domingo, julho 16, 2006
my dear berlin
A mim, pareceu-me que Berlim muda todos os dias, uma cidade em construção sem buracos nem gruas.
Depois há as palavras e as cores, e a cidade transforma-se em texto pelos inúmeros grafittis, stencils e cartazes presentes em tantas paredes.
Banda desenhada, papel de rascunho, bloco de notas. Paredes.
As feiras, os mercados, os produtos biológicos, os kebabs turcos, a comida asiática, os restaurantes de luxo.
Os supermecados baratos.
Dormi em quatro apartamentos diferentes: grandes e luminosos todos eles. Janelas velhas, patios interiores, tudo muito bem arranjado.
E pessoas bonitas, que ja nao sei se as há ou se sou que as procuro.
Uma noite fui a um concerto. O palco era a continuacao da plateia, nao havia diferenca de alturas. Ambos estavam estabelecidos no fundo de uma piscina vazia, com uma iluminacao a rigor que fazia as paredes azuis de mosaico transpirarem intimidade. Queria estar ali, espaco semi-claro com escadas de ferro antigas. Nao havia prancha. O tecto era feito de arcos primos dos renascentistas. Harmonia entre publico e artista, entre chao e tecto. Um barzinho improvisado para que nao faltasse agua nem bebidas alcoolicas. Encantadoramente irónico.
A musica parecia boa.
Depois encontrei amigos que conheci na India. Passeei com eles pelas ruas de Berlim cheias de restaurantes indianos para todos nós. Os deuses também são importados e asseguram uma boa decoração.
O futebol foi um pormenor e também ele tem lugar nas paredes em grandes murais com a equipe brasileira pintada de verde e amarelo. Por baixo está escrito o slogan : " Joga bonito".
Alguém me traduza para alemão.
segunda-feira, junho 12, 2006
Pang Gu e a criaçao (China)
Quando Pang Gu morreu, nasceram da sua respiração o vento e as nuvens. A sua voz fez-se relâmpago, os olhos tornaram-se sol e lua, o seu corpo deu lugar a cinco grandes montanhas e é do seu sangue que hoje correm as águas. Dos seus pêlos vêm as estrelas, dos seus músculos o solo fértil e do seu suor as chuvas. O homem nasceu dos seus piolhos e das suas pulgas."
sábado, junho 10, 2006
segunda-feira, junho 05, 2006
s/titulo escrita sobre fundo negro negro 1x5cm 2006
alguem me faz o favor de mudar este template para algo mais claro? ernesto, tu é o manager do blog...
quarta-feira, maio 17, 2006
pergunta
continuo a projectar-me no passado ou rendo-me ao presente?
No interior da bahia, no interior da pousada
No principio falava com um sotaque reles brasileiro para que nos entendessemos, mas depois rendi-me ao meu sotaque tripeiro. Ela assumiu, orgulhosa, que "foi pegando o jêto".
Convenceu-me a comprar umas imitacoes rascas de havainas (que me fizeram bolhas nos pés) na mercearia do neto, e a arranjar as unhas no salao da filha que era pedicure semi-professional. Brasileiro é mesmo assim, sempre atento às possiveis necessidades dos turistas, na procura talvez inevitável de juntar mais alguns reais.
Na despedida deu-me um bilhetinho com o número da vizinha Maria. "Mi liga dipois, pa eu saber di voce".
A Dona Angelita não tinha telefone em casa.
Eu guardo o bilhete mas ainda nao lhe telefonei.
segunda-feira, maio 08, 2006
os ricos de baixo e os pobres de cima
A magia não desaparece com a inseguranca que as vezes se sente.
Construcçao e natureza parecem viver um casamento feliz. Os morros exponenciam a beleza da arquitectura e a arquitectura denuncia a verdade dos morros.
A noite do rio é um circo sem palhacos nem palco. Todos participam.
O corpo é arma e alvo. Tudo para todos os gostos. Mulheres a cozinhar, artistas a cantar, gente a dancar. Efemeridade.
E corpo outra vez. Sempre. Beijos que surgem entre goles de cerveja partilhados ou passos de forro. O clima. Amanha nao existe. Subiremos la pra cima outra vez.
No ultimo dia vim ao Pao de Acucar, de onde agora escrevo. Nas placas de sinalizacao esta tb escrita - para quem nao sabe portugues - a versao inglesa: "Sugar loaf".
Ha poucos brasileiros.
Aqui é a unica piramide onde ricos nao tem medo de subir, e ainda se paga para entrar.
Reconheco com nostalgia o sotaque ingles da astraulia, o doce espanhol argentino.
Penso: "Se calhar ja passei a porta de vossa casa".
Ouvem-se camaras, muitas. Devem ter sido carregadas com muito cuidado ate aqui, taxis a porta do hotel a espera deles e das camaras.
Aparecem alguns portugueses.
Prezados turistas de imaculadas meias brancas: silencio por favor, chegou a vez de ouvir falar a minha lingua.
terça-feira, maio 02, 2006
bem vindo ao aeroporto sa carneiro, ate sempre memoria
Depois de se sonhar acorda-se sempre na mesma cama. Os lencois sao os mesmos, o Porto tem manias e personalidade de velho. Não é uma desilusao.
Tirar um penso colado a pele que tem que sair. Chegar é ter que arrancá-lo. Doi, mas depois ate pode ser melhor ou pelo menos mais limpo. Vou continuar a escrever. A memoria nao me deixa parar. A vontade de viver tambem nao. Ate ja.
domingo, abril 16, 2006
o noroeste argentino
Depois há rochas que mudam de cor e forma e outras coisas que nao vale a pena falar. O vento vem e da-lhes formas leves e sofisticadas. Já há muito que deixaram de ser rochas. Agora sao o que cada um ve nelas, nuvens duras pousadas na terra dos homens. Narizes deformados, bocas cheias de fome, cabelos em pé, vestidos de noiva, aquelas rochas pertencem a imaginario de cada um. Autoritarias e absorventes. A fotografia nem sempre funciona.
Depois, encontra-se um rapaz a pedir boleia. Está com o pai e os dois carregam tendas. Nós paramos e eles dizem nao ser normal duas raparigas acreditarem em dois homens com o dedo para cima na berma de uma estrada. Agradecem a boa vontade. O pai de olhos azuis muito grandes, barba grande e boné. O filho de barba escura e olhos pequenos castanhos. O pai que fala, o filho que está calado. Eu que respondo, a dalila que está calada. Eles tinham uma casa ao lado do rio e das rochas que já não são rochas. Construiram-na sem terem pedido a ninguém, assim, feita de areia e de tempo. Eu perguntei ao homem velho dos olhos grandes se o facto de ele ter casa lá fazia com que se habituasse à beleza e já não abrisse a boca de cada vez que saísse de casa. Ele respondeu que não, que viver ali era uma "experiência espacial". Mas passar também o era.
Depois soube que éramos de Portugal e falou do Eusebio, da Amalia, do Salazar e da "revolucion".
Eu ouvia-o sem ouvir, a saborear aquela voz velha que falava dos nossos simbolos nacionais com acento argentino. Acho que aquele dialogo, por ter nada e tudo de especial, não me vai sair da memória. Acredito que deixei um bocadinho de mim naquele circuito de tres dias mas ja nao o quero ir buscar.
sábado, abril 08, 2006
Desculpa. Nao entendi, quem é que se depila?
terça-feira, abril 04, 2006
capital de pernas depiladas
Se Buenos Aires fosse alguém era ma mulher. Perigosa e atraente. A cidade vive do seu glamour e deixa-nos levar pelas malhas, nem sempre consequentes, da beleza. Assume-se nos cafes à moda antiga, nas livrarias de escada em caracol, nas padarias que fazem fome, no tango da rua, nas feiras de antiguidades. A cidade parece barata mas não o é: as mulheres são de valor inconstante e podem sair caras a quem se apaixona por elas. Vai-se gastando um bocadinho aqui, depois é só aquele gelado ali, o cd que está uma pechincha ou o hotel que é só mais um euro mas que está no centro. A cidade é exigentemente feminina e reclama atencao. O porteno (habitante de buenos aires) é orgulhoso e visualmente elaborado. Sao muito politicamente activos e ha quem diga que as manifestações se tornaram em desporto nacional. Gostam de viver bem, de comer bem, de vestir bem. O brasileiro diz sobre o argentino : " eles comem merda e arrotam caviar". Há um circo de ilusões que vive de trapezistas equilbrados numa corda e seguros ao tecto por fios de nylon invisiveis. Assim, se alguem cair, os outros não vêm. Mas ha qualquer coisa que me aborrece nas cidades colonizadas por espanhóis: as infinitas ruas e avenidas que chegam ao numero 20000, a malha urbana toda feita a partir de perpendiculares e paralelas. Pessoalmente, na falta de alguma organicidade sinto-me perdida e a noção de esquerda ou dirita confunde-se constantemente. Quando tudo é tão igual a orientação torna-se mais complicada. E não há a "ruazinha que sobe" ou o bequinhos sem saida. Longas avenidas estabelecidas num plano sem fi, democracia de alturas, ausência de surpresas. Bairros com vida independente onde elite e "povo" se vão distinguindo e hierarquizando. Uma grande parte de Buenos Aires nao a vi: a mulher sabe sempre esconder o que de menos bonito tem.
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quinta-feira, março 23, 2006
Nao me deixem que eu sou fiel
Mas sem duvida, é o pais mais bonito que visitei ate agora.
Uma experiencia intemporal no espaco desabitado. A diversidade da Natureza.
Uma experiencia latina, europeia, conhecida mas intensa nas cidades.
Uma experiencia tentadoramente perturbadora nas pequenas aldeias feitas de vazios e de falhas que se mostram nas casas de areia sem agua nem luz.
Ate ja.
Pelos vistos, vou ter que chegar em Maio.
Mas em Junho vou me por a boleia para a Alemanha para ter oputra pequena experiencia mundial dentro do mesmo país.
Pai, queres vir comigo?
Um reporter e uma fotografa a apoiar a seleccao e a documentar como vivem os nossos imigrantes em terras do norte...
segunda-feira, março 13, 2006
sábado, março 11, 2006
Nao nos deixes, minha Nossa Senhora.
Mas os bons ares continuam. Pelo menos por aqui.
sexta-feira, março 03, 2006
Desafio
Mas as cidades visitadas por Marco Polo eram sempre diferentes das pensadas pelo imperador.
- Contudo eu tinha construído na minha mente um modelo de cidade que deveria deduzir-se todos os modelos de cidades possíveis - disse Kublai. - Contém tudo o que corresponde à norma. Como as cidades que existem se afastam em grau diverso da norma, basta-me prever as excepcoes à norma e calcular as combinacoes mais prováveis.
- Também eu pensei num modelo de cidade de que deduzo todas as outras - respondeu Marco. - É uma cidade feita só de excepcoes, impedimentos, contradicoes, incongruencias, contrassensos. Se uma cidade assim é o que há de mais improvável, diminuindo o numero de elementos anormais aumentam as probabilidades de existir realmente a cidade. Portanto basta que eu subtraia excepcoes ao meu modelo, e proceda com que ordem proceder chegarei a encontrar-me perante uma das cidades que existem, embora sempre com excepcao. Mas nao posso fazer avancar a minha operacao para além de um certo limite: obteria cidades demasiado verosímeis para serem verdadeiras."
in "As cidades invisíveis"
Italo Calvino.
Esperando que se facam cidades nos vossos comentários, Maria.
quarta-feira, março 01, 2006
Adivinha o pais e ganha o premio ;)
E pronto, cheguei a Espanha mas pelo Pacifico. É a latinada. Eles andam nas ruas, eles andam nas pracas, eles andam nas praias, eles comem carne e bebem cerveja. Eles juntam-se. Eles sao parecidos connosco: sujam as casas de banho e deitam picas de cigarro ao chao. Eles falam alto, deitam os foguetes e fazem a festa. Eles mandam bocas tal e qual as de qualquer trolha com imaginacao da rua Santa Catarina poderia mandar. Eles sao consumistas e capitalistas. Eles tem uma natureza incrivel que eu nao vou ter tempo para ver. Eles sao um pais sem largura mas de norte a sul é qualquer coisa como da Alemanha a Nigeria. Eles tem uma cultura "pre-colombina" que é exemplo de sabedoria, imaginacao e rigor. Eles foram colonizados e nao colonizaram. Muitos morreram, mas isso é aquela velha historia que todos sabemos. Eles tiveram Pinochet no poder. Eles tem velhos nas pracas de bone na cabeca e a jogar damas. Eles tem pessoas a vender oculos sol e perfumes de "marca" no chao das ruas sobre um plastico azul. E mitrolas a fazer um espectaculo digno de qualquer estudo de marketing, a vender canetas dos chineses nos autocarros. Estou outra vez sozinha, mas bem acompanhada. Pelo menos, alegria nao me falta.

















