domingo, novembro 11, 2007
Nietzsche e eu
The advantage of a bad memory is that one enjoys several times the same good things for the first time.
terça-feira, outubro 30, 2007
segunda-feira, outubro 22, 2007
terça-feira, outubro 16, 2007
faulkner
It's a shame that the only thing a man can do for eight hours a day is work. He can't eat for eight hours; he can't drink for eight hours; he can't make love for eight hours. The only thing a man can do for eight hours is work.
terça-feira, outubro 02, 2007
o prazo das coisas
"Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos."
sexta-feira, setembro 21, 2007
segunda-feira, setembro 10, 2007
A grande encosta
" Quando se deixa esta província de que vos falei, desce-se por duas jornadas e meia uma grande encosta. Durante aquelas nada há que mereça ser contado, salvo que se encontra uma grande praça, onde se realiza uma grande feira, certos dias do ano.Vêm até aí muitos comerciantes que trazem ouro, prata e muitas outras mercadorias. São originários de regiões onde ninguém consegue ir, senão eles próprios, tão selvagem e remota é das outras; nem ninguém chega a saber onde fica situada porque ninguém lá consegue ir.
Depois de se ter caminhado aquelas duas jornadas, chega-se a uma província situada a sul, que está nos confins da Índia e que se chama Mien. Depois, continua-se durante quinze dias, por lugares desabitados e por florestas cheias de elefantes, rinocerontes e muitos outros animais; não se encontram nem homens nem habitações.
Assim deixemos esta região e vou contar-vos uma história, como irão ouvir."
Marco Polo in "O livro das maravilhas"
Depois de se ter caminhado aquelas duas jornadas, chega-se a uma província situada a sul, que está nos confins da Índia e que se chama Mien. Depois, continua-se durante quinze dias, por lugares desabitados e por florestas cheias de elefantes, rinocerontes e muitos outros animais; não se encontram nem homens nem habitações.
Assim deixemos esta região e vou contar-vos uma história, como irão ouvir."
Marco Polo in "O livro das maravilhas"
terça-feira, julho 24, 2007
Escrita II
"Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livros nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara"
Sophia
Vazia
Não precisa de livros nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara"
Sophia
domingo, julho 15, 2007
quarta-feira, maio 23, 2007
sábado, abril 07, 2007
sexta-feira, março 30, 2007
quarta-feira, março 28, 2007
o radio KAIDE ou a Babilonia
Depois te o macaco safado ter roubado os headphones, apercebi-me mais uma vez que nao consigo viver sem musica. Mas o som do meu mp3 com headphones e' demasiado egoista e intransmissivel, e ja que estou a viajar com uma grande amiga, resolvi comprar um radio. A partilha e' uma coisa bonita, supondo que ha algo para partilhar. Pois bem, pedi a um amiguito indiano que me fosse comprar um radio que custasse menos que um euro. Passado uma hora la vinha ele todo contente com um objecto minusculo e fragil, prestes a partir-se se algum espirito mais arriscado o resolvesse por a funcionar. Sim, made in _______ (Adivinha com grau de complexidade elevado). Tinha 2 bandas como de costume: AM e FM. Nenhuma funcionava. As vezes ouviam-se umas vozes arranhadas em sofrimento la do fundo, mas por pouco tempo sofriam. Segundos depois la vem o som das formigas da televisao nao sintonizada em versao radio. Merda. Pensei: "Tenho que apostar na qualidade".
Foi entao que vi um standzito com oculos de sol e chaves de parafusos numa estacao de autocarros. Estava la o radio desejado tambem. Um radio nao com 2 bandas, mas sim com 8, de seu nome Kaide. Talvez Kaide seja uma marca de qualidade bem conhecida nos campos de plantacoes de arroz chineses, pensei. Propus ao gajo do stand uma troca: dava-lhe o bebe radio e mais algum dinheiro em troca do grande Kaide. Ele aceitou. Toda a negociacao foi, no minima, muito divertida.
O Kaide portava-se um bocadinho melhor que o seu antecessor, mas nem por isso. Era daquele tipo de objectos que precisam de carinho, muito carinho. So funcionava em determinadas posicoes ou comigo por perto, coisas assim. Como tem 8 bandas, a probabilidade de sair algum som estranho dali tambem e' maior, mas so a eterna busca do impossivel ia-me satisfazendo.
Ate' que um certo dia, estava eu em lutas com o meu kaide, experimentando o que ele daria se apontasse a antena a minha testa ou outras posicoes estranhas, quando ouco: "Boa noite, vamos deixar agora os nossos ouvintes com o melhor da musica portuguesa" O que? Nao, eu nem sequer estou em Goa... Sera da minha testa? Nao era. Era a RDP internacional a tentar dar o melhor da musica portuguesa com os GNR, Cla, Delfins. Imaginei o Miguel Angelo de sari, o que me pareceu um cenario bem mais perfeito do que a sua musica. De vez em quando apareciam vozes indianas e, por momentos, pensei estar a ouvir a minha propria cabeca onde ultimamente soam 3 linguas ao mesmo tempo. Portugues, ingles, e a lingua local.
Mas depois disto veio ainda a melhor parte, o programa "Bem comer para melhor viver". Qual Lourdes Modesto, esta era uma senhora que filosofava acerca do tempo que as pessoas ja nao tinham para se alimentarem correctamente. Tinha uma voz tao familiar, imaginei-a de saia travada e cabelos daqueles que secam debaixo dos capacetes da nasa (e que tambem existem nos cabeleireiros portugueses). Vieram os grunhidos outra vez e a pobre senhora cada vez mais la ao fundo. Ja nada era saudavel para se comer no meio de tanto ruido e o penteado corria o risco se estar a desfazer tambem. Deixei a minha imaginacao pousar no ponto maravilhoso onde estava. Desliguei o Kaide e pedi desculpa a senhora filosofa da alimentacao por estar a abrir um pacote de bolachas.
Foi entao que vi um standzito com oculos de sol e chaves de parafusos numa estacao de autocarros. Estava la o radio desejado tambem. Um radio nao com 2 bandas, mas sim com 8, de seu nome Kaide. Talvez Kaide seja uma marca de qualidade bem conhecida nos campos de plantacoes de arroz chineses, pensei. Propus ao gajo do stand uma troca: dava-lhe o bebe radio e mais algum dinheiro em troca do grande Kaide. Ele aceitou. Toda a negociacao foi, no minima, muito divertida.
O Kaide portava-se um bocadinho melhor que o seu antecessor, mas nem por isso. Era daquele tipo de objectos que precisam de carinho, muito carinho. So funcionava em determinadas posicoes ou comigo por perto, coisas assim. Como tem 8 bandas, a probabilidade de sair algum som estranho dali tambem e' maior, mas so a eterna busca do impossivel ia-me satisfazendo.
Ate' que um certo dia, estava eu em lutas com o meu kaide, experimentando o que ele daria se apontasse a antena a minha testa ou outras posicoes estranhas, quando ouco: "Boa noite, vamos deixar agora os nossos ouvintes com o melhor da musica portuguesa" O que? Nao, eu nem sequer estou em Goa... Sera da minha testa? Nao era. Era a RDP internacional a tentar dar o melhor da musica portuguesa com os GNR, Cla, Delfins. Imaginei o Miguel Angelo de sari, o que me pareceu um cenario bem mais perfeito do que a sua musica. De vez em quando apareciam vozes indianas e, por momentos, pensei estar a ouvir a minha propria cabeca onde ultimamente soam 3 linguas ao mesmo tempo. Portugues, ingles, e a lingua local.
Mas depois disto veio ainda a melhor parte, o programa "Bem comer para melhor viver". Qual Lourdes Modesto, esta era uma senhora que filosofava acerca do tempo que as pessoas ja nao tinham para se alimentarem correctamente. Tinha uma voz tao familiar, imaginei-a de saia travada e cabelos daqueles que secam debaixo dos capacetes da nasa (e que tambem existem nos cabeleireiros portugueses). Vieram os grunhidos outra vez e a pobre senhora cada vez mais la ao fundo. Ja nada era saudavel para se comer no meio de tanto ruido e o penteado corria o risco se estar a desfazer tambem. Deixei a minha imaginacao pousar no ponto maravilhoso onde estava. Desliguei o Kaide e pedi desculpa a senhora filosofa da alimentacao por estar a abrir um pacote de bolachas.
quinta-feira, março 15, 2007
nao ha maior metafisica do que a de comer chocolates
India. Uff...
Desculpem os leitores mais assiduos, mas isto as vezes de organizar ideias nao e' coisa facil.
Ja tinha escrito um belo post, mas o caderno onde tinha o rascunho caiu inesperadamente no rio Ganges e la se foi toda a tinta, todas as palavras. Por obra dos destino ou dos mortos que por la navegam, fui encontrar o caderno 3 dias depois. Um velhote que vendia flores a beira rio encontrou-o e como eu ainda sou maryconnections, o gajo veio a saber atraves de outro que aquele objecto moribundo era meu. Enfim, coincidencias.
A verdade e' que tenho vindo a perder demasiadas coisas. Desta vez o rato nao roeu a mochila, mas um macaco entro dentro do meu quarto e roubou-me um champo, uns headphones e umas calcas novinhas acabadas de comprar. Filho da mae. Deve andar prai' de galho em galho a lavar-se todo e a ouvir musica.
Na semana passada fui dar um mergulho ao mar e assim perdi um brinco e duas pulseiras. Ontem roubaram-me o telemovel. Acredito que este fenomeno da perda seja um pequeno treino para me desapegar dos bens materiais. Assim o quero ver. A verdade e' que de calcas, brincos e telemoveis esta o mundo farto.
Um dos episodios mais comicos que me aconteceram ate agora foi um acidente de biciclete que provoquei. Armei-me em espertinha e aluguei uma biciclete anos 60 mais alta do que eu podia aguentar. Estava numa estrada de terra batida e vi uma senhora de sari vermelho. So consigo descrever o que senti como simples atraccao pelo abismo. Em vez de travar, fui literalmente contra o meio do cu da mulher. Ela caiu suavemente (nao sei andar de biciclete, muito menos rapido), parecia quase que estava a dancar. Nisto, quando olhou para tras viu que eu era branca e comecou a chorar. A idiota era ma como as cobras. Pobre de bolso e de espirito. Em 3 segundos juntou-se ali uma comunidade de indianos cheios de ideias, mas nenhum se queria meter para ajudar. Chegou mesmo a aparecer um policia que disse que nao tinha nada a ver com o assunto!! Maravilhoso. No final, a senhora de rabo magoado queria um euro e pronto. Antes disso, ofereci-lhe um analgesico e uma bela licao de moral com direito a traducao para hindi por um trauseunte, mas a pobre nada. Queria um euro e pronto. Contra os meus principios e farta de estar naquele circo, saquei da nota e dei-lhe.
O branco, aqui, e em tantos outros sitios, esta conotado com uma especie de poder que me assusta. Andamos prai a colonizar e depois e' isto: ou eles sao estupidamente submissos ou tentam nos comer a toda a hora. Outro dia um homem virou-se para mim com cara de encantado e disse: " Ei madame, your skin is shiny as silver". Uma bela e eficaz metafora.
Portugal fica numa especie de sitio a parte onde ninguem sabe onde e'. Uns la falam do Vasquinho, mas muito raramente. Por vezes digo que sou da Argentina, da Coreia, ou do Paquistao para os provocar.
Mas esta infinidade de linguas, culturas e religioes, prolongam a minha paixao por este espaco da terra.
Uma Historia que se come a ela propria atraves dos mais perversos paradoxos.
A sensualidade do vestuario, das cores e dos multiplos ornamentos joga no mesmo campo de um rigido sistema de castas onde o ascetismo e a pureza sao valores a preservar. Os deuses hindus sao muitos e para todos os gostos. Normalmente sao representados de uma forma androgena. Tem caras e vidas. Ha tambem em versao animal: macacos filhos do vento ou elefantes com corpos de humano.
Ha tambem uma enorme comunidade muculmana e em menor numero, crista, sikh, jain, whatever. Para os primeiros, so ha apenas um grande e unico criador.
Sim, porque para um biliao de pessoas, ha que haver uma certa variedade divina. Para que todos se possam indentificar e poderem, por vezes, venerarem-se tambem a eles proprios.
Desculpem o atraso.
Beijo com calor, muito calor.
Desculpem os leitores mais assiduos, mas isto as vezes de organizar ideias nao e' coisa facil.
Ja tinha escrito um belo post, mas o caderno onde tinha o rascunho caiu inesperadamente no rio Ganges e la se foi toda a tinta, todas as palavras. Por obra dos destino ou dos mortos que por la navegam, fui encontrar o caderno 3 dias depois. Um velhote que vendia flores a beira rio encontrou-o e como eu ainda sou maryconnections, o gajo veio a saber atraves de outro que aquele objecto moribundo era meu. Enfim, coincidencias.
A verdade e' que tenho vindo a perder demasiadas coisas. Desta vez o rato nao roeu a mochila, mas um macaco entro dentro do meu quarto e roubou-me um champo, uns headphones e umas calcas novinhas acabadas de comprar. Filho da mae. Deve andar prai' de galho em galho a lavar-se todo e a ouvir musica.
Na semana passada fui dar um mergulho ao mar e assim perdi um brinco e duas pulseiras. Ontem roubaram-me o telemovel. Acredito que este fenomeno da perda seja um pequeno treino para me desapegar dos bens materiais. Assim o quero ver. A verdade e' que de calcas, brincos e telemoveis esta o mundo farto.
Um dos episodios mais comicos que me aconteceram ate agora foi um acidente de biciclete que provoquei. Armei-me em espertinha e aluguei uma biciclete anos 60 mais alta do que eu podia aguentar. Estava numa estrada de terra batida e vi uma senhora de sari vermelho. So consigo descrever o que senti como simples atraccao pelo abismo. Em vez de travar, fui literalmente contra o meio do cu da mulher. Ela caiu suavemente (nao sei andar de biciclete, muito menos rapido), parecia quase que estava a dancar. Nisto, quando olhou para tras viu que eu era branca e comecou a chorar. A idiota era ma como as cobras. Pobre de bolso e de espirito. Em 3 segundos juntou-se ali uma comunidade de indianos cheios de ideias, mas nenhum se queria meter para ajudar. Chegou mesmo a aparecer um policia que disse que nao tinha nada a ver com o assunto!! Maravilhoso. No final, a senhora de rabo magoado queria um euro e pronto. Antes disso, ofereci-lhe um analgesico e uma bela licao de moral com direito a traducao para hindi por um trauseunte, mas a pobre nada. Queria um euro e pronto. Contra os meus principios e farta de estar naquele circo, saquei da nota e dei-lhe.
O branco, aqui, e em tantos outros sitios, esta conotado com uma especie de poder que me assusta. Andamos prai a colonizar e depois e' isto: ou eles sao estupidamente submissos ou tentam nos comer a toda a hora. Outro dia um homem virou-se para mim com cara de encantado e disse: " Ei madame, your skin is shiny as silver". Uma bela e eficaz metafora.
Portugal fica numa especie de sitio a parte onde ninguem sabe onde e'. Uns la falam do Vasquinho, mas muito raramente. Por vezes digo que sou da Argentina, da Coreia, ou do Paquistao para os provocar.
Mas esta infinidade de linguas, culturas e religioes, prolongam a minha paixao por este espaco da terra.
Uma Historia que se come a ela propria atraves dos mais perversos paradoxos.
A sensualidade do vestuario, das cores e dos multiplos ornamentos joga no mesmo campo de um rigido sistema de castas onde o ascetismo e a pureza sao valores a preservar. Os deuses hindus sao muitos e para todos os gostos. Normalmente sao representados de uma forma androgena. Tem caras e vidas. Ha tambem em versao animal: macacos filhos do vento ou elefantes com corpos de humano.
Ha tambem uma enorme comunidade muculmana e em menor numero, crista, sikh, jain, whatever. Para os primeiros, so ha apenas um grande e unico criador.
Sim, porque para um biliao de pessoas, ha que haver uma certa variedade divina. Para que todos se possam indentificar e poderem, por vezes, venerarem-se tambem a eles proprios.
Desculpem o atraso.
Beijo com calor, muito calor.
terça-feira, janeiro 30, 2007
O lado ao tasco do atelier meu
Afinal, a Sra. que me faz pães com queijo não se chama Isilda. É Elisa e Augusta ao mesmo tempo.
Entro na porta tipo saloon. Já não ia lá desde o Natal e a ausência aqueceu (um bocadinho) o encontro: "Então menina, já há muito que não aparecia".
Observo enquanto espero pela meia de leite. O JN está aberto em cima do balcão e eu faço-o esperar. Há sítios pequenos onde se concentram todas as riquezas. Reparo num daqueles papéis cheios de alvarás e números e capitais. Leio o nome de Maria Augusta da Silva.
- "Sra. Isilda, quem é a Sra.Maria Augusta?
- Sou eu menina, não tem nada a ber com Elisa pois não?
(conclui que sempre tinha ouvido Isilda em vez de Elisa)
- Não...
- Pois é, os meus padrinhos queriam que eu fosse Elisa e os meus pais Augusta. Então o meu nome de baptismo é Maria Elisa Augusta da Silva, mas no registo ficou só Maria Augusta da Silva. Até já tibe problemas com a polícia."
(reparei que havia ali um leve orgulho em ter um nome real e outro oficial)
-"Ah...que engraçado."
Depois vi o Sr. de pano no ombro a chegar, e percebi que entre baptismos e registos, tinha perdido o seu nome. Pensava em Alfredo, mas Alfredo sabia que não era. Não tive coragem para perguntar directamente:
- " Ó Sra. Elisa, e o seu marido também tem dois nomes? O dele começa por um A, não começa?
Ela foi mais rápida do que a minha memória que estava a ir por caminhos inúteis e complexos.
- O quê menina? Ai se começa por A ai isso já não sei. Eu não sei ler nem escreber. Ele é Júlio, Júlio Rocha."
Veio a meia de leite.
Fiquei indecisa se começava a ler o jornal em silêncio ou em voz alta.
Entro na porta tipo saloon. Já não ia lá desde o Natal e a ausência aqueceu (um bocadinho) o encontro: "Então menina, já há muito que não aparecia".
Observo enquanto espero pela meia de leite. O JN está aberto em cima do balcão e eu faço-o esperar. Há sítios pequenos onde se concentram todas as riquezas. Reparo num daqueles papéis cheios de alvarás e números e capitais. Leio o nome de Maria Augusta da Silva.
- "Sra. Isilda, quem é a Sra.Maria Augusta?
- Sou eu menina, não tem nada a ber com Elisa pois não?
(conclui que sempre tinha ouvido Isilda em vez de Elisa)
- Não...
- Pois é, os meus padrinhos queriam que eu fosse Elisa e os meus pais Augusta. Então o meu nome de baptismo é Maria Elisa Augusta da Silva, mas no registo ficou só Maria Augusta da Silva. Até já tibe problemas com a polícia."
(reparei que havia ali um leve orgulho em ter um nome real e outro oficial)
-"Ah...que engraçado."
Depois vi o Sr. de pano no ombro a chegar, e percebi que entre baptismos e registos, tinha perdido o seu nome. Pensava em Alfredo, mas Alfredo sabia que não era. Não tive coragem para perguntar directamente:
- " Ó Sra. Elisa, e o seu marido também tem dois nomes? O dele começa por um A, não começa?
Ela foi mais rápida do que a minha memória que estava a ir por caminhos inúteis e complexos.
- O quê menina? Ai se começa por A ai isso já não sei. Eu não sei ler nem escreber. Ele é Júlio, Júlio Rocha."
Veio a meia de leite.
Fiquei indecisa se começava a ler o jornal em silêncio ou em voz alta.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
O tasco ao lado do meu atelier
No tasco ao lado do meu atelier, há uma porta tipo "saloon" que o sr.Júlio tira ilegalmente ao sábado para entrar mais sol. A porta, por onde não entram cowboys do faroeste mas de outro tipo latino, tem quadrados azuis e amarelos cortados à mão com papel autocolante. Quando se está lá dentro, não se ouve a porta abrir. Mas qualquer pessoa, por mais discreta que seja, quando empurra aquilo como se estivesse a nadar, racha o pequeno mundo de quem já está lá dentro. Vem a luz ou vem o frio. E depois lá vão as duas metades da porta, qual baloiço decadente, para trás e para a frente até se amarem novamente e finalmente pararem.
Depois, o universo recomeça. O tasco é um estreito corredor com umas escadas de madeira lá ao fundo (nunca subi, deve dar a casa deles). Do lado direito o balcão. Do lado esquerdo máquina de cigarros (que ela liga quando alguém precisa) e uma pintura na parede a dizer: "Caza Poveira, especialidade em vinhos verdes e petiscos". A Sra. Isilda, que está sentada à espera que não entre mais ninguém, levanta-se num misto de preguiça e subserviência (depende do cliente).
" O que é que bai ser?" Serve e senta-se outra vez. O marido aparece mais de vez em quando, deve gostar de andar a pé para trás e para a frente como a porta, e de pano de cozinha ao ombro.
Lá eu sou sempre menina, e começam a tirar-me a meia de leite ainda a porta está a baloiçar. Às vezes confundo-os: em vez do habitual queijo (de bola) que a Sra. Isilda corta (na hora) em fatias mais grossas que a minha própria fome, peço um pão com manteiga. Uma vez tive coragem de pedir que mas cortasse mais finas. Arrependi-me. Ela queria cobrar-me meia sandes.
No Natal fazem-se rabanadas para oferecer aos machos e às meninas.
-"Lebe para a sua irmã e mãezinha."
-"Elas não gostam Sra. Isilda. Obrigado."
-"Lebe na mesma."
No Outono, também oferecem castanhas assadas.
Normalmente há um exemplar de cada bolo, e cada cliente, tem assim o previlégio de comer o único queque ou o único napoleão que ainda sobraram do dia de ontem.
(sempre me intrigou o nome "napoleão" para um bolo feito de massa folhada com chocolate por cima)
De vez em quando há sandes de lombo. E como os corpos são tão fáceis de repartir, ao lado dos bolos, um pratinho de alumínio com o que parecem ser umas orelhas de porco. Talvez ouçam a porta, gozem os cowboys em silêncio ou chamem-me menina.
Depois, o universo recomeça. O tasco é um estreito corredor com umas escadas de madeira lá ao fundo (nunca subi, deve dar a casa deles). Do lado direito o balcão. Do lado esquerdo máquina de cigarros (que ela liga quando alguém precisa) e uma pintura na parede a dizer: "Caza Poveira, especialidade em vinhos verdes e petiscos". A Sra. Isilda, que está sentada à espera que não entre mais ninguém, levanta-se num misto de preguiça e subserviência (depende do cliente).
" O que é que bai ser?" Serve e senta-se outra vez. O marido aparece mais de vez em quando, deve gostar de andar a pé para trás e para a frente como a porta, e de pano de cozinha ao ombro.
Lá eu sou sempre menina, e começam a tirar-me a meia de leite ainda a porta está a baloiçar. Às vezes confundo-os: em vez do habitual queijo (de bola) que a Sra. Isilda corta (na hora) em fatias mais grossas que a minha própria fome, peço um pão com manteiga. Uma vez tive coragem de pedir que mas cortasse mais finas. Arrependi-me. Ela queria cobrar-me meia sandes.
No Natal fazem-se rabanadas para oferecer aos machos e às meninas.
-"Lebe para a sua irmã e mãezinha."
-"Elas não gostam Sra. Isilda. Obrigado."
-"Lebe na mesma."
No Outono, também oferecem castanhas assadas.
Normalmente há um exemplar de cada bolo, e cada cliente, tem assim o previlégio de comer o único queque ou o único napoleão que ainda sobraram do dia de ontem.
(sempre me intrigou o nome "napoleão" para um bolo feito de massa folhada com chocolate por cima)
De vez em quando há sandes de lombo. E como os corpos são tão fáceis de repartir, ao lado dos bolos, um pratinho de alumínio com o que parecem ser umas orelhas de porco. Talvez ouçam a porta, gozem os cowboys em silêncio ou chamem-me menina.
quinta-feira, janeiro 11, 2007
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