terça-feira, janeiro 19, 2010
trás os pinheiros
A vida pesa quase sempre aqui em trás-os-montes e os olhos da gente da terra ficam escuros como troncos molhados.
Deus é salvador e carrasco, mas suspeito que ninguém se pergunta qual dos papéis lhe acenta melhor.
A voz da dona Otília é espessa, escura, tipo petróleo, e conta-me histórias de mulher agredidas e de homens assassinados por causa de terrenos baldios. Às vezes, à noite, depois de desligar os aquecedores, a voz dela escorre peganhenta e teimosa nos meus ouvidos. Procuro a denúncia que não encontro nos seus relatos. Ouço as palavras mortas das mulheres, os gritos distantes dos homens.
- Bom ano menina.
Eu comia uma massa com cogumelos e bróculos e sentia-me leve por estar a começar um novo ano. Aliás, nunca a passagem de um ano para o outro se tinha tornado tão simbólica assim. Haja propósitos, vivam as celebrações.
- A minha consoada foi atribulada menina, o avô da minha nora que não é nora, bá, namora para o meu filho, andava desaparecido há uns dias e apareceu morto no cimo de um pinheiro.
Natal, um homem morto no cimo de um pinheiro.
Dona Otília, vá lá à sua vida, que eu temo hoje nem sequer ligar o aquecedor, não vá o homem começar a brilhar a meio da noite.
Deus é salvador e carrasco, mas suspeito que ninguém se pergunta qual dos papéis lhe acenta melhor.
A voz da dona Otília é espessa, escura, tipo petróleo, e conta-me histórias de mulher agredidas e de homens assassinados por causa de terrenos baldios. Às vezes, à noite, depois de desligar os aquecedores, a voz dela escorre peganhenta e teimosa nos meus ouvidos. Procuro a denúncia que não encontro nos seus relatos. Ouço as palavras mortas das mulheres, os gritos distantes dos homens.
- Bom ano menina.
Eu comia uma massa com cogumelos e bróculos e sentia-me leve por estar a começar um novo ano. Aliás, nunca a passagem de um ano para o outro se tinha tornado tão simbólica assim. Haja propósitos, vivam as celebrações.
- A minha consoada foi atribulada menina, o avô da minha nora que não é nora, bá, namora para o meu filho, andava desaparecido há uns dias e apareceu morto no cimo de um pinheiro.
Natal, um homem morto no cimo de um pinheiro.
Dona Otília, vá lá à sua vida, que eu temo hoje nem sequer ligar o aquecedor, não vá o homem começar a brilhar a meio da noite.
domingo, janeiro 17, 2010
nuno júdice
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver
só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe
a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver
só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe
a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
terça-feira, janeiro 05, 2010
quarta-feira, dezembro 09, 2009
a quem o ensino dobra
Era professor da primária. Doce e frágil, quase enjoativo de tão meloso. Contou-me que não aguentou mais, que virou-se para a directora de escola e pediu um tempo para ele. A pressão dos pais dos meninos era excessiva. De vez em quando recebia um telefonema de um progenitor idiota qualquer que lhe perguntava porque é que o garoto tinha tantos trabalhos de casa. Coitado do garoto, a natação e a playstation de certeza que lhe ocupam demasiado tempo. E qualquer dia ainda apanha a gripe A. Depois tem um sinal na cara de que não gosta e já revela alguns problemas de sociabilização devido ao dito cujo. É pois evidente que não lhe sobra tempo para aprender a nossa língua, a matemática, a geografia, essas coisas acessórias.
Voltando à vaca fria, o professor virou-se para a directora e pediu tempo para ele. A directora concedeu-lhe, e esta é a única parte boa da história. Deixou tudo e foi fazer o caminho de Santiago.
A minha mãe não pode chumbar os alunos. Dá cursos profissionais ao secundário e tenta formar técnicos jurídicos e comerciais. Tudo uma treta. Perdoem-me os inocentes. Adolescentes que nunca estudaram na vida pelas mais diversas razões, são agora pagos por nós para andarem pra´li a gastar o polegar com sms. Se tiram uma negativa a um exame, a professorinha tem que dar mais duas oportunidades para ver se passa o pequeno príncipe. Isto é a total preversão do ensino e engana professores e alunos. O professor fica pois, sem hipótese nenhuma de cumprir a sua função. Triste e desiludido, vai para as aulas dos cursos profissionais sem vontade de ensinar coisa alguma, porque simplesmente não é esse o objectivo do próprio curso. Os alunos, que agora têm a faca, o queijo e o telemóvel na mão, regojizam-se com o seu poder e ignorância. Depois saem no 12º ano e vão trabalhar para a Bershka ouvir música a decibéis que deviam ser proibidos, e dobrar camisolas já com borboto que lhes poupam a tarefa de pensar. Mas isso é só na melhor das hipóteses. Porque depois do canudo da mão, o garoto acha-se demasiado importante para fazer tal coisa
(convenceram-no disso), e prefere esperar outra vez com a playstation numa mão e o risco de apanhar gripe A na outra, de um trabalho como técnico jurídico ou comercial. Pura ilusão.
(a culpa não é dos garotos e trabalhar na bershka é tão digno como outra coisa qualquer, mas quisesse este governo formar pessoas e não números e tudo era tão diferente)
Voltando à vaca fria, o professor virou-se para a directora e pediu tempo para ele. A directora concedeu-lhe, e esta é a única parte boa da história. Deixou tudo e foi fazer o caminho de Santiago.
A minha mãe não pode chumbar os alunos. Dá cursos profissionais ao secundário e tenta formar técnicos jurídicos e comerciais. Tudo uma treta. Perdoem-me os inocentes. Adolescentes que nunca estudaram na vida pelas mais diversas razões, são agora pagos por nós para andarem pra´li a gastar o polegar com sms. Se tiram uma negativa a um exame, a professorinha tem que dar mais duas oportunidades para ver se passa o pequeno príncipe. Isto é a total preversão do ensino e engana professores e alunos. O professor fica pois, sem hipótese nenhuma de cumprir a sua função. Triste e desiludido, vai para as aulas dos cursos profissionais sem vontade de ensinar coisa alguma, porque simplesmente não é esse o objectivo do próprio curso. Os alunos, que agora têm a faca, o queijo e o telemóvel na mão, regojizam-se com o seu poder e ignorância. Depois saem no 12º ano e vão trabalhar para a Bershka ouvir música a decibéis que deviam ser proibidos, e dobrar camisolas já com borboto que lhes poupam a tarefa de pensar. Mas isso é só na melhor das hipóteses. Porque depois do canudo da mão, o garoto acha-se demasiado importante para fazer tal coisa
(convenceram-no disso), e prefere esperar outra vez com a playstation numa mão e o risco de apanhar gripe A na outra, de um trabalho como técnico jurídico ou comercial. Pura ilusão.
(a culpa não é dos garotos e trabalhar na bershka é tão digno como outra coisa qualquer, mas quisesse este governo formar pessoas e não números e tudo era tão diferente)
terça-feira, dezembro 08, 2009
quinta-feira, dezembro 03, 2009
sendo bernard n´ as ondas de virgina
Desde que me sentei nesta mesa sinto uma deliciosa confusão de incertezas, de possibilidades, de hipóteses. As imagens formam-se por geração espontânea. Sinto-me incomodado com a minha própria fecundidade. Seria capaz de descrever com a maior profusão de detalhes cada cadeira, cada mesa, cada comensal. O meu espírito zumbe por aqui e ali, pronto a cobrir todas as coisas com um véu de palavras. Falar, mesmo que apenas para pedir vinho ao empregado, é provocar uma explosão. O foguete é lançado aos ares. Os seus grãos dourados caem e fertilizam o solo da minha imaginação. O imprevisto desta explosão está na alegria de comunicar. Quem sou eu misturado com este desconhecido empregado? Neste mundo não existe estabilidade. Quem será capaz de exprimir o significado das coisas? Quem pode prever o voo que uma palavra descreve depois de dita? é um balão que plana sobre as árvores. E o esforço de conhecer é sempre inútil. Tudo é experiência e aventura. Constantemente formamos novas combinações de elementos desconhecidos. O que está para vir? Ignoro-o completamente. Mas no momento que pouso o copo sobre a mesa a memória volta. Estou noivo. Esta noite janto com os meus amigos. Sou Bernard. Sou eu.
quinta-feira, novembro 19, 2009
segunda-feira, novembro 16, 2009
páre, escute e olhe (quero ver este documentário)
Perdeu-se definitivamente o pudor.
Saio de casa apressada a pensar no haveria de dar à tia Lena nos anos. Uma medalhinha, pensei, depois de bater a porta. Ora aí está, uma medalhinha religiosa. A minha tia Lena converteu-se aos 45 depois de conhecer o homem da vida. A família estava convencida que a tia ia ficar a vida toda a cozinhar biscoitos de gengibre e a gastar os salários de funcionária pública com os sobrinhos. Enganaram-se. Numa excursão ao Egipto ela apaixonou-se por um senhor chamado Manuel Gregório. Casaram-se passados 4 meses depois do encontro nas esfinges. O Manuel Gregório era viúvo e católico convicto. Convenceu-a que temos direito à vida eterna em dois tempos.
Estava a chover e dirigi-me a uma ourivesaria muito perto de casa que vende ouro e prata em segunda mão. O estabelecimento é minúsculo, assim todo enviesado, não mais que 4 pessoas lá dentro. Eis que aparece uma loira perfumada chamada Vânia com um homem alto a botar corpo. Pareciam vila realenses descendentes de russos se é que isso já é possível.
Dei-lhes generosamente a minha vez enquanto me esforçava para sentir o que me queria dizer cada santa. Por momentos pensei que alguma pudesse pertencer a qualquer a vila realense russo e não achei grande piada.
O casal queria comprar uma capa para isqueiro em prata. Que coisa mais absurda. Meter um bic dentro e fazer de conta. A senhora da ourivesaria diz que não tem muita coisa, aliás, que a única capa que tem é uma em filigrana. A tipa olha para a capa de isqueiro em filigrana e diz isto para o homem encorpado:
- Oh babe, isto é um bocado à gay, não é?
O babe não responde. A mulher da ourivesaria também não disse nada e eu já tinha ouvido a voz da santa que me confessou querer fugir da Vânia e da loja enviesada.
- Babe, isto é à gay, não achas?
As salvas de prata começaram a tilintar. O ouro fez-me lembrar a viagem ao egipto da tia Lena. Meninos na primeira comunhão tão queridos quanto puros, com as meiinhas de renda puxadas até ao joelho. Casais apaixonados a escolherem alianças. Bebés a levarem água benta. O velho que vai comprar a jóia mais cara à secretária. Todo um mundo sem Vânias.
Meti-me na conversa e disse que era aquela a medalha que queria levar.
Saio de casa apressada a pensar no haveria de dar à tia Lena nos anos. Uma medalhinha, pensei, depois de bater a porta. Ora aí está, uma medalhinha religiosa. A minha tia Lena converteu-se aos 45 depois de conhecer o homem da vida. A família estava convencida que a tia ia ficar a vida toda a cozinhar biscoitos de gengibre e a gastar os salários de funcionária pública com os sobrinhos. Enganaram-se. Numa excursão ao Egipto ela apaixonou-se por um senhor chamado Manuel Gregório. Casaram-se passados 4 meses depois do encontro nas esfinges. O Manuel Gregório era viúvo e católico convicto. Convenceu-a que temos direito à vida eterna em dois tempos.
Estava a chover e dirigi-me a uma ourivesaria muito perto de casa que vende ouro e prata em segunda mão. O estabelecimento é minúsculo, assim todo enviesado, não mais que 4 pessoas lá dentro. Eis que aparece uma loira perfumada chamada Vânia com um homem alto a botar corpo. Pareciam vila realenses descendentes de russos se é que isso já é possível.
Dei-lhes generosamente a minha vez enquanto me esforçava para sentir o que me queria dizer cada santa. Por momentos pensei que alguma pudesse pertencer a qualquer a vila realense russo e não achei grande piada.
O casal queria comprar uma capa para isqueiro em prata. Que coisa mais absurda. Meter um bic dentro e fazer de conta. A senhora da ourivesaria diz que não tem muita coisa, aliás, que a única capa que tem é uma em filigrana. A tipa olha para a capa de isqueiro em filigrana e diz isto para o homem encorpado:
- Oh babe, isto é um bocado à gay, não é?
O babe não responde. A mulher da ourivesaria também não disse nada e eu já tinha ouvido a voz da santa que me confessou querer fugir da Vânia e da loja enviesada.
- Babe, isto é à gay, não achas?
As salvas de prata começaram a tilintar. O ouro fez-me lembrar a viagem ao egipto da tia Lena. Meninos na primeira comunhão tão queridos quanto puros, com as meiinhas de renda puxadas até ao joelho. Casais apaixonados a escolherem alianças. Bebés a levarem água benta. O velho que vai comprar a jóia mais cara à secretária. Todo um mundo sem Vânias.
Meti-me na conversa e disse que era aquela a medalha que queria levar.
quarta-feira, novembro 04, 2009
rua
A florista invadiu-nos a entrada do solar. Abro a porta e tropeço nos molhos de crisântemos, dou de caras com os arranjos para os mortos. Cheira tudo a água e a verdes, faltam as velas e o silêncio duro dos sítios sérios para se poder velar ali alguém. Nunca tinha visto a menina Iolanda tão atarantada como nesta altura do ano. Ontem disse-me que no sábado ficou até às 4 da manhã a fazer arranjos.
- Oh menina, e nem imagina o que foi para aqui. Os seus vizinhos fizeram uma festa até às tantas. Uns drogados, pertencem aquele grupo, os rastas. Era o dia das bruxas ou lá o que era.
- Oh dona Iolanda, deixe-se lá disso. Dê-me por favor um vasinho de incenso e outro de avenca.
(é princípio do mês e eu gosto de comprar plantas, dar-lhes nomes e abençoar os dias que chegarão)
Regressando aos mortos. Param carros e caras de todos os géneros à porta. É a única florista do centro, detém o monopólio do cemitério local. A senhora da loja dos bordados espreita para ver se conhece alguém. Tem pouco cabelo que arranja com minúcia. O marido tem cara de balão vazio como se um dia tivesse deixado a humanidade dentro de um edredon e nunca mais se tivesse lembrado que a tinha perdido. Vendem bordados, colchas, edredons, essas coisas, mas nunca os vi a venderem nada. A dona Iolanda, mulher altiva e determinada, nunca falou com o casal vago e vazio de poucos cabelos e muitos bordados. A Dona Iolanda está sempre na tagarelice com a menina da loja de antiguidades que fica plantada à porta a dizer que tem frio o dia todo e esfrega as mãos com método e perícia.
- Oh menina, e nem imagina o que foi para aqui. Os seus vizinhos fizeram uma festa até às tantas. Uns drogados, pertencem aquele grupo, os rastas. Era o dia das bruxas ou lá o que era.
- Oh dona Iolanda, deixe-se lá disso. Dê-me por favor um vasinho de incenso e outro de avenca.
(é princípio do mês e eu gosto de comprar plantas, dar-lhes nomes e abençoar os dias que chegarão)
Regressando aos mortos. Param carros e caras de todos os géneros à porta. É a única florista do centro, detém o monopólio do cemitério local. A senhora da loja dos bordados espreita para ver se conhece alguém. Tem pouco cabelo que arranja com minúcia. O marido tem cara de balão vazio como se um dia tivesse deixado a humanidade dentro de um edredon e nunca mais se tivesse lembrado que a tinha perdido. Vendem bordados, colchas, edredons, essas coisas, mas nunca os vi a venderem nada. A dona Iolanda, mulher altiva e determinada, nunca falou com o casal vago e vazio de poucos cabelos e muitos bordados. A Dona Iolanda está sempre na tagarelice com a menina da loja de antiguidades que fica plantada à porta a dizer que tem frio o dia todo e esfrega as mãos com método e perícia.
sexta-feira, outubro 30, 2009
pedrinhas e petróleo
Está toda gente muito preocupada com o calor. Que é verão no outono. Que andamos pra´qui de havaina enquanto a bota de inverno espera mofenta no armário. Que o mundo está doido.
Ontem cheguei a casa a suar. Eram sete e meia e vi o Adriano outra vez. Estava na esplanada com o Toni, companheiro de escadotes e bagaços. O Toni usa uma placa muito mal feita que me deixa sempre angustiada. Os dentes são demasiado brancos, assim para fora, tipo desenho animado. Irrita-me o Toni. Mal os vi, comecei a andar muito rápido em direcção a casa. Tropecei num meco, disfarcei. Entrei em casa, subi velozmente a escada como se aqueles dentes grandes e mal feitos tivessem pernas histéricas e pudessem correr atrás de mim.
Sentei-me no sofá de veludo, as repas colavam à testa. No Telejornal, apareceu uma jovem repórter na praia a entrevistar pessoas. Parece-me absurdo entrevistar pessoas na praia só porque está bom tempo e não é suposto estar.
Veio então uma palavra à cabeça: piche. Eu vou escrever outra vez: piche. Piche. O tempo está descontrolado, os glaciares a derreterem, pois claro. Mas brincar entre baldes e petróleo é outra fruta. Hoje em dia qualquer mamã encontra facilmente uma praia de bandeira azul, onde a filhinha asséptica brinca responsável com a Hello Kitty de lantejoulas que não se pode partir. Tem lâmpadas económicas à venda no IKEA. Um eco ponto ao virar da esquina. Um blog onde poderá criar um movimento amigos do ambiente e organizar eventos eco-qualquer-coisa. Até aposto que o email do Al Gore está disponivel algures na internet, para quem quiser tirar dúvidas. Não devemos queixar-nos do calor, queixar é feio.
(cá para mim, os dentes do Toni e o piche são muito piores que as repas coladas à testa no final de Outubro)
Ontem cheguei a casa a suar. Eram sete e meia e vi o Adriano outra vez. Estava na esplanada com o Toni, companheiro de escadotes e bagaços. O Toni usa uma placa muito mal feita que me deixa sempre angustiada. Os dentes são demasiado brancos, assim para fora, tipo desenho animado. Irrita-me o Toni. Mal os vi, comecei a andar muito rápido em direcção a casa. Tropecei num meco, disfarcei. Entrei em casa, subi velozmente a escada como se aqueles dentes grandes e mal feitos tivessem pernas histéricas e pudessem correr atrás de mim.
Sentei-me no sofá de veludo, as repas colavam à testa. No Telejornal, apareceu uma jovem repórter na praia a entrevistar pessoas. Parece-me absurdo entrevistar pessoas na praia só porque está bom tempo e não é suposto estar.
Veio então uma palavra à cabeça: piche. Eu vou escrever outra vez: piche. Piche. O tempo está descontrolado, os glaciares a derreterem, pois claro. Mas brincar entre baldes e petróleo é outra fruta. Hoje em dia qualquer mamã encontra facilmente uma praia de bandeira azul, onde a filhinha asséptica brinca responsável com a Hello Kitty de lantejoulas que não se pode partir. Tem lâmpadas económicas à venda no IKEA. Um eco ponto ao virar da esquina. Um blog onde poderá criar um movimento amigos do ambiente e organizar eventos eco-qualquer-coisa. Até aposto que o email do Al Gore está disponivel algures na internet, para quem quiser tirar dúvidas. Não devemos queixar-nos do calor, queixar é feio.
(cá para mim, os dentes do Toni e o piche são muito piores que as repas coladas à testa no final de Outubro)
segunda-feira, outubro 19, 2009
cê dês
O Joel não sabe aparafusar coisas.
(Joel, perdoa-me, mas isto aqui agora é um espaço de ficção)
Gosto dele assim, fica irritado com os bricolages. Eu estou que nem posso com bricolages. Hoje montei a garrafeira e a coisa dos cd´s. Peguei nos meus cd´s e nos dele e juntei-os assim aleatoriamente nas prateleiras do IKEA. Não dividi por estilos de música porque não me sinto confortável com certas metodologias nem seus resultados. Gosto de encontrar o cd de kuduro que o Dalton me ofereceu onde pensava estar o concerto de Keith Jarret que roubei ao meu pai.
E de repente, com a chave inglesa na mão percebi inesperadamente a minha vida:
- um monte de prateleiras desarrumadas
- a madeira é fina e velha
- algumas têm bicho mas nunca visualizo a morfologia do insecto
- as mais velhas, aquelas que estão em cima, caem sobre as outras que estão novas e belas e fica prá´li uma mistura esquiza entre densidade matérica e fragilidade histórica à espera que aconteça um novo big bang
Penso em palavras tipo "árvore" ou "origem". Abafo qualquer vislumbre de introspecção. Releio o papelinho explicativo do IKEA que descreve todos os passos que devo seguir. Rio-me, penso que o Joel vai ter imensas garrafas para encher a garrafeira e aperto com força a chave inglesa.
(Joel, perdoa-me, mas isto aqui agora é um espaço de ficção)
Gosto dele assim, fica irritado com os bricolages. Eu estou que nem posso com bricolages. Hoje montei a garrafeira e a coisa dos cd´s. Peguei nos meus cd´s e nos dele e juntei-os assim aleatoriamente nas prateleiras do IKEA. Não dividi por estilos de música porque não me sinto confortável com certas metodologias nem seus resultados. Gosto de encontrar o cd de kuduro que o Dalton me ofereceu onde pensava estar o concerto de Keith Jarret que roubei ao meu pai.
E de repente, com a chave inglesa na mão percebi inesperadamente a minha vida:
- um monte de prateleiras desarrumadas
- a madeira é fina e velha
- algumas têm bicho mas nunca visualizo a morfologia do insecto
- as mais velhas, aquelas que estão em cima, caem sobre as outras que estão novas e belas e fica prá´li uma mistura esquiza entre densidade matérica e fragilidade histórica à espera que aconteça um novo big bang
Penso em palavras tipo "árvore" ou "origem". Abafo qualquer vislumbre de introspecção. Releio o papelinho explicativo do IKEA que descreve todos os passos que devo seguir. Rio-me, penso que o Joel vai ter imensas garrafas para encher a garrafeira e aperto com força a chave inglesa.
domingo, outubro 18, 2009
quarta-feira, outubro 14, 2009
1ª tentativa
Eu não queria ter tido aquela conversa. Estava sentada a comer um covilhete na Gomes a pensar como é que se fazia aquela porra daquela massa folhada. Aparece Adriano, o empreiteiro. O Adriano tem uma mulher asseada e pontual que se chama Ingrácia e é porteira do prédio onde vive. Se a idade dos filhos não enganar, eles devem estar casados há coisa de 40 anos. A filha é juíza, e o filho vive em Palma de Maiorca com uma alemã que conheceu durante a viagem de fim de curso.
Estava sentada a pensar na massa folhada, não sei fazer massa folhada assim. Adriano:
- Menina, posso sentar-me?
E senta-se. Perco a massa folhada e a imaginação matinal. Adriano cheira a álcool barato, costumo encontrá-lo numa taberna que se chama baca belha. Estão sempre os mesmo homens lá dentro e acredito que nunca estiveram outros desde 1900, data de abertura do estabelecimento. O álcool conservou a vida e os hábitos destes homens, que parecem carregar nas dentaduras o peso das serras em redor.
Sei que Adriano não usa dentadura porque os dentes dele são enormes e separados. Imagino o cabrito de domingo enfiado naqueles espaços vazios e mortos, o bagaço do baca belha a infiltrar-se veloz pelas rachas e a arder na garganta.
Adriano sentou-se e o tributo que presto às manhãs foi por água abaixo. Depois prás, para apimentar a coisa, ainda confessou que era poligâmico.
(não usou a palavra poligâmico)
Acabei o covilhete e disse-lhe que eu não era e que não gostava que o Joel fosse. Chamou-me egoísta. Que eu não sei respeitar a natureza humana, que isto é mesmo assim. Engoli o que me disse sem mastigar, não conheço a natureza humana para poder discuti-la. Pensei na Ingrácia sentada à porta do prédio a ouvir o som do elevador, mas acho que não foi por pena.
(Na semana passada o Gil disse-me que escrevo sobre coisas reais: aquilo que acontece, as pessoas que conheço, os pequenos nadas que vivo. Vim para casa miserável, com o gin tónico a borbulhar a pergunta o que é criar na cabeça e a esbofetear a artista que já conheci)
Estava sentada a pensar na massa folhada, não sei fazer massa folhada assim. Adriano:
- Menina, posso sentar-me?
E senta-se. Perco a massa folhada e a imaginação matinal. Adriano cheira a álcool barato, costumo encontrá-lo numa taberna que se chama baca belha. Estão sempre os mesmo homens lá dentro e acredito que nunca estiveram outros desde 1900, data de abertura do estabelecimento. O álcool conservou a vida e os hábitos destes homens, que parecem carregar nas dentaduras o peso das serras em redor.
Sei que Adriano não usa dentadura porque os dentes dele são enormes e separados. Imagino o cabrito de domingo enfiado naqueles espaços vazios e mortos, o bagaço do baca belha a infiltrar-se veloz pelas rachas e a arder na garganta.
Adriano sentou-se e o tributo que presto às manhãs foi por água abaixo. Depois prás, para apimentar a coisa, ainda confessou que era poligâmico.
(não usou a palavra poligâmico)
Acabei o covilhete e disse-lhe que eu não era e que não gostava que o Joel fosse. Chamou-me egoísta. Que eu não sei respeitar a natureza humana, que isto é mesmo assim. Engoli o que me disse sem mastigar, não conheço a natureza humana para poder discuti-la. Pensei na Ingrácia sentada à porta do prédio a ouvir o som do elevador, mas acho que não foi por pena.
(Na semana passada o Gil disse-me que escrevo sobre coisas reais: aquilo que acontece, as pessoas que conheço, os pequenos nadas que vivo. Vim para casa miserável, com o gin tónico a borbulhar a pergunta o que é criar na cabeça e a esbofetear a artista que já conheci)
quinta-feira, outubro 01, 2009
por quem os sinos dobram
É tempo de diospiros. Caem pesados e abertos como dantes. Desconfio em silêncio, que, com o passar dos anos e a sé ali ao lado, começam a respeitar o que lhes diz o sino. Imagino-os quietos e obedientes na hora da missa. Depois, na hora da libertação em que tudo vale, caem esparrachados no chão, que é mesmo assim. Tento explicar o verbo esparrachar a um inglês mas não consigo. Nem sei bem se existe mesmo em portugês mas isso pouco interessa, porque há formas que não tem conteúdo e são formas na mesma. A poesia fica comigo e guardo-a com medo que não dure até à secretária.
(Um dia mando esta merda toda às urtigas: telemóvel, carro, computador. Este mês o telemóvel deixou de dar por uns dias, o computador apanhou água e não tem arranjo, o carro amuou no meio da estrada e não voltou a ligar, a objectiva da máquina nova caiu veloz no xisto duriense e partiu-se. Tendo a acreditar numa nova ciência oculta que pretende acabar com os I-phones de todo o mundo e chamar-nos à ciência dos diospiros, desses que vivem suspensos e caem, felizes e conformados ao tocar do sino)
(Um dia mando esta merda toda às urtigas: telemóvel, carro, computador. Este mês o telemóvel deixou de dar por uns dias, o computador apanhou água e não tem arranjo, o carro amuou no meio da estrada e não voltou a ligar, a objectiva da máquina nova caiu veloz no xisto duriense e partiu-se. Tendo a acreditar numa nova ciência oculta que pretende acabar com os I-phones de todo o mundo e chamar-nos à ciência dos diospiros, desses que vivem suspensos e caem, felizes e conformados ao tocar do sino)
quinta-feira, setembro 17, 2009
segunda-feira, setembro 14, 2009
moço de azul escuro
O homem toca à porta. Abro-lhe a porta ainda com as almôdegas a entupirem-me o esófago. O homem toca e eu corro para a entrada. Digo-lhe "hi" e responde-me em inglês, que queria um quarto para hoje à noite. O homem toca e eu reparo que ele manca, manca muito. É de meia idade e tem cabelos grizalhos que deixam cair caspa na t-shirt azul tipo polo.
(o azul é escuro e é capaz de ter uma risca branca na gola)
Recapitulemos: temos um homem de meia idade, manco, caspa nos ombros cobertos por uma t-shirt azul tipo polo, magro, estatura média. Até aqui tudo bem.
Mas depois há o que se vê, talvez o que se sente (sentir é uma palavra estranha como o homem), que não são polos sujos nem pernas insuficientes. Eu vi um homem estranho, não sei bem porquê. Os olhos: de quem queria comer o mundo às escondidas e deixar os restos para os que hão-de vir.
Mostro-lhe o quarto e as almôndegas ali ficam, nesse espaço de indecisão e de sangue, de quem não sabe se pode perder um cliente só porque lhe cheira mal o estrogido.
Mas ele não espera para ser condenado. Abriu-se como um porco na matança. Expôs em meio segundo a solidão que o governa.
- Acha que é fácil aqui arranjar mocinha?
(as almôndegas em queda livre no estômago)
- O quê?
- Mocinha?
- O quê?
- Uma moça.
Só lhe disse que não estava no sítio certo. Fechei a porta do quarto e comecei a andar muito rápido em direcção à saída.
(as almôndegas já no fim do intestino)
Ele seguiu-me até à porta assim, manco, lento, calado, sem objecções, os olhos postos o chão e a caspa dos ombros intacta.
(o azul é escuro e é capaz de ter uma risca branca na gola)
Recapitulemos: temos um homem de meia idade, manco, caspa nos ombros cobertos por uma t-shirt azul tipo polo, magro, estatura média. Até aqui tudo bem.
Mas depois há o que se vê, talvez o que se sente (sentir é uma palavra estranha como o homem), que não são polos sujos nem pernas insuficientes. Eu vi um homem estranho, não sei bem porquê. Os olhos: de quem queria comer o mundo às escondidas e deixar os restos para os que hão-de vir.
Mostro-lhe o quarto e as almôndegas ali ficam, nesse espaço de indecisão e de sangue, de quem não sabe se pode perder um cliente só porque lhe cheira mal o estrogido.
Mas ele não espera para ser condenado. Abriu-se como um porco na matança. Expôs em meio segundo a solidão que o governa.
- Acha que é fácil aqui arranjar mocinha?
(as almôndegas em queda livre no estômago)
- O quê?
- Mocinha?
- O quê?
- Uma moça.
Só lhe disse que não estava no sítio certo. Fechei a porta do quarto e comecei a andar muito rápido em direcção à saída.
(as almôndegas já no fim do intestino)
Ele seguiu-me até à porta assim, manco, lento, calado, sem objecções, os olhos postos o chão e a caspa dos ombros intacta.
quinta-feira, agosto 20, 2009
pastorsarinho
Caiu um vidro da casa de banho. Jaz sossegado e intacto no telhado do vizinho. O telhado do vizinho tem uma rede que fez com que a coisa não se partisse. Não entendo muito bem como é que um vidro daquela dimensão não se estilhaça em 300 bocados. Outro dia um pássaro entrou pelo buraco sem vidro, foi até à sala e cagou o gira-discos do Joel.
Tenho tendência para acreditar em lógicas deste género:
- O vidro caiu e não se partiu porque um milagre aconteceu.
É por isso que ainda não o fui buscar. Deleito-me sentada na retrete a olhar para aquela coisa perfeita e intacta na rede. Tenho até alguma esperança (pouca) que o vidro volte silenciosamente para o sítio que é dele, incentivado pelo pássaro arrependido que me cagou o gira-discos e que agora decide carregá-lo até cá cima.
Vamos passarinho, podes começar, olha que ninguém vê mesmo.
Tenho tendência para acreditar em lógicas deste género:
- O vidro caiu e não se partiu porque um milagre aconteceu.
É por isso que ainda não o fui buscar. Deleito-me sentada na retrete a olhar para aquela coisa perfeita e intacta na rede. Tenho até alguma esperança (pouca) que o vidro volte silenciosamente para o sítio que é dele, incentivado pelo pássaro arrependido que me cagou o gira-discos e que agora decide carregá-lo até cá cima.
Vamos passarinho, podes começar, olha que ninguém vê mesmo.
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