sexta-feira, agosto 29, 2008

a sudden gust of wind

água

Cheguei a casa. A minha mãe.
A minha mãe estava de branco e comia um pão de cereais com azeite.
No balcão da cozinha um chá de rosas. Eram botões de rosa cor de rosa botoezinhos assim pequeninos que depois ficam mais bonitos e abertos com a água a ferver. A casa estava a uma temperatura perfeita. A casa tinha sido pintada há dois dias e nem cheirava a tinta como eu gosto. Seco, branco e luz. Espaço e rosas pequeninas que bebemos as duas. Lembrei-me da palavra purgatório. A minha mãe usa camisas de noite brancas que parecem sempre passadas e cheiram ao chá. Depois a minha mãe perguntou-me se eu queria ir almoçar a um vegetariano chamado terra. No terra comemos tofu e arroz integral. Ela pediu um sumo de banana, iogurte e canela e disse várias vezes e todas as vezes como se fosse a primeira:
- Este sumo que está óptimo.
Acho que a sua intenção era que eu pedisse um sumo igualmente de banana, iogurte e canela, mas a mim não me apetecia e por isso não pedi. Pedi uma água das pedras que vinha fresca como eu gosto e não comi sobremesa porque não me apetecia. O telemóvel tocou uma vez e eu não atendi. Viemos as duas a pé pelo mar até a casa, onde eu adormeci por opção.
Escrevi este texto para quem não gostou do sangue do texto anterior. Há sempre alguém que não gosta.

segunda-feira, agosto 25, 2008

a massa

Ela disse:
- O quê, o meu bacalhau com natas não é bom? Tu nunca provaste o meu bacalhau com natas.
A irmã respondeu que já tinha provado e não tinha achado assim nada de especial, naquela quinta feira em que todos comemos juntos. Eu não estava nesse dia. Afinal o bacalhau tinha natas a mais, acabou por confessar a primeira, mas eu sei fazer esse prato que é uma maravilha.
Ela quase que podia ser alta e já foi loira um dia. Não sei desde quando é que quer continuar a ter uma cor na cabeça que já não tem. Não sei onde estava eu nessa quinta feira onde a cor do cabelo talvez se pudesse confundir com a cor do prato e está a apetecer-me vomitar lascas de pensamentos salgados sem qualquer grau de parentesco.
Talvez tenha sido no dia do bacalhau em que conheci a outra senhora de azul que gostava de falar de sangue. Um homem dali morreu e o sangue a sair-lhe pelas orelhas, pelo nariz e tudo. Falava em sangue e bebia leite. Ao lado, cassetes com cantores de penteados duvidosos e olhares penetrantes assistiam frios e impunes à conversa avinagrada. É a vida, olhe, tão novo. E o cantor em silêncio. Só ela falava, a senhora de azul. Eu, que estava com um vestido preto às flores brancas, senti-me possível toalha onde possivelmente se pudesse colocar um prato com peixinhos fritos do rio e recordar entre duas espinhas, possíveis feitos históricos do homem recentemente vivo.
Só não gostei quando vi o saquinho branco do sangue do frango no balcão da cozinha onde se fez o bacalhau com natas. Era arroz de cabidela para o almoço e sinto que este texto está mal cozido e ainda não se lhe tiraram as entranhas ao pito. Na mesma cozinha onde na quinta feira se fez o bacalhau com natas que eu não pude provar, estava um saquinho de sangue fresco para juntar ao arroz. O saquinho parecia daqueles antigos com leite do dia mas tinha sangue em vez de leite, ainda que ambos sejam símbolos de vida e fertilidade. Reparei que o sangue estava cheio de conservantes. Afinal não custa nada comer aquilo, não está tão vivo assim. Isto de matar o bicho e manter o sangue fresco com meia dúzia de números e E´s é de um cinismo atroz.
O que diria a senhora de azul quando visse isto, talvez:
- O meu arroz de cabidela é melhor que o teu, nunca provaste um assim.
Os cantores das cassetes fechados em armaduras de metal, mortos desde sempre naquele mostrador que roda e nós vamos vendo as caras deles ou eles as nossas.
Que fome, dizem, há tanto tempo que não via uma toalha tão bonita.

sexta-feira, agosto 01, 2008

pequenez

Como isto foi acontecer não sei bem. Não quero saber.
Entro no Sr. Júlio com um saco de batatas na mão para lhe oferecer. Vinha pesada, não sei se das coisas na mão ou na cabeça.
Passo o balcão e entro para a cozinha como se fosse minha, há espaços que se tornam nossos porque os já imaginámos antes. Deixo cair o saco e está lá ele, de avental branco e olhar satírico.

- Oh menina, então diga lá como é que se foi lembrar do Big Júlio.

Aquele "big" antes do nome soou-me estranho, mas ignorei-o. Aliás, pensei que se estava a referir às batatas, tipo - oh menina diga lá o que lhe deu para se lembrar de mim enquanto podia oferecer batatas mas é à sua família. Mas não. É então que tira um pedaço de papel que estava em cima do frigorífico. As mãos, que parecem de ferro, acentuam a leveza daquele pedacinho branco com letras impressas.
Leio, leio-me, e encontro-me na cozinha a ler o que escrevi sobre ele e tudo o que aquela tasca significa para mim. Já não sei o que é real - se o que escrevi, se o que estou a ver.
Fico envergonhada. Ele diz-me que aquilo foi lá parar através de outro cliente.
Peço uns petiscos em busca da verdade.
É então que diz:

- A menina não tema pelo seu futuro. A menina escreve muito bem e sabe articular a imaginação. Não tema, ouviu?

O Sr. Júlio leu o meu blog.
Em papel, claro.

domingo, julho 27, 2008

rotas

Adorava saber o que se passa cá dentro quando me sinto cansada.
E porquê, porque raio é que nos sentimos cansados. Quem é que me programou de forma a que se dormir 6 em vez de 8 horas eu vou ter que ficar assim, rota, toda rota como se costuma dizer. Rota quer dizer com buracos, e pelos buracos deixamos entrar (ou sair) coisas que não queremos (ou queremos). Estou toda rota, e mais uma vez é a escrita que me faz perceber as coisas, organiza-me o que sinto, é a mulher a dias do meu pensamento.
(lembrei-me agora que rota pode ser caminho e vou tentar aproveitar-me disso para me sentir melhor, mas só quando acabar este texto)
Entretenho-me a pensar na palavra em vez de sentir o cansaço. A minha avó não diz rota como eu digo, ela só a usa para quando há tecidos com buracos e pede à Lé para cosê-los.
- Celeste, esta camisa está rota.
A Lé é a costureira, cose coisas, mas eu não sei coser como ela, ao menos se conseguisse medir e cortar o que sinto. Estou cansada mais 10 cm do que o normal, peguemos na tesoura e deixemos cair na alcatifa fios, linhas e pedaços de coisas que não nos servem. Ela mexe com tecidos e eu olho para a minha pele, parece-me meia baça de não ter dormido, penso:
- Lé podias engomar-me a cara, passavas-me a boca e os olhos a ferro, o nariz não está tão mal assim. Passa a minha pele com esse ferro dos antigos que não é de plástico como os que se encontram na worten, uma modernice que não serve para nada dirias.
Já que és professional e tens uma singer, cose-me depois os buracos que me fazem sentir rota, que eu fico com a parte da limpeza. Deixa que eu pego na vassoura, junto as palavras todas num cantinho, empurro-as para o apanhador e deito-as aqui.
Obrigado.

quinta-feira, julho 17, 2008

restos

Quando fiz anos a minha irmã ofereceu-me um frasco de espargos verdes marca continente .
Adoro espargos verdes. Quando era nem criança nem adolescente ia com a minha avó ao carrefour e ficava a olhar para a prateleira das conservas para poder comparar os preços entre os espargos brancos e verdes, gordos ou magros, de lata ou vidro.

- Avó, hoje posso levar espargos?
- Não se pode vir com vocês às compras.

As idas ao carrefour tinham carro, cheiro e horas próprias. Íamos com uma amiga não muito velha da minha avó chamada Laidú. Sim, Lai Du. Uma mistura de chinês com crioulo. Ela própria tinha um cabelo bastante étnico, qualquer coisa entre um penteado afro e uma banalíssima "mise" ocidental. Poucas vezes lhe vi aquele cabelo - usava daqueles lenços plastificados para a cabeça como se estivesse sempre a chover. O carro era com estofos fofos, quentes, cinzentos, uma delícia para as viagens até Gaia que me pareciam longas.
Após uma hora e tal, a Laidú regressava sempre com dois ou três sacos meios frouxos, nunca percebi bem o que andava para ali a fazer durante tanto tempo.
Hoje abri o frasco dos anos no hostel, mesmo antes de almoçar.
Os aperitivos sempre me souberam melhor do que qualquer outra coisa.
Pensei que talvez houvesse uma maionese perdida de alguém que já foi embora.
Estavam lá várias, tipo hipermercado.
Escolhi a Calvé, a minha favorita, para misturar com os espargos.
Imaginei a Laidu à porta do Carrefour à minha espera, o canadiano que deixou aquilo ali, a minha irmã a tirar a prenda da carteira, a minha avó a dizer sim podes levar, e conclui mais uma vez que ver o todo em vez das partes é sempre muito mais interessante.
Esta coisa da vida é complexa e por isso difícil de se ver. Tal como uma uma teia de aranha. Convém sempre vasculhar o que resta nos cantos dos frigoríficos.

dedão

Como é que hei-de explicar, o dedo grande do pé dela, o dedo grande do pé dela não parecia dela. Sempre me surpreenderam os dedos grandes dos pés das pessoas, costumam ter personalidades fortes e têm ar de chefes. Bom, estávamos num casamento e as mulheres sempre tão sacrificadas para estarem bonitas, sempre tão bonitas, por vezes vezes enjoativas, mas vá lá, voltando ao dedo do pé da outra. Eu estava sentada numa poltrona de cor bordeaux à espera de fazer xixi, e olhava para o chão deliciada com os veios da madeira. Eis que se ouviu o som dos tacões de mulher no taco da madeira, tacões no taco, é assim mesmo e sem querer acabei de fazer uma espécie de música. Continuo a olhar para o chão e aparece um pé dentro de uma sandália de tacões fininhos, daqueles agulha. A sandália tinha duas tiras também elas fininhas e uma apertava o dedo grande do pé da senhora e este levanta-se ligeiramente da sola como se quisesse fazer uma pergunta. A tira apertava este dedo e este dedo não tem mais nada, começa a inchar e a falar comigo ou com a minha bexiga. Porque é que eu estou aqui, esta merda dói caralho e porque é que sou só eu que estou asfixiado, mais nenhum dedo deste pé nem do outro sofre como eu sofro. A certa altura aquele dedo ria-se de dor e gemia, tentando encontrar um espaço digno e livre. A certa altura pensei nas partes do meu corpo que não conheço muito bem, nuca, costas, rabo, o que dirão eles de mim. A certa altura, aquele dedo parecia não pertencer a corpo algum, e apesar de estar sob a ameaça da tira - vivia orgulhosamente o seu cargo de chefia e impunha-se aos seus quatro súbditos, quer dizer, ainda que haja uma porra de gente com o segundo dedo do pé mais comprido do que o primeiro, o primeiro é sempre o primeiro e concluo com isto que as mãos são mais democráticas que os pés.

terça-feira, julho 08, 2008

ou vir e sem tir

O carro estava em condições. Quando chegou a minha vez tive que sair de dentro da viatura enquanto um jovem se punha a acelarar a fundo no meu pedal. Aproximei-me de outro homem com ar de ter qualquer função e resolvi fazer conversa. Então diga lá o que é analisa nesse ecran, e que tal está o pólinho, e que números são esses senhor, que números são esses que eu não os conheço e me são tão indiferentes que acaba por se tornar absurdo este diálogo. Mas explique-me hoje aquilo tudo aquilo que eu não sei, ainda que amanhã já tudo possa ter esquecido, quem sabe fica qualquer coisinha.
Foi então que este homem falou-me com imenso orgulho e desmesurada paciência de azotos, carbos e óxidos. Tinha voz de professor e olhos de pai.
Depois perguntou-me se eu andava sempre na cidade, e eu disse que sim pensando em curvas/campos/vinhas, e ele disse que eu devia puxar mais pelo motor e eu respondi "está bem" enquanto sentia nas mãos e nos pés a explosão do dito cujo da última vez que resolvi puxar por ele.
Há sempre uma inevitável carga de mentira quando tentamos evitar discordar de um pai ou professor.
Não costumo mentir, acho.

sexta-feira, julho 04, 2008

inspecção

Sim, e agora a quem agradeço, sempre foi essa a minha dúvida, a quem é que devo agradecer por andar por aí sempre mais ou menos contente. Eu aqui na fila da inspecção do carro, e a saber que ontem à noite é que devia ter escrito este texto, era ontem sra.preguiça, afinal eu é que tinha razão. Ontem é que me sentia assim, tão divinamente grata a alguém (divinamente no sentido lato do termo que não sei se existe), tão pessoal e intransmissível. Sim, sempre gostei de ver estes termos nos cartões e afins, dá-lhes um carácter humano que estes não têm.
Hoje estou numa fila e muitos homens de fora dos carros a acenderem cigarros enquanto esperam pela sua vez, eu própria acendo um cigarro antes de abrir o computador para escrever isto onde me quero assumir humana, irrepetível e por sorte até feliz.
Pode ser que apanhe o senhor do ano passado, aquele que mora ao pé da minha casa e por isso resolveu falar sobre as palmeiras e o rio enquanto testavam os pneus ao polo. Talvez este ano o carro não esteja com os pneus em condições, e o senhor já nem trabalhe aqui ou então já não more na minha rua o que vai limitar definitivamente os possíveis temas da conversa.
Dizem que posso avançar, mais um bocadinho à frente menina, está bom aqui. Sinto-me a atingir uma meta. Se pensar um bocadinho mais sei que não atingi absolutamente nada. Tenho que fechar o computador.

terça-feira, julho 01, 2008

jeo

Tocaram dois seres à porta. Estava a trabalhar a tentar explicar o que era a torre dos clérigos a uma coreana que se ria com tudo o que eu dizia. Acho piada quando se riem assim, apetece-me rir por cima deles até ver quem é que se ri mais, até a palavra se desfazer em som e dialogarmos apenas através de gargalhadas mais ou menos explicativas. Ri-te Win Chu que eu rio-me contigo.
Entretanto pois, já tinham tocado. E estão lá fora dois homens que não podiam ser hóspedes. Têm óculos de sol escuros a fugir para o "moderno", camisas azuis e passadas de manhãzinha pelas mulheres. Desconfio que eram feios mas não lhes cheguei a ver os olhos, como é que se pode falar de Deus de olhos tapados.
- Você acha que há solução para a morte?
- Não sei o que você entende por solução, mas agora estou a trabalhar.
- Olhe, gostávamos que ficasse com isto.

Fechei a porta e olhei para o folheto enquanto esperava por mais uma risada, mas ela não estava lá. Abri aquilo por respeito às palavras e não a homens, li um bocadinho da teoria dos jeovás, demasiadas imagens pensei eu, acabei por ler a frase " cuide sempre da sua saúde espiritual enquanto aprende línguas estrangeiras" e fechei o livro orgulhosamente.

segunda-feira, junho 30, 2008

curas

A célebre forma de medicina moral (a de Aríston de Chios), «a virtude é a saúde da alma», deveria ser pelo menos assim transformada para se tornar utilizável: «A tua virtude é a saúde da tua alma». Porque em nós não existe qualquer saúde, e todas as experiências que se fizeram para dar este nome a qualquer coisa malograram-se miseravelmente. Importa que se conheça o seu objectivo, o seu horizonte, as suas forças, os seus impulsos, os seus erros e sobretudo o ideal e os fantasmas da sua alma para determinar o que significa a saúde, mesmo para o seu corpo. Existem, portanto, inúmeras saúdes do corpo; e quanto mais se permitir ao indivíduo, a quem não podemos comparar-nos, que levante a cabeça, mais se desaprenderá o dogma da «igualdade dos homens», mais necessário será que os nossos médicos percam a noção de uma saúde normal, de uma dieta normal, de um curso normal da doença. Será só então que se poderá talvez reflectir na saúde e na doença da alma e colocar a virtude particular de cada um nesta saúde, que corre muito o risco de ser num o contrário do que sucede com outro. Restará a grande questão de saber se podemos dispensar a doença, mesmo para desenvolver a nossa virtude, se, nomeadamente, a nossa sede de conhecer, e de nos conhecermos a nós próprios, não tem necessidade da nossa alma doente tanto como da nossa alma saudável, em resumo, se querer exclusivamente a nossa saúde não será um preconceito, uma cobardia e talvez um resto de barbárie mais subtil e do espírito mais retrógado.

Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'

sábado, junho 28, 2008

tel à vivo

Outro dia sonhei a noite toda com Israel. Senti-lhe os cheiros, procurei as ruas, subi a apartamentos de amigos, assaltei as cores e os tamanhos das janelas. Falei com gente que não conhecia e tive pensamentos sobre eles. Falaram-me de política, deram-me opiniões.
Nunca fui a Israel. Acordei a pensar o quão viajados não seremos, se ao menos nos lembrássemos de tudo que já sonhámos, que pessoas tão cultas e interessantes seríamos.

quinta-feira, junho 19, 2008

cheia de graça

Descobri o Sr. Júlio do universo feminino.
Tem olhos de sapo como ele que parecem duas ameixas saltitantes com vontade de fugir do resto da cara como se não lhe pertencessem.
Há dias que são só de dúvidas disse o Sr.Júlio no último Inverno. E ela agora entre pataniscas e lava loiça pergunta-me com a mesma leveza com que fritou o bacalhau: " E a morte como será?"
Sabes Maria, é que os momentos mais importantes da nossa vida que é quando nascemos e quando morremos, nós nunca havemos de nos lembrar deles, nunca - disse. Eu acredito tanto em Deus, continuou, já vi o filme de Jesus mas sei lá bem o que é verdade no meio de tudo aquilo.
Eu olho-a por uns segundos e digo que por acaso também acredito em Deus e ela pede-me que eu coma mais salada.

quarta-feira, junho 18, 2008

veículo movido a energia desconhecida

Pronto, fartei-me da selecção e do Cristiano Ronaldo, sim, já estava com medo de me fartar e agora fartei-me realmente, estou completamente farta - já não os posso comer mais.
Por exemplo, acho uma chatice ligar a televisão e ver um bando de lutadores a empurrar um autocarro com a equipe lá dentro. Não sei se já viram a versão original (http://www.youtube.com/watch?v=DTx_J9qDF5s), mas ele há gente a cair na neve e a levantar-se assim muito rapidamente com a força de um verdadeiro campeão. Há seres estranhos a empurrar o autocarro. Velhos, novos, giros, engraçados, indiferentes, mas nenhum com cara de português. E lá dentro os jogadores engravatados de semblantes muito sérios - verdadeiros responsáveis pelo estado do país. Mas que é isto? E que coisa é aquela do Simão estar a ouvir Ipod enquanto que alguns burros de carga berram lá fora? Sempre fui super adepta da selecção e até andava a usar um pin com o galo de barcelos que saiu à Júlia na tv mais.
Mas não consigo conceber a ideia de que uma equipe de futebol nos possa fazer amar e respeitar mais o país - porque não faz. Só se o amor e o respeito forem coisas que eu não sei muito bem como são, mas isso até já desconfiava.

(gostei de ouvir o daniel oliveira no prós e contras)

sábado, junho 14, 2008

120 anos

"Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. "

Pelos vistos estão a tentar disponibilizar online mais de 1000 livros e cerca de 2300 papéis do espólio de Fernando Pessoa. Tudo o que ele escreveu será acessível para todo o mundo. Fiquei contente.
Intriga-me como este homem consegue ser tão intemporal e omnipotente. Nunca pensei grandes coisas para além do que ele já tivesse dito.

sexta-feira, junho 13, 2008

santos televisivos

Ontem, ao ver as marchas de S. António na televisão descobri que sou bairrista.
O São João é que é fixe.
Nunca tinha acompanhado em directo o tal festejo. Achei-o morno e decadente.
Primeiro apareceu-me uma jornalista inexperiente a entrevistar um homem muito suado que carregava uma espécie de altar.
- "Então, isso é muito pesado?" - pergunta ela.
- "É" - responde o homem com mais uma pinga de suor.
- "Quanto quilos, sabe?"
(isto é profundamente estúpido, por isso continuei a ver)
Pelos vistos, cada bairro tem uma madrinha e um padrinho para representar não sei bem o quê.
A Cinha Jardim está vestida de um azul inexistente e perdeu um brinco durante a marcha. É a madrinha do bairro de Alfama e diz: "Eu adoro isto!".
Tudo me pareceu chato, artificial e demasiado colorido. E depois todo aquele aparato televisivo, a bancada vip, o Rui Rio.
Não vemos quem está na rua, se o povo bebe cerveja ou vinho, as varizes das velhas, as camisas dos homens, as sardinhas da afurada, os martelos dos chineses, a gente, a gente, nós caralho.
Lisboa menina e moça, pois és.

(se calhar foi tudo culpa da televisão)

segunda-feira, junho 09, 2008

In US

Ela diz que quer guardar tudo no cacifo, que a vida é muito mais segura assim, dentro do cacifo e principalmente quando se é mulher e se viaja sozinha. Ela reafirma ter tudo controlado, gordinha, míope, tudo tão controlado. Viaja há já 7 meses e sempre com medo de ser roubada, violada, estropiada. Tem uma mala daquelas duras com código e carrega-a orgulhosamente pelas escadas acima. Está a ficar vermelha, não, desculpem, afinal já vinha vermelha da porta, e eu ofereço-me para ajudá-la a carregar a sacaria. Não, não, obrigada, eu tenho que carregar tudo sozinha, estou a viajar sozinha, disse para mim mesmo que não devia aceitar ajudas para carregar malas, tenho que as aguentar.
Depois apareceu o americano peregrino que dizia "cafe con leche" e "buenos dias" quase compulsivamente. Pé ligado e a roupa a precisar de ser lavada. Perguntou à da mala dura se queria dividir o custo da máquina de lavar.
- Desculpa mas não vai dar, afinal já tenho tudo controlado, a roupa lavada dentro da samsonite e como é que podia misturar as tuas meias suadas, defuntas, talvez restos mortais de bolhas, com as minhas cuecas imaculadas. Tomo no mínimo 3 banhos por dia e a primeira vez que bebi alcóol foi na Irlanda. Uma guiness e claro, só depois de ter feito 21.

sexta-feira, junho 06, 2008

divórcio

Não, não era verdade o que eu escrevi acerca das baratas. Afinal detesto-as Sara, odeio-as, não as percebo nem as aceito.
Hoje, logo hoje e eu exageradamente sensível às 3 da manhã com vontade uma tosta mista. E as baratas a devorarem-me o desejo do queijo antes que eu pudesse satisfazê-lo, sim, as baratas, foram comer a minha vontade antes que eu comesse fosse o que fosse. Pequenas, grandes, médias, terríveis, e eu a pensar se eram elas que me estavam a invadir a cozinha ou se era eu, nós, que invadíamos o mundo com prédios, fornos, máquinas, medos. Deixei a luz da cozinha acesa e vim para a cama escrever este texto preto, barato, repelente, mas que pelo menos sei que acaba aqui, que acaba quando quero e a colónia de insectos para quando será.


(abro a janela, acendo um cigarro e pergunto-me se as baratas terão medo da luz como algumas pessoas têm do escuro)

segunda-feira, junho 02, 2008

passa e amassa

Voltar a certos sítios onde passamos muito tempo da nossa vida é quase sempre complexo. Pode ser agradável ou doloroso, mas é complicado das duas maneiras. Por exemplo, hoje quando regressei ao trabalho de atelier depois de uma curta temporada sem por as mãos nas canetas e nos pincéis, senti no dedo mindinho do pé o peso da ausência. Fez-me impressão a naturalidade com que as coisas se detrioram quando alguém não está por perto. Ou seja, o normal é tudo se estragar com o tempo e nunca o contrário. E andamos aqui a lutar contra não sei bem o quê. Não quero falar de invenções estranhas como a a tristeza que todos sentimos a obrigação de acreditar que com o tempo ela tende a passar e não a aumentar (o que também pode acontecer). Não, falo das coisas que vemos e que existem, daquelas que tocamos com as mãos todos os dias, da matéria apalpável, amorosa e desejável.
Hoje, ao ver metade dos pincéis duros e presos a tinta seca, papéis invadidos de pó, a lâmpada fundida da casa de banho - senti-me pouco dona de qualquer coisa, não sei muito bem o quê.