme e a ouvir as gargalhadas de homens como este.
Gosto de ir ao cinema porque está escuro, podemos chorar à vontade sem que o vizinho da cadeira 26 nos desvende a cara molhada. Mais: no cinema não há a possibilidade de escolher a posição da cadeira. Na primeira meia hora de uma viagem entrego-me à angústia de não saber se devo ficar com as costas verticais ou então carregar naquele botãozinho e reprimir as pernas do senhor de trás.
O homem sujo repara nos nossos sapatos lamacentos e começa a apontar com os dedos inchados para o tapete de entrada feito de papel de jornal. Tínhamos que ter passado os pés nas notícias antes de entrar na camionete. Perdoou-nos de forma indecisa por sermos estrangeiros.
As mulheres à minha volta usam lenços na cabeça, normalmente às flores, que denunciam por vezes o comprimento do cabelo. Imagino-me a arrancar-lhes o tecido e a cultura - não sei se é lata ou não - mostra-me esse preto do teu cabelo, será um pouco ondulado, aposto que é brilhante, se te mexeres ele mexe contigo, e a cor das tuas pernas, terás varizes internas ou externas, não faz mal nem uma coisa nem outra.
Esqueço-me das cores delas, das gengivas do outro, da chuva lá fora.
Abro "Memórias de Adriano" e recomeço a viagem paralela.
sábado, novembro 22, 2008
sexta-feira, novembro 07, 2008
OgonçalO
O Gonçalo corre pelos corredores da Ordem da Trindade sozinho, como se quisesse provocar o silêncio e a doença. Ninguém o proíbe. Vestido de cores outonais, traz ao peito um papel com o seu nome que me faz lembrar o cheiro de um lápis aguçado. O Gonçalo tem um redemoinho na poupa do cabelo que lhe poupa algumas questões existenciais acerca do seu futuro físico - toda a gente sabe que este tipo de redemoinhos capilares são resistentes ao tempo, por isso, ele próprio se vai aperceber que afinal há sempre alguma coerência naquilo que o define.
Mas o miúdo não é assim tão heróico para estar sozinho, de uma das celas hospitalares sai a avó com o cabelo que lhe resta pintado de um vermelho quase eléctrico. A avó não traz nome ao peito nem tem cintura. É recta da cabeça vermelha aos sapatos ortopédicos, assim, meia enchouriçada.
A avó olha para nós e imagina um sorriso conveniente que nunca lhe chega a sair.
Chama:
- Gonçalo.
E o Gonçalo continua a fugir, desta vez vai pelas escadas, já está quase no 2º andar.
E eu, de cá de cima e através do vão, vejo a poupa a fugir também, movimentando-se quase livremente dentro daquilo que o próprio cabelo pensou ser o seu momento áureo de indepêndencia face aos genes. Pergunto:
- Gonçalo, tiveste um irmão foi?
- Não.
( ele já quase no primeiro andar)
- Então, é uma maninha?
- Não. Foi a minha mãe que veio aqui encolher as maminhas.
Mas o miúdo não é assim tão heróico para estar sozinho, de uma das celas hospitalares sai a avó com o cabelo que lhe resta pintado de um vermelho quase eléctrico. A avó não traz nome ao peito nem tem cintura. É recta da cabeça vermelha aos sapatos ortopédicos, assim, meia enchouriçada.
A avó olha para nós e imagina um sorriso conveniente que nunca lhe chega a sair.
Chama:
- Gonçalo.
E o Gonçalo continua a fugir, desta vez vai pelas escadas, já está quase no 2º andar.
E eu, de cá de cima e através do vão, vejo a poupa a fugir também, movimentando-se quase livremente dentro daquilo que o próprio cabelo pensou ser o seu momento áureo de indepêndencia face aos genes. Pergunto:
- Gonçalo, tiveste um irmão foi?
- Não.
( ele já quase no primeiro andar)
- Então, é uma maninha?
- Não. Foi a minha mãe que veio aqui encolher as maminhas.
domingo, novembro 02, 2008
segunda-feira, outubro 27, 2008
quinta-feira, outubro 23, 2008
nada é meu senão uma ideia ou outra e mesmo assim
As coisas fogem-nos, assim, tão le n ta m e nte.
No sábado assaltaram o polo, tadinho dele com aqueles olhinhos expressivos que brilham de noite quando lhes carrego no botão. Talvez tenha deixado as portas abertas porque no dia seguinte não havia sinais de arrombo ou vidros partidos, o que torna o assalto de muito maior relevância porque passam a ser duas partes que têm culpa. Roubaram um maço de cigarros quase vazio e um soutien preto do continente (ainda com etiqueta) que a mãe me tinha oferecido no dia anterior.
Dois dias depois, o carro a ser rebocado. Vejo-o de pernas para o ar e vou a correr para a carrinha azul com 2 polícias lá dentro. Aqueles dois abutres fizeram-me lembrar aquelas estátuas de areia que participam em concursos veranis e aparentemente conseguem resgatar os turistas errantes do absoluto tédio do apartotel.
Peço-lhes para não levarem o carro. Não levam. Peço para não pagar os 70 €, mas isso já não podem, para além do mais já está tudo passado para o papel,
- Não vê? O papel.
Eis senão quando as lágrimas em cascata pela cara abaixo e continuo a chorar compulsivamente, não, compulsivamente não, foiapenascontinuamenteassimeaspalavrasmolhadasoxalá
molhassemtambémoshomenseasestátuassedesfizessem.
No dia seguinte a este desabafo universal com o mundo mediado por duas bestas, chove no Porto. Saio do carro, pego na pasta cheia de fotocópias/apontamentos/possibilidades e sem reparar como,
as folhas todas pelo ar a voar em fila indiana
como se obedecessem a uma ordem divina
depois a chuva a trazê-las à terra novamente
estão agora algumas coladas à estrada
outras continuam na fila para voar
não vou atrás delas
isto de as coisas nos fugirem
espero que os deuses entendam a minha letra
No sábado assaltaram o polo, tadinho dele com aqueles olhinhos expressivos que brilham de noite quando lhes carrego no botão. Talvez tenha deixado as portas abertas porque no dia seguinte não havia sinais de arrombo ou vidros partidos, o que torna o assalto de muito maior relevância porque passam a ser duas partes que têm culpa. Roubaram um maço de cigarros quase vazio e um soutien preto do continente (ainda com etiqueta) que a mãe me tinha oferecido no dia anterior.
Dois dias depois, o carro a ser rebocado. Vejo-o de pernas para o ar e vou a correr para a carrinha azul com 2 polícias lá dentro. Aqueles dois abutres fizeram-me lembrar aquelas estátuas de areia que participam em concursos veranis e aparentemente conseguem resgatar os turistas errantes do absoluto tédio do apartotel.
Peço-lhes para não levarem o carro. Não levam. Peço para não pagar os 70 €, mas isso já não podem, para além do mais já está tudo passado para o papel,
- Não vê? O papel.
Eis senão quando as lágrimas em cascata pela cara abaixo e continuo a chorar compulsivamente, não, compulsivamente não, foiapenascontinuamenteassimeaspalavrasmolhadasoxalá
molhassemtambémoshomenseasestátuassedesfizessem.
No dia seguinte a este desabafo universal com o mundo mediado por duas bestas, chove no Porto. Saio do carro, pego na pasta cheia de fotocópias/apontamentos/possibilidades e sem reparar como,
as folhas todas pelo ar a voar em fila indiana
como se obedecessem a uma ordem divina
depois a chuva a trazê-las à terra novamente
estão agora algumas coladas à estrada
outras continuam na fila para voar
não vou atrás delas
isto de as coisas nos fugirem
espero que os deuses entendam a minha letra
quinta-feira, outubro 16, 2008
tripar
Nunca chegamos ao essencial. Diz-se:
O que interessa é o que está por dentro. Mas o dentro é mistério e escuridão.
O dentro é o que não conseguimos ver e por isso temos a lata de dizer que é bom ou mau porque ninguém pode provar o contrário.
O dentro são estas entranhas de que somos feitos, estes intestinos impertinentes, o fígado cansado, o coração em maratona. A minha outra avó está muito doente e eu não consigo ver nada. Tudo escuro, as doenças desenvolvem-se nesse sítio de dentro onde não se consegue ver. O que dirá o pâncreas do esófago? Nada. Convivem animadamente na escuridão absoluta, os cúmplices malditos.
O que importa é o que está por dentro. Não é nada.
Para além disto, a verdade é que temos nojo de tudo o que sai de nós, caca, sangue, catotas. Pois, porque já não nos serve. Não há injustiça senão em nós, que temos nojo das coisas.
O medo também não é flor que se cheire (sempre responsabilizei o medo por todos os males do mundo), mas pelo menos é mais animal. Agora o nojo, o nojo é uma construção humana complexa. Implica essa noção que somos uns seres assépticos que não somos, provoca-nos a mais diversas doenças, rouba-nos a imunidade mental e física.
Não sejamos enojados. Ontem, a Graça trouxe-me rojões e eu comi tripa enfarinhada pela primeira vez. Deixei um bocadinho no prato e fiquei desiludida comigo mesma.
(tripa não é nojo, é bom, mas é demasiado impositiva para um jantar tardio)
O que interessa é o que está por dentro. Mas o dentro é mistério e escuridão.
O dentro é o que não conseguimos ver e por isso temos a lata de dizer que é bom ou mau porque ninguém pode provar o contrário.
O dentro são estas entranhas de que somos feitos, estes intestinos impertinentes, o fígado cansado, o coração em maratona. A minha outra avó está muito doente e eu não consigo ver nada. Tudo escuro, as doenças desenvolvem-se nesse sítio de dentro onde não se consegue ver. O que dirá o pâncreas do esófago? Nada. Convivem animadamente na escuridão absoluta, os cúmplices malditos.
O que importa é o que está por dentro. Não é nada.
Para além disto, a verdade é que temos nojo de tudo o que sai de nós, caca, sangue, catotas. Pois, porque já não nos serve. Não há injustiça senão em nós, que temos nojo das coisas.
O medo também não é flor que se cheire (sempre responsabilizei o medo por todos os males do mundo), mas pelo menos é mais animal. Agora o nojo, o nojo é uma construção humana complexa. Implica essa noção que somos uns seres assépticos que não somos, provoca-nos a mais diversas doenças, rouba-nos a imunidade mental e física.
Não sejamos enojados. Ontem, a Graça trouxe-me rojões e eu comi tripa enfarinhada pela primeira vez. Deixei um bocadinho no prato e fiquei desiludida comigo mesma.
(tripa não é nojo, é bom, mas é demasiado impositiva para um jantar tardio)
quinta-feira, outubro 09, 2008
macaco
Como toda a gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas. Li quase tudo quanto os nossos historiadores, os nossos poetas e mesmo os nossos narradores escreveram, apesar de estes últimos serem considerados frívolos, e devo-lhes talvez mais informações do que as que recebi das situações bastante variadas da minha própria vida. A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.
in "Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar
(este livro é tão nobre de espírito, tomara toda a gente nascesse de palavras assim, fiquemo-nos pelas estátuas então)
in "Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar
(este livro é tão nobre de espírito, tomara toda a gente nascesse de palavras assim, fiquemo-nos pelas estátuas então)
quinta-feira, outubro 02, 2008
momentos descontínuos
A Júlia pediu-me que lhe pintasse dois quadros para a sua casa nova.
Pinta-me dois quadrinhos?
Pinto, mas não sei quando.
Está bem, vou então comprar as telas ao chineses e já volto. Tenho um sofá cor de chocolate.
Comoveu-me o recurso à metáfora, mas desde quando é que ela deixou de dizer castanho?
Talvez tenha sido nesse dia que o Patrick deixou a pasta de amendoim no hostel. É estranho lidar com sítios de passagem. Por fora escreveu o seu nome a verde, mesmo antes de me oferecer um agulha de tricot para eu conseguir ler melhor os ficheiros de computador.
Sempre que me sento naquele terraço.
Sempre que me sento naquele terraço a fumar um cigarro, contrariada por fumar um cigarro e contente por ceder à contradição, eu sou o Porto. Eu sou isto e eu amo esta cidade tal como ela me ama a mim. As gaivotas histéricas, constantes, os dias em que sinto irritantemente feminina. Aquele sino da Sé, um golo de cerveja para olear a estrutura enquanto defino o que ainda tenho para fazer no tempo que me resta para acabar o turno. Entende-me, eu estou aqui neste terraço. Ainda há um lampião do lado de baixo da travessa que acende e apaga. Acende e apaga, sempre foi assim, tenho medo que se apague de vez e acabe o jogo. O jogo consiste em arranjar uma justificação para tal desordem. Olha, vai por ali uma pessoa a passar, se calhar vai acender nesse momento, mas também depende do tipo de pessoa. Ideias carregadas de cepticismo, a luz que acende e apaga. Nunca acreditei em soluções brilhantes.
No terraço ouvem-se os diospiros do jardim abaixo a cairem. Imagino-os doces e rasgados na relva, à espera que algum de nós os apanhe, mas que forma mais altruísta de se matarem.
Pinta-me dois quadrinhos?
Pinto, mas não sei quando.
Está bem, vou então comprar as telas ao chineses e já volto. Tenho um sofá cor de chocolate.
Comoveu-me o recurso à metáfora, mas desde quando é que ela deixou de dizer castanho?
Talvez tenha sido nesse dia que o Patrick deixou a pasta de amendoim no hostel. É estranho lidar com sítios de passagem. Por fora escreveu o seu nome a verde, mesmo antes de me oferecer um agulha de tricot para eu conseguir ler melhor os ficheiros de computador.
Sempre que me sento naquele terraço.
Sempre que me sento naquele terraço a fumar um cigarro, contrariada por fumar um cigarro e contente por ceder à contradição, eu sou o Porto. Eu sou isto e eu amo esta cidade tal como ela me ama a mim. As gaivotas histéricas, constantes, os dias em que sinto irritantemente feminina. Aquele sino da Sé, um golo de cerveja para olear a estrutura enquanto defino o que ainda tenho para fazer no tempo que me resta para acabar o turno. Entende-me, eu estou aqui neste terraço. Ainda há um lampião do lado de baixo da travessa que acende e apaga. Acende e apaga, sempre foi assim, tenho medo que se apague de vez e acabe o jogo. O jogo consiste em arranjar uma justificação para tal desordem. Olha, vai por ali uma pessoa a passar, se calhar vai acender nesse momento, mas também depende do tipo de pessoa. Ideias carregadas de cepticismo, a luz que acende e apaga. Nunca acreditei em soluções brilhantes.
No terraço ouvem-se os diospiros do jardim abaixo a cairem. Imagino-os doces e rasgados na relva, à espera que algum de nós os apanhe, mas que forma mais altruísta de se matarem.
quarta-feira, outubro 01, 2008
tudo deve ser contado pelo menos uma vez
Tudo o que nos acontece, tudo o que falamos ou nos é narrado, tudo quanto vemos com os nossos próprios olhos ou sai da nossa língua ou entra pelos nossos ouvidos, tudo aquilo a que assistimos (e por que, portanto, somos de certo modo responsáveis), há-de ter um destinatário fora de nós, e esse destinatário vai sendo seleccionado por nós em função do que acontece ou nos dizem ou então dizemos nós. Cada coisa deverá ser contada a alguém - nem sempre a mesma pessoa, não necessariamente -, e cada coisa vai-se colocando de parte como quem folheia e aparta e vai destinando prendas futuras numa tarde de compras.
Tudo deve ser contado pelo menos uma vez, ainda que, como havia determinado Rylands com a sua autoridade literária, deva ser contado segundo os tempos. Ou, o que vem a dar no mesmo, no momento justo e às vezes nunca mais se não se soube reconhecer ou se deixou passar deliberadamente esse momento preciso. Esse momento apresenta-se às vezes (a maioria das vezes) de maneira imediata, inequívoca e compulsiva, mas muitas outras vezes apresenta-se apenas confusamente e ao fim de lustros ou décadas, como acontece com os grandes segredos. Mas nenhum segredo pode ou deve ser guardado para sempre do conhecimento de toda a gente, é forçoso que encontre pelo menos um destinatário uma vez na vida, uma vez na vida desse segredo.
É por isso que algumas pessoas reaparecem.
É por isso que nos condenamos sempre por aquilo que dizemos. Ou por aquilo que nos dizem.
Javier Marías, in "Todas as Almas"
Tudo deve ser contado pelo menos uma vez, ainda que, como havia determinado Rylands com a sua autoridade literária, deva ser contado segundo os tempos. Ou, o que vem a dar no mesmo, no momento justo e às vezes nunca mais se não se soube reconhecer ou se deixou passar deliberadamente esse momento preciso. Esse momento apresenta-se às vezes (a maioria das vezes) de maneira imediata, inequívoca e compulsiva, mas muitas outras vezes apresenta-se apenas confusamente e ao fim de lustros ou décadas, como acontece com os grandes segredos. Mas nenhum segredo pode ou deve ser guardado para sempre do conhecimento de toda a gente, é forçoso que encontre pelo menos um destinatário uma vez na vida, uma vez na vida desse segredo.
É por isso que algumas pessoas reaparecem.
É por isso que nos condenamos sempre por aquilo que dizemos. Ou por aquilo que nos dizem.
Javier Marías, in "Todas as Almas"
quinta-feira, setembro 25, 2008
pensar ou não pensar
Entro no Sr. Júlio e não o vejo. Está o filho, que é parecido com ele, a servir vinhos e petiscos. Está ali ao fundo um cliente magrinho e fininho que por aqui passa muitas vezes. Costuma beber vinho verde de fato e gravata. O fato fica-lhe largo, como se celebrasse com o alcóol os tempos de jovem quando os tecidos ainda se colavam ao corpo musculado. O bigode é farfalhudo, quase de polícia, e também não lhe cabe. Uma cara triangular, todas as linhas a acabarem num queixo pontiagudo e decidido.
Peço uma cerveja.
Talvez me apeteça presunto mas não peço.
De repente aparece o Sr. Júlio à minha frente. Diz boa tarde menina, pega numa faca e começa a cortar o presunto.
- Mas eu não pedi presunto.
- Mas eu sei que a menina quer. Além do mais não me esqueço de retribuir favores.
- Dei-lhe as batatas sem esperar nada em troca.
- Há uma coisa que se chama consideração.
Calei-me, à espera de ouvir. E continuou a falar. Sobre os anos 50, sobre comunismo, sobre escrita.
- Menina, dê continuidade à sua carreira intelectual.
Sr. Júlio, creio que já o possa ter desiludido. Para além do mais, começou o Outono e passo os dias a sentir as palavras a secarem quando pego no computador. Vou para o atelier e só encontro o passado. Ontem lavei muito bem a casa de banho, desfiz-me da tinta seca que andava a entupir o lavatório. Inscrevi-me num mestrado para aprender uma teoria da qual eu não estou minimamente convicta. Percebo as teorias tão bem, mas não as consigo ver acontecer. Tudo o que estudo parece-me tão distante do presente.
Hoje estou de facto preocupada se a sopa de alface vai ficar cremosa e se a vitela não endurece. Estive a arrumar a cozinha e deitei uma data de legumes fúnebres que me fizeram sentir viva.
Peço uma cerveja.
Talvez me apeteça presunto mas não peço.
De repente aparece o Sr. Júlio à minha frente. Diz boa tarde menina, pega numa faca e começa a cortar o presunto.
- Mas eu não pedi presunto.
- Mas eu sei que a menina quer. Além do mais não me esqueço de retribuir favores.
- Dei-lhe as batatas sem esperar nada em troca.
- Há uma coisa que se chama consideração.
Calei-me, à espera de ouvir. E continuou a falar. Sobre os anos 50, sobre comunismo, sobre escrita.
- Menina, dê continuidade à sua carreira intelectual.
Sr. Júlio, creio que já o possa ter desiludido. Para além do mais, começou o Outono e passo os dias a sentir as palavras a secarem quando pego no computador. Vou para o atelier e só encontro o passado. Ontem lavei muito bem a casa de banho, desfiz-me da tinta seca que andava a entupir o lavatório. Inscrevi-me num mestrado para aprender uma teoria da qual eu não estou minimamente convicta. Percebo as teorias tão bem, mas não as consigo ver acontecer. Tudo o que estudo parece-me tão distante do presente.
Hoje estou de facto preocupada se a sopa de alface vai ficar cremosa e se a vitela não endurece. Estive a arrumar a cozinha e deitei uma data de legumes fúnebres que me fizeram sentir viva.
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