A célebre forma de medicina moral (a de Aríston de Chios), «a virtude é a saúde da alma», deveria ser pelo menos assim transformada para se tornar utilizável: «A tua virtude é a saúde da tua alma». Porque em nós não existe qualquer saúde, e todas as experiências que se fizeram para dar este nome a qualquer coisa malograram-se miseravelmente. Importa que se conheça o seu objectivo, o seu horizonte, as suas forças, os seus impulsos, os seus erros e sobretudo o ideal e os fantasmas da sua alma para determinar o que significa a saúde, mesmo para o seu corpo. Existem, portanto, inúmeras saúdes do corpo; e quanto mais se permitir ao indivíduo, a quem não podemos comparar-nos, que levante a cabeça, mais se desaprenderá o dogma da «igualdade dos homens», mais necessário será que os nossos médicos percam a noção de uma saúde normal, de uma dieta normal, de um curso normal da doença. Será só então que se poderá talvez reflectir na saúde e na doença da alma e colocar a virtude particular de cada um nesta saúde, que corre muito o risco de ser num o contrário do que sucede com outro. Restará a grande questão de saber se podemos dispensar a doença, mesmo para desenvolver a nossa virtude, se, nomeadamente, a nossa sede de conhecer, e de nos conhecermos a nós próprios, não tem necessidade da nossa alma doente tanto como da nossa alma saudável, em resumo, se querer exclusivamente a nossa saúde não será um preconceito, uma cobardia e talvez um resto de barbárie mais subtil e do espírito mais retrógado.
Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'
segunda-feira, junho 30, 2008
sábado, junho 28, 2008
tel à vivo
Outro dia sonhei a noite toda com Israel. Senti-lhe os cheiros, procurei as ruas, subi a apartamentos de amigos, assaltei as cores e os tamanhos das janelas. Falei com gente que não conhecia e tive pensamentos sobre eles. Falaram-me de política, deram-me opiniões.
Nunca fui a Israel. Acordei a pensar o quão viajados não seremos, se ao menos nos lembrássemos de tudo que já sonhámos, que pessoas tão cultas e interessantes seríamos.
Nunca fui a Israel. Acordei a pensar o quão viajados não seremos, se ao menos nos lembrássemos de tudo que já sonhámos, que pessoas tão cultas e interessantes seríamos.
quinta-feira, junho 19, 2008
cheia de graça
Descobri o Sr. Júlio do universo feminino.
Tem olhos de sapo como ele que parecem duas ameixas saltitantes com vontade de fugir do resto da cara como se não lhe pertencessem.
Há dias que são só de dúvidas disse o Sr.Júlio no último Inverno. E ela agora entre pataniscas e lava loiça pergunta-me com a mesma leveza com que fritou o bacalhau: " E a morte como será?"
Sabes Maria, é que os momentos mais importantes da nossa vida que é quando nascemos e quando morremos, nós nunca havemos de nos lembrar deles, nunca - disse. Eu acredito tanto em Deus, continuou, já vi o filme de Jesus mas sei lá bem o que é verdade no meio de tudo aquilo.
Eu olho-a por uns segundos e digo que por acaso também acredito em Deus e ela pede-me que eu coma mais salada.
Tem olhos de sapo como ele que parecem duas ameixas saltitantes com vontade de fugir do resto da cara como se não lhe pertencessem.
Há dias que são só de dúvidas disse o Sr.Júlio no último Inverno. E ela agora entre pataniscas e lava loiça pergunta-me com a mesma leveza com que fritou o bacalhau: " E a morte como será?"
Sabes Maria, é que os momentos mais importantes da nossa vida que é quando nascemos e quando morremos, nós nunca havemos de nos lembrar deles, nunca - disse. Eu acredito tanto em Deus, continuou, já vi o filme de Jesus mas sei lá bem o que é verdade no meio de tudo aquilo.
Eu olho-a por uns segundos e digo que por acaso também acredito em Deus e ela pede-me que eu coma mais salada.
quarta-feira, junho 18, 2008
veículo movido a energia desconhecida
Pronto, fartei-me da selecção e do Cristiano Ronaldo, sim, já estava com medo de me fartar e agora fartei-me realmente, estou completamente farta - já não os posso comer mais.
Por exemplo, acho uma chatice ligar a televisão e ver um bando de lutadores a empurrar um autocarro com a equipe lá dentro. Não sei se já viram a versão original (http://www.youtube.com/watch?v=DTx_J9qDF5s), mas ele há gente a cair na neve e a levantar-se assim muito rapidamente com a força de um verdadeiro campeão. Há seres estranhos a empurrar o autocarro. Velhos, novos, giros, engraçados, indiferentes, mas nenhum com cara de português. E lá dentro os jogadores engravatados de semblantes muito sérios - verdadeiros responsáveis pelo estado do país. Mas que é isto? E que coisa é aquela do Simão estar a ouvir Ipod enquanto que alguns burros de carga berram lá fora? Sempre fui super adepta da selecção e até andava a usar um pin com o galo de barcelos que saiu à Júlia na tv mais.
Mas não consigo conceber a ideia de que uma equipe de futebol nos possa fazer amar e respeitar mais o país - porque não faz. Só se o amor e o respeito forem coisas que eu não sei muito bem como são, mas isso até já desconfiava.
(gostei de ouvir o daniel oliveira no prós e contras)
Por exemplo, acho uma chatice ligar a televisão e ver um bando de lutadores a empurrar um autocarro com a equipe lá dentro. Não sei se já viram a versão original (http://www.youtube.com/watch?v=DTx_J9qDF5s), mas ele há gente a cair na neve e a levantar-se assim muito rapidamente com a força de um verdadeiro campeão. Há seres estranhos a empurrar o autocarro. Velhos, novos, giros, engraçados, indiferentes, mas nenhum com cara de português. E lá dentro os jogadores engravatados de semblantes muito sérios - verdadeiros responsáveis pelo estado do país. Mas que é isto? E que coisa é aquela do Simão estar a ouvir Ipod enquanto que alguns burros de carga berram lá fora? Sempre fui super adepta da selecção e até andava a usar um pin com o galo de barcelos que saiu à Júlia na tv mais.
Mas não consigo conceber a ideia de que uma equipe de futebol nos possa fazer amar e respeitar mais o país - porque não faz. Só se o amor e o respeito forem coisas que eu não sei muito bem como são, mas isso até já desconfiava.
(gostei de ouvir o daniel oliveira no prós e contras)
sábado, junho 14, 2008
120 anos
"Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. "
Pelos vistos estão a tentar disponibilizar online mais de 1000 livros e cerca de 2300 papéis do espólio de Fernando Pessoa. Tudo o que ele escreveu será acessível para todo o mundo. Fiquei contente.
Intriga-me como este homem consegue ser tão intemporal e omnipotente. Nunca pensei grandes coisas para além do que ele já tivesse dito.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. "
Pelos vistos estão a tentar disponibilizar online mais de 1000 livros e cerca de 2300 papéis do espólio de Fernando Pessoa. Tudo o que ele escreveu será acessível para todo o mundo. Fiquei contente.
Intriga-me como este homem consegue ser tão intemporal e omnipotente. Nunca pensei grandes coisas para além do que ele já tivesse dito.
sexta-feira, junho 13, 2008
santos televisivos
Ontem, ao ver as marchas de S. António na televisão descobri que sou bairrista.
O São João é que é fixe.
Nunca tinha acompanhado em directo o tal festejo. Achei-o morno e decadente.
Primeiro apareceu-me uma jornalista inexperiente a entrevistar um homem muito suado que carregava uma espécie de altar.
- "Então, isso é muito pesado?" - pergunta ela.
- "É" - responde o homem com mais uma pinga de suor.
- "Quanto quilos, sabe?"
(isto é profundamente estúpido, por isso continuei a ver)
Pelos vistos, cada bairro tem uma madrinha e um padrinho para representar não sei bem o quê.
A Cinha Jardim está vestida de um azul inexistente e perdeu um brinco durante a marcha. É a madrinha do bairro de Alfama e diz: "Eu adoro isto!".
Tudo me pareceu chato, artificial e demasiado colorido. E depois todo aquele aparato televisivo, a bancada vip, o Rui Rio.
Não vemos quem está na rua, se o povo bebe cerveja ou vinho, as varizes das velhas, as camisas dos homens, as sardinhas da afurada, os martelos dos chineses, a gente, a gente, nós caralho.
Lisboa menina e moça, pois és.
(se calhar foi tudo culpa da televisão)
O São João é que é fixe.
Nunca tinha acompanhado em directo o tal festejo. Achei-o morno e decadente.
Primeiro apareceu-me uma jornalista inexperiente a entrevistar um homem muito suado que carregava uma espécie de altar.
- "Então, isso é muito pesado?" - pergunta ela.
- "É" - responde o homem com mais uma pinga de suor.
- "Quanto quilos, sabe?"
(isto é profundamente estúpido, por isso continuei a ver)
Pelos vistos, cada bairro tem uma madrinha e um padrinho para representar não sei bem o quê.
A Cinha Jardim está vestida de um azul inexistente e perdeu um brinco durante a marcha. É a madrinha do bairro de Alfama e diz: "Eu adoro isto!".
Tudo me pareceu chato, artificial e demasiado colorido. E depois todo aquele aparato televisivo, a bancada vip, o Rui Rio.
Não vemos quem está na rua, se o povo bebe cerveja ou vinho, as varizes das velhas, as camisas dos homens, as sardinhas da afurada, os martelos dos chineses, a gente, a gente, nós caralho.
Lisboa menina e moça, pois és.
(se calhar foi tudo culpa da televisão)
segunda-feira, junho 09, 2008
In US
Ela diz que quer guardar tudo no cacifo, que a vida é muito mais segura assim, dentro do cacifo e principalmente quando se é mulher e se viaja sozinha. Ela reafirma ter tudo controlado, gordinha, míope, tudo tão controlado. Viaja há já 7 meses e sempre com medo de ser roubada, violada, estropiada. Tem uma mala daquelas duras com código e carrega-a orgulhosamente pelas escadas acima. Está a ficar vermelha, não, desculpem, afinal já vinha vermelha da porta, e eu ofereço-me para ajudá-la a carregar a sacaria. Não, não, obrigada, eu tenho que carregar tudo sozinha, estou a viajar sozinha, disse para mim mesmo que não devia aceitar ajudas para carregar malas, tenho que as aguentar.
Depois apareceu o americano peregrino que dizia "cafe con leche" e "buenos dias" quase compulsivamente. Pé ligado e a roupa a precisar de ser lavada. Perguntou à da mala dura se queria dividir o custo da máquina de lavar.
- Desculpa mas não vai dar, afinal já tenho tudo controlado, a roupa lavada dentro da samsonite e como é que podia misturar as tuas meias suadas, defuntas, talvez restos mortais de bolhas, com as minhas cuecas imaculadas. Tomo no mínimo 3 banhos por dia e a primeira vez que bebi alcóol foi na Irlanda. Uma guiness e claro, só depois de ter feito 21.
Depois apareceu o americano peregrino que dizia "cafe con leche" e "buenos dias" quase compulsivamente. Pé ligado e a roupa a precisar de ser lavada. Perguntou à da mala dura se queria dividir o custo da máquina de lavar.
- Desculpa mas não vai dar, afinal já tenho tudo controlado, a roupa lavada dentro da samsonite e como é que podia misturar as tuas meias suadas, defuntas, talvez restos mortais de bolhas, com as minhas cuecas imaculadas. Tomo no mínimo 3 banhos por dia e a primeira vez que bebi alcóol foi na Irlanda. Uma guiness e claro, só depois de ter feito 21.
sexta-feira, junho 06, 2008
divórcio
Não, não era verdade o que eu escrevi acerca das baratas. Afinal detesto-as Sara, odeio-as, não as percebo nem as aceito.
Hoje, logo hoje e eu exageradamente sensível às 3 da manhã com vontade uma tosta mista. E as baratas a devorarem-me o desejo do queijo antes que eu pudesse satisfazê-lo, sim, as baratas, foram comer a minha vontade antes que eu comesse fosse o que fosse. Pequenas, grandes, médias, terríveis, e eu a pensar se eram elas que me estavam a invadir a cozinha ou se era eu, nós, que invadíamos o mundo com prédios, fornos, máquinas, medos. Deixei a luz da cozinha acesa e vim para a cama escrever este texto preto, barato, repelente, mas que pelo menos sei que acaba aqui, que acaba quando quero e a colónia de insectos para quando será.
(abro a janela, acendo um cigarro e pergunto-me se as baratas terão medo da luz como algumas pessoas têm do escuro)
Hoje, logo hoje e eu exageradamente sensível às 3 da manhã com vontade uma tosta mista. E as baratas a devorarem-me o desejo do queijo antes que eu pudesse satisfazê-lo, sim, as baratas, foram comer a minha vontade antes que eu comesse fosse o que fosse. Pequenas, grandes, médias, terríveis, e eu a pensar se eram elas que me estavam a invadir a cozinha ou se era eu, nós, que invadíamos o mundo com prédios, fornos, máquinas, medos. Deixei a luz da cozinha acesa e vim para a cama escrever este texto preto, barato, repelente, mas que pelo menos sei que acaba aqui, que acaba quando quero e a colónia de insectos para quando será.
(abro a janela, acendo um cigarro e pergunto-me se as baratas terão medo da luz como algumas pessoas têm do escuro)
segunda-feira, junho 02, 2008
passa e amassa
Voltar a certos sítios onde passamos muito tempo da nossa vida é quase sempre complexo. Pode ser agradável ou doloroso, mas é complicado das duas maneiras. Por exemplo, hoje quando regressei ao trabalho de atelier depois de uma curta temporada sem por as mãos nas canetas e nos pincéis, senti no dedo mindinho do pé o peso da ausência. Fez-me impressão a naturalidade com que as coisas se detrioram quando alguém não está por perto. Ou seja, o normal é tudo se estragar com o tempo e nunca o contrário. E andamos aqui a lutar contra não sei bem o quê. Não quero falar de invenções estranhas como a a tristeza que todos sentimos a obrigação de acreditar que com o tempo ela tende a passar e não a aumentar (o que também pode acontecer). Não, falo das coisas que vemos e que existem, daquelas que tocamos com as mãos todos os dias, da matéria apalpável, amorosa e desejável.
Hoje, ao ver metade dos pincéis duros e presos a tinta seca, papéis invadidos de pó, a lâmpada fundida da casa de banho - senti-me pouco dona de qualquer coisa, não sei muito bem o quê.
Hoje, ao ver metade dos pincéis duros e presos a tinta seca, papéis invadidos de pó, a lâmpada fundida da casa de banho - senti-me pouco dona de qualquer coisa, não sei muito bem o quê.
quinta-feira, maio 29, 2008
a palavra e a verdade

A incredulidade de são tomé, Caravaggio
(Hoje um taxista de gaia revelou-me que era mais perigoso trabalhar de dia do que de noite. Numa certa tarde, "aqui há atrasado", a senhora que levava até são joão da madeira fez-lhe um corte no pescoço. Conseguiu-se defender-se e "deu-lhe porrada dentro da viatura" - contou-me exaltado. Levou 24 pontos depois do despropositado ataque feito a x-acto. No tribunal não conseguiu defender-se porque "era a palavra dela contra a minha" e não havia qualquer testemunha. A senhora alegou que teve que reagir assim devido a um prévio assédio sexual do motorista, e ele apanhou uma pena de 9 meses de prisão de que se conseguiu livrar mediante o pagamento de uma caução. Trezentos e cinquenta escudos por dia, disse, era a minha palavra contra a dela.)
terça-feira, maio 27, 2008
domingo, maio 25, 2008
ser
A nossa vida pode mudar de um dia para o outro.
Ando quase segura que nos podemos habituar a tudo. Que conseguimos viver das formas mais inimagináveis ou insuportáveis. E que o sofrimento é como qualquer matéria orgânica que com o tempo tende a decompor-se. Não sei se penso isto ou se quero pensar assim. Mas eu bem vejo os velhos, como reagem às desgraças. Não sei se aquilo é sabedoria, insensibilidade ou puro comodismo. Suponho que um pouco de tudo.
(a minha avó reage tão naturalmente à morte das amigas e dos cunhados)
Ando quase segura que nos podemos habituar a tudo. Que conseguimos viver das formas mais inimagináveis ou insuportáveis. E que o sofrimento é como qualquer matéria orgânica que com o tempo tende a decompor-se. Não sei se penso isto ou se quero pensar assim. Mas eu bem vejo os velhos, como reagem às desgraças. Não sei se aquilo é sabedoria, insensibilidade ou puro comodismo. Suponho que um pouco de tudo.
(a minha avó reage tão naturalmente à morte das amigas e dos cunhados)
deep loma
Recebi o diploma pelo correio. Acabei o curso em 2005. Há um ano e tal fui obrigada a pagar cento e tal euros por aquela coisa já não sei porquê. Suponho que para provar a algum departamento de uma escolinha qualquer que andei a estudar 5 anos.
É um objecto repelente. O papel é feio (não encontro outro adjectivo mais rico que este) tentando imitar mármore, a letra gótica ligeiramente pixelizada. Depois há qualquer coisa como uma fita onde está pendurada qualquer coisa como uma medalha. Força, conseguiste acabar a maratona. Pelos vistos a medalha deve ser feita de um material mais ou menos bom já que tem um invólucro de plástico a protegê-la. É uma coisa pesada - fisica e esteticamente. Não sei que lhe faça. Se ofereça ao meu pai que generosamente me andou a pagar as propinas. Se limpe o rabo com o papel mármore de modo a que o estampado me pareça mais natural. Se compre uma moldura no ikea e o pendure aqui no hostel, muito orgulhosamente, ao lado desta secretária onde me encontro agora sentada.
É um objecto repelente. O papel é feio (não encontro outro adjectivo mais rico que este) tentando imitar mármore, a letra gótica ligeiramente pixelizada. Depois há qualquer coisa como uma fita onde está pendurada qualquer coisa como uma medalha. Força, conseguiste acabar a maratona. Pelos vistos a medalha deve ser feita de um material mais ou menos bom já que tem um invólucro de plástico a protegê-la. É uma coisa pesada - fisica e esteticamente. Não sei que lhe faça. Se ofereça ao meu pai que generosamente me andou a pagar as propinas. Se limpe o rabo com o papel mármore de modo a que o estampado me pareça mais natural. Se compre uma moldura no ikea e o pendure aqui no hostel, muito orgulhosamente, ao lado desta secretária onde me encontro agora sentada.
terça-feira, maio 13, 2008
profundezas

Às vezes, ao ler o que escrevo, fico pasmada com a quantidade de energia que dispendo ao descrever pessoas que me são desconhecidas.
Concluo que este blog é uma espécie de revista cor de rosa com pretensões formais despropositadas. Baseado - tal qual como a lux ou a nova gente - em suposições, injustiça e mentira. Eu sei lá bem os tesouros escondidos do bigode da gulbenkian. Se calhar, ele até sabe onde fica a reserva natural portuguesa Paul de Boquilobo e eu aqui tão triste por me aperceber no Quem quer ser Milionário que continuo uma ignorante com vontade de não o ser. Pior ainda.
segunda-feira, maio 12, 2008
securitas
De repente fico preocupada com as profissões dos outros. Olho para o segurança das catacumbas da gulbenkian e penso o que fará sozinho todo o dia sem luz. Entro, dá-me um cartão a dizer visitante, pergunta-me o nome, não sorri. Usa farda, sempre a mesma e todos os dias naquela secretária a controlar as entradas. Sempre me assustaram as fardas. O bigode é preto, denso, imóvel, parece um tronco chamuscado. O nome por favor. Quê, Maria quê?
Penso, o que é que você guarda para além do meu nome mal escrito? Uma série de cartões de molas estragadas que não se agarram aos casacos, todo o silêncio inscrito nessa farda passadinha e no bigode bem comportado, um sorriso que lhe ficou no esófago e talvez fosse a escuridão que não o deixasse sair.
Penso, o que é que você guarda para além do meu nome mal escrito? Uma série de cartões de molas estragadas que não se agarram aos casacos, todo o silêncio inscrito nessa farda passadinha e no bigode bem comportado, um sorriso que lhe ficou no esófago e talvez fosse a escuridão que não o deixasse sair.
sexta-feira, maio 09, 2008
quarta-feira, maio 07, 2008
hostel 2
Dão-nos 24 horas por nossa conta. Temos que trabalhar, abrir a porta, fazer check-in, hello I´m Maria, the bus stop is there, porto wine is great, maybe you can try piolho for a beer.
Mas nos entretantos fico sozinha e penso quem é este aqui a quem trato pelo nome, para quem sorri sem saber porquê, com quem vou beber a garrafa de vinho mais barata do mini preço com medo que me faça mal.
Os maiores ataques de solidão são sempre com gente ao lado.
Mas nos entretantos fico sozinha e penso quem é este aqui a quem trato pelo nome, para quem sorri sem saber porquê, com quem vou beber a garrafa de vinho mais barata do mini preço com medo que me faça mal.
Os maiores ataques de solidão são sempre com gente ao lado.
domingo, maio 04, 2008
olhos tão rápidos mesmo de vidro
Viagem do Algarve para o Porto. Nutro desprezo por qualquer companhia de camionagem desde que um condutor da Renex ofereceu deliberadamente a minha mala a um arrumador que por ali passava na hora do embarque.
- "Sr.Motorista, aquela mala verde é minha.
- Então tome lá." Foi assim. Desde então não confio em nada nem ninguém que tenha a ver com a palavra camionagem.
Esta não era da Renex, Eva de seu nome. Nome bastante mais sugestivo, no mínimo.
O meu companheiro de cela é um senhor de 70 anos, preto, bengala, óculos de massa anos 70, sacos plástico, olho de vidro, fecho das calças aberto. Encontro no banco uma revista chamada Happy Woman. Na primeira página uma crónica da directora onde revela aos leitores que gosta do cheiro da terra molhada e das festinhas do marido. Folheio rapidamente todos os sapatos e cremes até chegar à secção onde se fala de sexo que é sem dúvida a mais divertida. Interessante como estas editoras e jornalistas analisam as relações. Como se bastasse ser atrevida e usar meias de liga para mantermos o nosso cônjuge de posto olho em nós. Enquanto admirava mulheres de lingerie em poses ridiculas, o olho de vidro começou a ganhar vida.
- "Sr.Motorista, aquela mala verde é minha.
- Então tome lá." Foi assim. Desde então não confio em nada nem ninguém que tenha a ver com a palavra camionagem.
Esta não era da Renex, Eva de seu nome. Nome bastante mais sugestivo, no mínimo.
O meu companheiro de cela é um senhor de 70 anos, preto, bengala, óculos de massa anos 70, sacos plástico, olho de vidro, fecho das calças aberto. Encontro no banco uma revista chamada Happy Woman. Na primeira página uma crónica da directora onde revela aos leitores que gosta do cheiro da terra molhada e das festinhas do marido. Folheio rapidamente todos os sapatos e cremes até chegar à secção onde se fala de sexo que é sem dúvida a mais divertida. Interessante como estas editoras e jornalistas analisam as relações. Como se bastasse ser atrevida e usar meias de liga para mantermos o nosso cônjuge de posto olho em nós. Enquanto admirava mulheres de lingerie em poses ridiculas, o olho de vidro começou a ganhar vida.
segunda-feira, abril 28, 2008
hoje não tenho idade
A minha avó faz hoje 87 anos. Quando cheguei a casa para almoçar estava sentada no sofá, no lugar que é só dela. Agarrei-a, disse "parabéns avó", e quis que aquele abraço durasse para sempre, que eu me tornasse rugas e ela cabelos castanhos, quis perceber porque é que todo o seu corpo está mais próximo da terra que o meu, as costas a fazerem um ângulo recto com as pernas, os olhos na alcatifa rasgada.
Costuma dizer com um ar cómico que é velha e que "quem de novo não vai, de velho não escapa". Mas hoje, olhar para ela no sítio de sempre e de camisola arranjada por causa das visitas, fez-me perceber algo muito parecido com a eternidade.
E que isto de morrer pode ser para todos, mas gostar de alguém desta maneira é muito mais complexo e se um dia eu for avó vai ser ela a amar os meus netos.
Costuma dizer com um ar cómico que é velha e que "quem de novo não vai, de velho não escapa". Mas hoje, olhar para ela no sítio de sempre e de camisola arranjada por causa das visitas, fez-me perceber algo muito parecido com a eternidade.
E que isto de morrer pode ser para todos, mas gostar de alguém desta maneira é muito mais complexo e se um dia eu for avó vai ser ela a amar os meus netos.
quinta-feira, abril 24, 2008
a gaja que estava ao balcão
Uma repartição de finanças improvisada no primeiro andar de um prédio escuro. Três mulheres atrás de secretárias beges anos 80. De repente começo a imaginar a Roménia, país onde nunca estive. Três mulheres atrás de secretárias beges. Não, afinal não são mulheres, são seres assexuados. Pela posição, fazem lembrar três cactos dispostos em linha recta.
À primeira, dou-lhe a alcunha de castelo de areia. Parece compacta na forma mas frágil no conteúdo. Assim, de camisola bege, cara bege, sentada atrás da secretária bege. Areia, muita areia, e de tanta areia e tão seca - o castelo acaba por se desfazer e eu não consigo pensar mais sobre ela.
A segunda tem cabelos muito encaracolados e exibe orgulhosamente anéis grandes de plástico. É a menos monocromática. Olho para o meu ticket e desejo que o número 93 me leve até aquele monte de esperança.
A terceira é a pior de todas. Não é velha nem poética como a primeira, e a léguas de ser tão afirmativa como a segunda. É um pedaço de ranheta de anteontem. Usa base densa e foleira que lhe tinge os pelos do buço da cor do produto. Parecem maiores assim pintados.
É a que me calha na rifa.
Não me adiantou grande coisa, o cacto ranhento que deve comer chocolates antes de ir para a cama, não se lhe podia fazer perguntas que ficava logo afectada por atender alguém contabilisticamente inculto e desinteressante. Informou-me com um ar muito sério que pertenço à categoria B e que por isso devo pedir o impresso B na altura de declarar o IRS.
Cala-te, e faz-me mas é uma canja com letrinhas cozidas que eu ponho-te a contar os B´s que há no meu prato.
À primeira, dou-lhe a alcunha de castelo de areia. Parece compacta na forma mas frágil no conteúdo. Assim, de camisola bege, cara bege, sentada atrás da secretária bege. Areia, muita areia, e de tanta areia e tão seca - o castelo acaba por se desfazer e eu não consigo pensar mais sobre ela.
A segunda tem cabelos muito encaracolados e exibe orgulhosamente anéis grandes de plástico. É a menos monocromática. Olho para o meu ticket e desejo que o número 93 me leve até aquele monte de esperança.
A terceira é a pior de todas. Não é velha nem poética como a primeira, e a léguas de ser tão afirmativa como a segunda. É um pedaço de ranheta de anteontem. Usa base densa e foleira que lhe tinge os pelos do buço da cor do produto. Parecem maiores assim pintados.
É a que me calha na rifa.
Não me adiantou grande coisa, o cacto ranhento que deve comer chocolates antes de ir para a cama, não se lhe podia fazer perguntas que ficava logo afectada por atender alguém contabilisticamente inculto e desinteressante. Informou-me com um ar muito sério que pertenço à categoria B e que por isso devo pedir o impresso B na altura de declarar o IRS.
Cala-te, e faz-me mas é uma canja com letrinhas cozidas que eu ponho-te a contar os B´s que há no meu prato.
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