"Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livros nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara"
Sophia
terça-feira, julho 24, 2007
domingo, julho 15, 2007
quarta-feira, maio 23, 2007
sábado, abril 07, 2007
sexta-feira, março 30, 2007
quarta-feira, março 28, 2007
o radio KAIDE ou a Babilonia
Depois te o macaco safado ter roubado os headphones, apercebi-me mais uma vez que nao consigo viver sem musica. Mas o som do meu mp3 com headphones e' demasiado egoista e intransmissivel, e ja que estou a viajar com uma grande amiga, resolvi comprar um radio. A partilha e' uma coisa bonita, supondo que ha algo para partilhar. Pois bem, pedi a um amiguito indiano que me fosse comprar um radio que custasse menos que um euro. Passado uma hora la vinha ele todo contente com um objecto minusculo e fragil, prestes a partir-se se algum espirito mais arriscado o resolvesse por a funcionar. Sim, made in _______ (Adivinha com grau de complexidade elevado). Tinha 2 bandas como de costume: AM e FM. Nenhuma funcionava. As vezes ouviam-se umas vozes arranhadas em sofrimento la do fundo, mas por pouco tempo sofriam. Segundos depois la vem o som das formigas da televisao nao sintonizada em versao radio. Merda. Pensei: "Tenho que apostar na qualidade".
Foi entao que vi um standzito com oculos de sol e chaves de parafusos numa estacao de autocarros. Estava la o radio desejado tambem. Um radio nao com 2 bandas, mas sim com 8, de seu nome Kaide. Talvez Kaide seja uma marca de qualidade bem conhecida nos campos de plantacoes de arroz chineses, pensei. Propus ao gajo do stand uma troca: dava-lhe o bebe radio e mais algum dinheiro em troca do grande Kaide. Ele aceitou. Toda a negociacao foi, no minima, muito divertida.
O Kaide portava-se um bocadinho melhor que o seu antecessor, mas nem por isso. Era daquele tipo de objectos que precisam de carinho, muito carinho. So funcionava em determinadas posicoes ou comigo por perto, coisas assim. Como tem 8 bandas, a probabilidade de sair algum som estranho dali tambem e' maior, mas so a eterna busca do impossivel ia-me satisfazendo.
Ate' que um certo dia, estava eu em lutas com o meu kaide, experimentando o que ele daria se apontasse a antena a minha testa ou outras posicoes estranhas, quando ouco: "Boa noite, vamos deixar agora os nossos ouvintes com o melhor da musica portuguesa" O que? Nao, eu nem sequer estou em Goa... Sera da minha testa? Nao era. Era a RDP internacional a tentar dar o melhor da musica portuguesa com os GNR, Cla, Delfins. Imaginei o Miguel Angelo de sari, o que me pareceu um cenario bem mais perfeito do que a sua musica. De vez em quando apareciam vozes indianas e, por momentos, pensei estar a ouvir a minha propria cabeca onde ultimamente soam 3 linguas ao mesmo tempo. Portugues, ingles, e a lingua local.
Mas depois disto veio ainda a melhor parte, o programa "Bem comer para melhor viver". Qual Lourdes Modesto, esta era uma senhora que filosofava acerca do tempo que as pessoas ja nao tinham para se alimentarem correctamente. Tinha uma voz tao familiar, imaginei-a de saia travada e cabelos daqueles que secam debaixo dos capacetes da nasa (e que tambem existem nos cabeleireiros portugueses). Vieram os grunhidos outra vez e a pobre senhora cada vez mais la ao fundo. Ja nada era saudavel para se comer no meio de tanto ruido e o penteado corria o risco se estar a desfazer tambem. Deixei a minha imaginacao pousar no ponto maravilhoso onde estava. Desliguei o Kaide e pedi desculpa a senhora filosofa da alimentacao por estar a abrir um pacote de bolachas.
Foi entao que vi um standzito com oculos de sol e chaves de parafusos numa estacao de autocarros. Estava la o radio desejado tambem. Um radio nao com 2 bandas, mas sim com 8, de seu nome Kaide. Talvez Kaide seja uma marca de qualidade bem conhecida nos campos de plantacoes de arroz chineses, pensei. Propus ao gajo do stand uma troca: dava-lhe o bebe radio e mais algum dinheiro em troca do grande Kaide. Ele aceitou. Toda a negociacao foi, no minima, muito divertida.
O Kaide portava-se um bocadinho melhor que o seu antecessor, mas nem por isso. Era daquele tipo de objectos que precisam de carinho, muito carinho. So funcionava em determinadas posicoes ou comigo por perto, coisas assim. Como tem 8 bandas, a probabilidade de sair algum som estranho dali tambem e' maior, mas so a eterna busca do impossivel ia-me satisfazendo.
Ate' que um certo dia, estava eu em lutas com o meu kaide, experimentando o que ele daria se apontasse a antena a minha testa ou outras posicoes estranhas, quando ouco: "Boa noite, vamos deixar agora os nossos ouvintes com o melhor da musica portuguesa" O que? Nao, eu nem sequer estou em Goa... Sera da minha testa? Nao era. Era a RDP internacional a tentar dar o melhor da musica portuguesa com os GNR, Cla, Delfins. Imaginei o Miguel Angelo de sari, o que me pareceu um cenario bem mais perfeito do que a sua musica. De vez em quando apareciam vozes indianas e, por momentos, pensei estar a ouvir a minha propria cabeca onde ultimamente soam 3 linguas ao mesmo tempo. Portugues, ingles, e a lingua local.
Mas depois disto veio ainda a melhor parte, o programa "Bem comer para melhor viver". Qual Lourdes Modesto, esta era uma senhora que filosofava acerca do tempo que as pessoas ja nao tinham para se alimentarem correctamente. Tinha uma voz tao familiar, imaginei-a de saia travada e cabelos daqueles que secam debaixo dos capacetes da nasa (e que tambem existem nos cabeleireiros portugueses). Vieram os grunhidos outra vez e a pobre senhora cada vez mais la ao fundo. Ja nada era saudavel para se comer no meio de tanto ruido e o penteado corria o risco se estar a desfazer tambem. Deixei a minha imaginacao pousar no ponto maravilhoso onde estava. Desliguei o Kaide e pedi desculpa a senhora filosofa da alimentacao por estar a abrir um pacote de bolachas.
quinta-feira, março 15, 2007
nao ha maior metafisica do que a de comer chocolates
India. Uff...
Desculpem os leitores mais assiduos, mas isto as vezes de organizar ideias nao e' coisa facil.
Ja tinha escrito um belo post, mas o caderno onde tinha o rascunho caiu inesperadamente no rio Ganges e la se foi toda a tinta, todas as palavras. Por obra dos destino ou dos mortos que por la navegam, fui encontrar o caderno 3 dias depois. Um velhote que vendia flores a beira rio encontrou-o e como eu ainda sou maryconnections, o gajo veio a saber atraves de outro que aquele objecto moribundo era meu. Enfim, coincidencias.
A verdade e' que tenho vindo a perder demasiadas coisas. Desta vez o rato nao roeu a mochila, mas um macaco entro dentro do meu quarto e roubou-me um champo, uns headphones e umas calcas novinhas acabadas de comprar. Filho da mae. Deve andar prai' de galho em galho a lavar-se todo e a ouvir musica.
Na semana passada fui dar um mergulho ao mar e assim perdi um brinco e duas pulseiras. Ontem roubaram-me o telemovel. Acredito que este fenomeno da perda seja um pequeno treino para me desapegar dos bens materiais. Assim o quero ver. A verdade e' que de calcas, brincos e telemoveis esta o mundo farto.
Um dos episodios mais comicos que me aconteceram ate agora foi um acidente de biciclete que provoquei. Armei-me em espertinha e aluguei uma biciclete anos 60 mais alta do que eu podia aguentar. Estava numa estrada de terra batida e vi uma senhora de sari vermelho. So consigo descrever o que senti como simples atraccao pelo abismo. Em vez de travar, fui literalmente contra o meio do cu da mulher. Ela caiu suavemente (nao sei andar de biciclete, muito menos rapido), parecia quase que estava a dancar. Nisto, quando olhou para tras viu que eu era branca e comecou a chorar. A idiota era ma como as cobras. Pobre de bolso e de espirito. Em 3 segundos juntou-se ali uma comunidade de indianos cheios de ideias, mas nenhum se queria meter para ajudar. Chegou mesmo a aparecer um policia que disse que nao tinha nada a ver com o assunto!! Maravilhoso. No final, a senhora de rabo magoado queria um euro e pronto. Antes disso, ofereci-lhe um analgesico e uma bela licao de moral com direito a traducao para hindi por um trauseunte, mas a pobre nada. Queria um euro e pronto. Contra os meus principios e farta de estar naquele circo, saquei da nota e dei-lhe.
O branco, aqui, e em tantos outros sitios, esta conotado com uma especie de poder que me assusta. Andamos prai a colonizar e depois e' isto: ou eles sao estupidamente submissos ou tentam nos comer a toda a hora. Outro dia um homem virou-se para mim com cara de encantado e disse: " Ei madame, your skin is shiny as silver". Uma bela e eficaz metafora.
Portugal fica numa especie de sitio a parte onde ninguem sabe onde e'. Uns la falam do Vasquinho, mas muito raramente. Por vezes digo que sou da Argentina, da Coreia, ou do Paquistao para os provocar.
Mas esta infinidade de linguas, culturas e religioes, prolongam a minha paixao por este espaco da terra.
Uma Historia que se come a ela propria atraves dos mais perversos paradoxos.
A sensualidade do vestuario, das cores e dos multiplos ornamentos joga no mesmo campo de um rigido sistema de castas onde o ascetismo e a pureza sao valores a preservar. Os deuses hindus sao muitos e para todos os gostos. Normalmente sao representados de uma forma androgena. Tem caras e vidas. Ha tambem em versao animal: macacos filhos do vento ou elefantes com corpos de humano.
Ha tambem uma enorme comunidade muculmana e em menor numero, crista, sikh, jain, whatever. Para os primeiros, so ha apenas um grande e unico criador.
Sim, porque para um biliao de pessoas, ha que haver uma certa variedade divina. Para que todos se possam indentificar e poderem, por vezes, venerarem-se tambem a eles proprios.
Desculpem o atraso.
Beijo com calor, muito calor.
Desculpem os leitores mais assiduos, mas isto as vezes de organizar ideias nao e' coisa facil.
Ja tinha escrito um belo post, mas o caderno onde tinha o rascunho caiu inesperadamente no rio Ganges e la se foi toda a tinta, todas as palavras. Por obra dos destino ou dos mortos que por la navegam, fui encontrar o caderno 3 dias depois. Um velhote que vendia flores a beira rio encontrou-o e como eu ainda sou maryconnections, o gajo veio a saber atraves de outro que aquele objecto moribundo era meu. Enfim, coincidencias.
A verdade e' que tenho vindo a perder demasiadas coisas. Desta vez o rato nao roeu a mochila, mas um macaco entro dentro do meu quarto e roubou-me um champo, uns headphones e umas calcas novinhas acabadas de comprar. Filho da mae. Deve andar prai' de galho em galho a lavar-se todo e a ouvir musica.
Na semana passada fui dar um mergulho ao mar e assim perdi um brinco e duas pulseiras. Ontem roubaram-me o telemovel. Acredito que este fenomeno da perda seja um pequeno treino para me desapegar dos bens materiais. Assim o quero ver. A verdade e' que de calcas, brincos e telemoveis esta o mundo farto.
Um dos episodios mais comicos que me aconteceram ate agora foi um acidente de biciclete que provoquei. Armei-me em espertinha e aluguei uma biciclete anos 60 mais alta do que eu podia aguentar. Estava numa estrada de terra batida e vi uma senhora de sari vermelho. So consigo descrever o que senti como simples atraccao pelo abismo. Em vez de travar, fui literalmente contra o meio do cu da mulher. Ela caiu suavemente (nao sei andar de biciclete, muito menos rapido), parecia quase que estava a dancar. Nisto, quando olhou para tras viu que eu era branca e comecou a chorar. A idiota era ma como as cobras. Pobre de bolso e de espirito. Em 3 segundos juntou-se ali uma comunidade de indianos cheios de ideias, mas nenhum se queria meter para ajudar. Chegou mesmo a aparecer um policia que disse que nao tinha nada a ver com o assunto!! Maravilhoso. No final, a senhora de rabo magoado queria um euro e pronto. Antes disso, ofereci-lhe um analgesico e uma bela licao de moral com direito a traducao para hindi por um trauseunte, mas a pobre nada. Queria um euro e pronto. Contra os meus principios e farta de estar naquele circo, saquei da nota e dei-lhe.
O branco, aqui, e em tantos outros sitios, esta conotado com uma especie de poder que me assusta. Andamos prai a colonizar e depois e' isto: ou eles sao estupidamente submissos ou tentam nos comer a toda a hora. Outro dia um homem virou-se para mim com cara de encantado e disse: " Ei madame, your skin is shiny as silver". Uma bela e eficaz metafora.
Portugal fica numa especie de sitio a parte onde ninguem sabe onde e'. Uns la falam do Vasquinho, mas muito raramente. Por vezes digo que sou da Argentina, da Coreia, ou do Paquistao para os provocar.
Mas esta infinidade de linguas, culturas e religioes, prolongam a minha paixao por este espaco da terra.
Uma Historia que se come a ela propria atraves dos mais perversos paradoxos.
A sensualidade do vestuario, das cores e dos multiplos ornamentos joga no mesmo campo de um rigido sistema de castas onde o ascetismo e a pureza sao valores a preservar. Os deuses hindus sao muitos e para todos os gostos. Normalmente sao representados de uma forma androgena. Tem caras e vidas. Ha tambem em versao animal: macacos filhos do vento ou elefantes com corpos de humano.
Ha tambem uma enorme comunidade muculmana e em menor numero, crista, sikh, jain, whatever. Para os primeiros, so ha apenas um grande e unico criador.
Sim, porque para um biliao de pessoas, ha que haver uma certa variedade divina. Para que todos se possam indentificar e poderem, por vezes, venerarem-se tambem a eles proprios.
Desculpem o atraso.
Beijo com calor, muito calor.
terça-feira, janeiro 30, 2007
O lado ao tasco do atelier meu
Afinal, a Sra. que me faz pães com queijo não se chama Isilda. É Elisa e Augusta ao mesmo tempo.
Entro na porta tipo saloon. Já não ia lá desde o Natal e a ausência aqueceu (um bocadinho) o encontro: "Então menina, já há muito que não aparecia".
Observo enquanto espero pela meia de leite. O JN está aberto em cima do balcão e eu faço-o esperar. Há sítios pequenos onde se concentram todas as riquezas. Reparo num daqueles papéis cheios de alvarás e números e capitais. Leio o nome de Maria Augusta da Silva.
- "Sra. Isilda, quem é a Sra.Maria Augusta?
- Sou eu menina, não tem nada a ber com Elisa pois não?
(conclui que sempre tinha ouvido Isilda em vez de Elisa)
- Não...
- Pois é, os meus padrinhos queriam que eu fosse Elisa e os meus pais Augusta. Então o meu nome de baptismo é Maria Elisa Augusta da Silva, mas no registo ficou só Maria Augusta da Silva. Até já tibe problemas com a polícia."
(reparei que havia ali um leve orgulho em ter um nome real e outro oficial)
-"Ah...que engraçado."
Depois vi o Sr. de pano no ombro a chegar, e percebi que entre baptismos e registos, tinha perdido o seu nome. Pensava em Alfredo, mas Alfredo sabia que não era. Não tive coragem para perguntar directamente:
- " Ó Sra. Elisa, e o seu marido também tem dois nomes? O dele começa por um A, não começa?
Ela foi mais rápida do que a minha memória que estava a ir por caminhos inúteis e complexos.
- O quê menina? Ai se começa por A ai isso já não sei. Eu não sei ler nem escreber. Ele é Júlio, Júlio Rocha."
Veio a meia de leite.
Fiquei indecisa se começava a ler o jornal em silêncio ou em voz alta.
Entro na porta tipo saloon. Já não ia lá desde o Natal e a ausência aqueceu (um bocadinho) o encontro: "Então menina, já há muito que não aparecia".
Observo enquanto espero pela meia de leite. O JN está aberto em cima do balcão e eu faço-o esperar. Há sítios pequenos onde se concentram todas as riquezas. Reparo num daqueles papéis cheios de alvarás e números e capitais. Leio o nome de Maria Augusta da Silva.
- "Sra. Isilda, quem é a Sra.Maria Augusta?
- Sou eu menina, não tem nada a ber com Elisa pois não?
(conclui que sempre tinha ouvido Isilda em vez de Elisa)
- Não...
- Pois é, os meus padrinhos queriam que eu fosse Elisa e os meus pais Augusta. Então o meu nome de baptismo é Maria Elisa Augusta da Silva, mas no registo ficou só Maria Augusta da Silva. Até já tibe problemas com a polícia."
(reparei que havia ali um leve orgulho em ter um nome real e outro oficial)
-"Ah...que engraçado."
Depois vi o Sr. de pano no ombro a chegar, e percebi que entre baptismos e registos, tinha perdido o seu nome. Pensava em Alfredo, mas Alfredo sabia que não era. Não tive coragem para perguntar directamente:
- " Ó Sra. Elisa, e o seu marido também tem dois nomes? O dele começa por um A, não começa?
Ela foi mais rápida do que a minha memória que estava a ir por caminhos inúteis e complexos.
- O quê menina? Ai se começa por A ai isso já não sei. Eu não sei ler nem escreber. Ele é Júlio, Júlio Rocha."
Veio a meia de leite.
Fiquei indecisa se começava a ler o jornal em silêncio ou em voz alta.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
O tasco ao lado do meu atelier
No tasco ao lado do meu atelier, há uma porta tipo "saloon" que o sr.Júlio tira ilegalmente ao sábado para entrar mais sol. A porta, por onde não entram cowboys do faroeste mas de outro tipo latino, tem quadrados azuis e amarelos cortados à mão com papel autocolante. Quando se está lá dentro, não se ouve a porta abrir. Mas qualquer pessoa, por mais discreta que seja, quando empurra aquilo como se estivesse a nadar, racha o pequeno mundo de quem já está lá dentro. Vem a luz ou vem o frio. E depois lá vão as duas metades da porta, qual baloiço decadente, para trás e para a frente até se amarem novamente e finalmente pararem.
Depois, o universo recomeça. O tasco é um estreito corredor com umas escadas de madeira lá ao fundo (nunca subi, deve dar a casa deles). Do lado direito o balcão. Do lado esquerdo máquina de cigarros (que ela liga quando alguém precisa) e uma pintura na parede a dizer: "Caza Poveira, especialidade em vinhos verdes e petiscos". A Sra. Isilda, que está sentada à espera que não entre mais ninguém, levanta-se num misto de preguiça e subserviência (depende do cliente).
" O que é que bai ser?" Serve e senta-se outra vez. O marido aparece mais de vez em quando, deve gostar de andar a pé para trás e para a frente como a porta, e de pano de cozinha ao ombro.
Lá eu sou sempre menina, e começam a tirar-me a meia de leite ainda a porta está a baloiçar. Às vezes confundo-os: em vez do habitual queijo (de bola) que a Sra. Isilda corta (na hora) em fatias mais grossas que a minha própria fome, peço um pão com manteiga. Uma vez tive coragem de pedir que mas cortasse mais finas. Arrependi-me. Ela queria cobrar-me meia sandes.
No Natal fazem-se rabanadas para oferecer aos machos e às meninas.
-"Lebe para a sua irmã e mãezinha."
-"Elas não gostam Sra. Isilda. Obrigado."
-"Lebe na mesma."
No Outono, também oferecem castanhas assadas.
Normalmente há um exemplar de cada bolo, e cada cliente, tem assim o previlégio de comer o único queque ou o único napoleão que ainda sobraram do dia de ontem.
(sempre me intrigou o nome "napoleão" para um bolo feito de massa folhada com chocolate por cima)
De vez em quando há sandes de lombo. E como os corpos são tão fáceis de repartir, ao lado dos bolos, um pratinho de alumínio com o que parecem ser umas orelhas de porco. Talvez ouçam a porta, gozem os cowboys em silêncio ou chamem-me menina.
Depois, o universo recomeça. O tasco é um estreito corredor com umas escadas de madeira lá ao fundo (nunca subi, deve dar a casa deles). Do lado direito o balcão. Do lado esquerdo máquina de cigarros (que ela liga quando alguém precisa) e uma pintura na parede a dizer: "Caza Poveira, especialidade em vinhos verdes e petiscos". A Sra. Isilda, que está sentada à espera que não entre mais ninguém, levanta-se num misto de preguiça e subserviência (depende do cliente).
" O que é que bai ser?" Serve e senta-se outra vez. O marido aparece mais de vez em quando, deve gostar de andar a pé para trás e para a frente como a porta, e de pano de cozinha ao ombro.
Lá eu sou sempre menina, e começam a tirar-me a meia de leite ainda a porta está a baloiçar. Às vezes confundo-os: em vez do habitual queijo (de bola) que a Sra. Isilda corta (na hora) em fatias mais grossas que a minha própria fome, peço um pão com manteiga. Uma vez tive coragem de pedir que mas cortasse mais finas. Arrependi-me. Ela queria cobrar-me meia sandes.
No Natal fazem-se rabanadas para oferecer aos machos e às meninas.
-"Lebe para a sua irmã e mãezinha."
-"Elas não gostam Sra. Isilda. Obrigado."
-"Lebe na mesma."
No Outono, também oferecem castanhas assadas.
Normalmente há um exemplar de cada bolo, e cada cliente, tem assim o previlégio de comer o único queque ou o único napoleão que ainda sobraram do dia de ontem.
(sempre me intrigou o nome "napoleão" para um bolo feito de massa folhada com chocolate por cima)
De vez em quando há sandes de lombo. E como os corpos são tão fáceis de repartir, ao lado dos bolos, um pratinho de alumínio com o que parecem ser umas orelhas de porco. Talvez ouçam a porta, gozem os cowboys em silêncio ou chamem-me menina.
quinta-feira, janeiro 11, 2007
domingo, dezembro 31, 2006
terça-feira, dezembro 26, 2006
Descrição de uma cidade
Não há lado esquerdo na metafísica,
O que não é uma limitação.
A produção industrial de problemas
Solta para o ar nuvens espessas
Que interferem no aeródromo.
Aviões cobertos de graffiti não conseguem levantar voo
Porque, entre os vários desenhos, os miúdos
Desenharam pedras de granito. A Ideia de granito
Pesa mais que a existência concreta de um
Balão, o mundo das ideias é estado transitório entre
O Nada e a montanha. Entretanto, a
Natação tornou-se importante para a cidade
Depois do dilúvio ocorrido há três mil anos. O governo
oferece inscrições gratuitas e ainda casais de animais
Bruscos, mas mansos. Os homens andam felizes, e também
As mulheres, porque todos aprendem a nadar antes dos
Sessenta. Hoje, neste século, morre-se afogado mais tarde.
O mundo é perfeito de todos os lados,
Menos do lado onde estamos: como um sólido geométrico
Belo que cai na cabeça desprevenida.
O mundo é fantástico visto de cima, de helicóptero. A linguagem
Sobe e interfere em camadas específicas da atmosfera,
As palavras que usas não são inertes. O inglês por exemplo,
É Língua que entra excessivamente nas nuvens. O inglês
Para a Astronomia é deselegante, e prejudica ligeiramente
As aves baixas.
No outro lado do mundo, entretanto, alguém, de grandes dimensões
Enfia o aeródromo num saco de plástico. As pulsações
Da alma medem-se pelos pressentimentos, não por
Aparelhos medicinais. E não se ilumina a escuridão,
Ilumina-se algo que já não é escuridão; precisamente porque
A escuridão é escura, escuríssima segundo dizem.
Gonçalo M. Tavares
O que não é uma limitação.
A produção industrial de problemas
Solta para o ar nuvens espessas
Que interferem no aeródromo.
Aviões cobertos de graffiti não conseguem levantar voo
Porque, entre os vários desenhos, os miúdos
Desenharam pedras de granito. A Ideia de granito
Pesa mais que a existência concreta de um
Balão, o mundo das ideias é estado transitório entre
O Nada e a montanha. Entretanto, a
Natação tornou-se importante para a cidade
Depois do dilúvio ocorrido há três mil anos. O governo
oferece inscrições gratuitas e ainda casais de animais
Bruscos, mas mansos. Os homens andam felizes, e também
As mulheres, porque todos aprendem a nadar antes dos
Sessenta. Hoje, neste século, morre-se afogado mais tarde.
O mundo é perfeito de todos os lados,
Menos do lado onde estamos: como um sólido geométrico
Belo que cai na cabeça desprevenida.
O mundo é fantástico visto de cima, de helicóptero. A linguagem
Sobe e interfere em camadas específicas da atmosfera,
As palavras que usas não são inertes. O inglês por exemplo,
É Língua que entra excessivamente nas nuvens. O inglês
Para a Astronomia é deselegante, e prejudica ligeiramente
As aves baixas.
No outro lado do mundo, entretanto, alguém, de grandes dimensões
Enfia o aeródromo num saco de plástico. As pulsações
Da alma medem-se pelos pressentimentos, não por
Aparelhos medicinais. E não se ilumina a escuridão,
Ilumina-se algo que já não é escuridão; precisamente porque
A escuridão é escura, escuríssima segundo dizem.
Gonçalo M. Tavares
segunda-feira, dezembro 18, 2006
colo com este livro
as cidades e os olhos. 3
Depois de ter caminhado sete dias através de bosques, quem vai para Bauci não consegue vê-la e no entanto já lá chegou. São as finíssimas andas que se elevam do solo a grande distância umas das outras e se perdem acima das nuvens que sustêm a cidade. Sobe-se com escadotes. No chão os habitantes raramente se mostram: têm já tudo de que precisam lá em cima e preferem não descer. Nada da cidade toca o solo à excepção daquelas pernas compridíssimas de fenicóptero em que assenta e, nos dias luminosos, uma sombra perfurada e angulosa que se desenha na folhagem.
Três hipóteses se põem sobre os habitantes de Bauci: que odeiam a Terra; que a respeitam a ponto de evitar qualquer contacto; que a amam tal como ela era antes deles e com binóculos e telescópios apontados para baixo não se cansam de passá-la em resenha, folha a folha, pedra a pedra, formiga por formiga, contemplando fascinados a sua própria ausência.
_________________
Italo Calvino, As Cidades invisíveis
Depois de ter caminhado sete dias através de bosques, quem vai para Bauci não consegue vê-la e no entanto já lá chegou. São as finíssimas andas que se elevam do solo a grande distância umas das outras e se perdem acima das nuvens que sustêm a cidade. Sobe-se com escadotes. No chão os habitantes raramente se mostram: têm já tudo de que precisam lá em cima e preferem não descer. Nada da cidade toca o solo à excepção daquelas pernas compridíssimas de fenicóptero em que assenta e, nos dias luminosos, uma sombra perfurada e angulosa que se desenha na folhagem.
Três hipóteses se põem sobre os habitantes de Bauci: que odeiam a Terra; que a respeitam a ponto de evitar qualquer contacto; que a amam tal como ela era antes deles e com binóculos e telescópios apontados para baixo não se cansam de passá-la em resenha, folha a folha, pedra a pedra, formiga por formiga, contemplando fascinados a sua própria ausência.
_________________
Italo Calvino, As Cidades invisíveis
colo infinitamente com este livro (e com o dos proverbios qd estou mais cansada)
"- De agora em diante serei eu a descrever as cidades - disse Kublai Kan - Tu nas tuas viagens verificarás se existem.
Mas as cidades visitadas por Marco Polo eram sempre diferentes das pensadas pelo imperador.
- Contudo eu tinha construído na minha mente um modelo de cidade de que deveria deduzir-se todos os modelos de cidades possíveis - disse Kublai - Contém tudo o que corresponde à norma. Como as cidades que existem se afastam em grau diverso da norma, basta-me prever as excepções à norma e calcular as combinações possíveis.
- Também pensei num modelo de cidade de que deduzo todas as outras - respondeu Marco - É uma cidade feita só de excepções, impedimentos, contradições, incongruências, contrassensos. Se uma cidade assim é o que há de mais improvável, diminuindo o número dos elementos anormais aumentam as probabilidades de existir realmente a cidade. Portanto basta que eu subtraia excepções ao meu modelo, e proceda com que ordem proceder chegarei a encontrar-me perante uma das cidades que existem, embora sempre como excepção. Mas não posso fazer avançar a minha operação para além de um certo limite: obteria cidades demasiado verosímeis para serem verdadeiras.
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis.
quarta-feira, dezembro 13, 2006
quanto sabes, tanto vales
Ultimamente ando a colar com um livro de provérbios portugueses que roubei ao meu pai.
Este tipo de sabedoria popular, às vezes é surpreendente e emocionante, outras apenas irritante.
Ontem estava eu na rua do Almada a comprar umas lâmpadas e entra uma mulher a cheirar a peixe fresco e botinhas de borracha. Ficou lá uns 10 minutos a querer convencer toda a gente que as sapateiras dela eram melhores que as outras, que para nós eram só 7 euros, que para a próxima semana trazia um polbo marabilha ispanhole.
"Anda lá filha, compra-me os bichinhos".
Depois atendeu o telemovél e recebeu uma encomenda para o restaurante Garreti. Desconfio que este último I não faz parte do nome do restaurante. E lá foram as (agora alegres) botinhas de borracha carregando as (agora tristes) sapateiras.
Amo cada cantinho de cada loja de ferragens na Rua do Almada.
Mas agora é tempo de sabedoria...
Provérbios surpreendentes:
-Banana madura não se sustenta no cacho.
- Se queres ver teu marido morto, dá-lhe pepino em Agosto.
-Não te assustes que a pistola não tem fecho.
-Com arte e engano se vive metade do ano, com engano e arte a outra parte.
-Nem mesmo Deus pode por inteiros os ovos mexidos.
-É melhor ser porqueiro que porco.
- Depois do coito todo o animal fica triste, excepto a mulher e o galo.
-Ai Manel Manel, não tens abelhas e vendes mel.
-Se vês que o vinho te prejudica o trabalho, deixa de trabalhar.
Provérbios irritantes para o próximo post.
Espero pelos vossos também.
Este tipo de sabedoria popular, às vezes é surpreendente e emocionante, outras apenas irritante.
Ontem estava eu na rua do Almada a comprar umas lâmpadas e entra uma mulher a cheirar a peixe fresco e botinhas de borracha. Ficou lá uns 10 minutos a querer convencer toda a gente que as sapateiras dela eram melhores que as outras, que para nós eram só 7 euros, que para a próxima semana trazia um polbo marabilha ispanhole.
"Anda lá filha, compra-me os bichinhos".
Depois atendeu o telemovél e recebeu uma encomenda para o restaurante Garreti. Desconfio que este último I não faz parte do nome do restaurante. E lá foram as (agora alegres) botinhas de borracha carregando as (agora tristes) sapateiras.
Amo cada cantinho de cada loja de ferragens na Rua do Almada.
Mas agora é tempo de sabedoria...
Provérbios surpreendentes:
-Banana madura não se sustenta no cacho.
- Se queres ver teu marido morto, dá-lhe pepino em Agosto.
-Não te assustes que a pistola não tem fecho.
-Com arte e engano se vive metade do ano, com engano e arte a outra parte.
-Nem mesmo Deus pode por inteiros os ovos mexidos.
-É melhor ser porqueiro que porco.
- Depois do coito todo o animal fica triste, excepto a mulher e o galo.
-Ai Manel Manel, não tens abelhas e vendes mel.
-Se vês que o vinho te prejudica o trabalho, deixa de trabalhar.
Provérbios irritantes para o próximo post.
Espero pelos vossos também.
domingo, dezembro 10, 2006
sexta-feira, dezembro 08, 2006
hoje
o inverno, esqueci-me dele.
agora apareceu feito gente. feito gente que nos manda usar camisolas, ligar aquecedores.
o inverno tem algo de passado, as pessoas vivem no verão para se lembrarem no inverno.
copianço mal feito na copipronto que nos aquece quando ouvimos a fotocopiadora lá ao fundo.
lá ao fundo. tudo parece longe com esta chuva, com este vento, com estas nuvens.
vai chover amanha, esta muito vento, as nuvens anunciam. que tempo é este?
o monopólio esquecido nos arrumos, o baralho que lhe faltam algumas cartas.
falta sempre alguma coisa no inverno.
agora apareceu feito gente. feito gente que nos manda usar camisolas, ligar aquecedores.
o inverno tem algo de passado, as pessoas vivem no verão para se lembrarem no inverno.
copianço mal feito na copipronto que nos aquece quando ouvimos a fotocopiadora lá ao fundo.
lá ao fundo. tudo parece longe com esta chuva, com este vento, com estas nuvens.
vai chover amanha, esta muito vento, as nuvens anunciam. que tempo é este?
o monopólio esquecido nos arrumos, o baralho que lhe faltam algumas cartas.
falta sempre alguma coisa no inverno.
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