segunda-feira, outubro 19, 2009

cê dês

O Joel não sabe aparafusar coisas.
(Joel, perdoa-me, mas isto aqui agora é um espaço de ficção)
Gosto dele assim, fica irritado com os bricolages. Eu estou que nem posso com bricolages. Hoje montei a garrafeira e a coisa dos cd´s. Peguei nos meus cd´s e nos dele e juntei-os assim aleatoriamente nas prateleiras do IKEA. Não dividi por estilos de música porque não me sinto confortável com certas metodologias nem seus resultados. Gosto de encontrar o cd de kuduro que o Dalton me ofereceu onde pensava estar o concerto de Keith Jarret que roubei ao meu pai.
E de repente, com a chave inglesa na mão percebi inesperadamente a minha vida:
- um monte de prateleiras desarrumadas
- a madeira é fina e velha
- algumas têm bicho mas nunca visualizo a morfologia do insecto
- as mais velhas, aquelas que estão em cima, caem sobre as outras que estão novas e belas e fica prá´li uma mistura esquiza entre densidade matérica e fragilidade histórica à espera que aconteça um novo big bang

Penso em palavras tipo "árvore" ou "origem". Abafo qualquer vislumbre de introspecção. Releio o papelinho explicativo do IKEA que descreve todos os passos que devo seguir. Rio-me, penso que o Joel vai ter imensas garrafas para encher a garrafeira e aperto com força a chave inglesa.

quarta-feira, outubro 14, 2009

1ª tentativa

Eu não queria ter tido aquela conversa. Estava sentada a comer um covilhete na Gomes a pensar como é que se fazia aquela porra daquela massa folhada. Aparece Adriano, o empreiteiro. O Adriano tem uma mulher asseada e pontual que se chama Ingrácia e é porteira do prédio onde vive. Se a idade dos filhos não enganar, eles devem estar casados há coisa de 40 anos. A filha é juíza, e o filho vive em Palma de Maiorca com uma alemã que conheceu durante a viagem de fim de curso.
Estava sentada a pensar na massa folhada, não sei fazer massa folhada assim. Adriano:
- Menina, posso sentar-me?
E senta-se. Perco a massa folhada e a imaginação matinal. Adriano cheira a álcool barato, costumo encontrá-lo numa taberna que se chama baca belha. Estão sempre os mesmo homens lá dentro e acredito que nunca estiveram outros desde 1900, data de abertura do estabelecimento. O álcool conservou a vida e os hábitos destes homens, que parecem carregar nas dentaduras o peso das serras em redor.
Sei que Adriano não usa dentadura porque os dentes dele são enormes e separados. Imagino o cabrito de domingo enfiado naqueles espaços vazios e mortos, o bagaço do baca belha a infiltrar-se veloz pelas rachas e a arder na garganta.
Adriano sentou-se e o tributo que presto às manhãs foi por água abaixo. Depois prás, para apimentar a coisa, ainda confessou que era poligâmico.
(não usou a palavra poligâmico)
Acabei o covilhete e disse-lhe que eu não era e que não gostava que o Joel fosse. Chamou-me egoísta. Que eu não sei respeitar a natureza humana, que isto é mesmo assim. Engoli o que me disse sem mastigar, não conheço a natureza humana para poder discuti-la. Pensei na Ingrácia sentada à porta do prédio a ouvir o som do elevador, mas acho que não foi por pena.


(Na semana passada o Gil disse-me que escrevo sobre coisas reais: aquilo que acontece, as pessoas que conheço, os pequenos nadas que vivo. Vim para casa miserável, com o gin tónico a borbulhar a pergunta o que é criar na cabeça e a esbofetear a artista que já conheci)

quinta-feira, outubro 01, 2009

por quem os sinos dobram

É tempo de diospiros. Caem pesados e abertos como dantes. Desconfio em silêncio, que, com o passar dos anos e a sé ali ao lado, começam a respeitar o que lhes diz o sino. Imagino-os quietos e obedientes na hora da missa. Depois, na hora da libertação em que tudo vale, caem esparrachados no chão, que é mesmo assim. Tento explicar o verbo esparrachar a um inglês mas não consigo. Nem sei bem se existe mesmo em portugês mas isso pouco interessa, porque há formas que não tem conteúdo e são formas na mesma. A poesia fica comigo e guardo-a com medo que não dure até à secretária.

(Um dia mando esta merda toda às urtigas: telemóvel, carro, computador. Este mês o telemóvel deixou de dar por uns dias, o computador apanhou água e não tem arranjo, o carro amuou no meio da estrada e não voltou a ligar, a objectiva da máquina nova caiu veloz no xisto duriense e partiu-se. Tendo a acreditar numa nova ciência oculta que pretende acabar com os I-phones de todo o mundo e chamar-nos à ciência dos diospiros, desses que vivem suspensos e caem, felizes e conformados ao tocar do sino)

segunda-feira, setembro 14, 2009

moço de azul escuro

O homem toca à porta. Abro-lhe a porta ainda com as almôdegas a entupirem-me o esófago. O homem toca e eu corro para a entrada. Digo-lhe "hi" e responde-me em inglês, que queria um quarto para hoje à noite. O homem toca e eu reparo que ele manca, manca muito. É de meia idade e tem cabelos grizalhos que deixam cair caspa na t-shirt azul tipo polo.
(o azul é escuro e é capaz de ter uma risca branca na gola)
Recapitulemos: temos um homem de meia idade, manco, caspa nos ombros cobertos por uma t-shirt azul tipo polo, magro, estatura média. Até aqui tudo bem.
Mas depois há o que se vê, talvez o que se sente (sentir é uma palavra estranha como o homem), que não são polos sujos nem pernas insuficientes. Eu vi um homem estranho, não sei bem porquê. Os olhos: de quem queria comer o mundo às escondidas e deixar os restos para os que hão-de vir.
Mostro-lhe o quarto e as almôndegas ali ficam, nesse espaço de indecisão e de sangue, de quem não sabe se pode perder um cliente só porque lhe cheira mal o estrogido.
Mas ele não espera para ser condenado. Abriu-se como um porco na matança. Expôs em meio segundo a solidão que o governa.
- Acha que é fácil aqui arranjar mocinha?
(as almôndegas em queda livre no estômago)
- O quê?
- Mocinha?
- O quê?
- Uma moça.
Só lhe disse que não estava no sítio certo. Fechei a porta do quarto e comecei a andar muito rápido em direcção à saída.
(as almôndegas já no fim do intestino)
Ele seguiu-me até à porta assim, manco, lento, calado, sem objecções, os olhos postos o chão e a caspa dos ombros intacta.

quinta-feira, agosto 20, 2009

pastorsarinho

Caiu um vidro da casa de banho. Jaz sossegado e intacto no telhado do vizinho. O telhado do vizinho tem uma rede que fez com que a coisa não se partisse. Não entendo muito bem como é que um vidro daquela dimensão não se estilhaça em 300 bocados. Outro dia um pássaro entrou pelo buraco sem vidro, foi até à sala e cagou o gira-discos do Joel.
Tenho tendência para acreditar em lógicas deste género:
- O vidro caiu e não se partiu porque um milagre aconteceu.
É por isso que ainda não o fui buscar. Deleito-me sentada na retrete a olhar para aquela coisa perfeita e intacta na rede. Tenho até alguma esperança (pouca) que o vidro volte silenciosamente para o sítio que é dele, incentivado pelo pássaro arrependido que me cagou o gira-discos e que agora decide carregá-lo até cá cima.
Vamos passarinho, podes começar, olha que ninguém vê mesmo.

quarta-feira, agosto 19, 2009

quinta-feira, agosto 13, 2009

The death of Socrates - David

algures aí me entenderá

Estou certa de que não existe Deus no sentido em que estou certa de que nada de real se assemelha àquilo que eu concebo quando pronuncio esse nome. Mas aquilo que eu não posso conceber não é uma ilusão.

Simone Weil, in A Gravidade e a Graça

sábado, agosto 08, 2009

carta sem correios

Querida Claúdia,
Tudo bem por aqui.
Abraça-me uma leveza quase inaugural. Estranha e comovente. Desfaço-me da casa onde sempre vivi.
Não vou mais ver a palmeira desde a janela da sala. E tenho medo que o Sr. Ribeiro dos correios se esqueça de mim. O Sr. Ribeiro usa bigode e trata-me por tu. Para cartas registadas não preciso de mostrar o bilhete de identidade. Os vizinhos conhecem-me o berço, os passos, o carro, as horas. Penso que não sabem nada mais para além do berço, dos passos, do carro e das horas. Mas partilhamos todos naquele prédio uma intimidade calada de quem respeita e vive o mesmo espaço. Nunca trocámos ovos nem cebolas. Uma vez a Gabriela pediu um escadote porque tinha uma inudação em casa. Não percebo como é que se vive sem escadote.
Abro gavetas e encontro cabelos guardados em plástico e cadernos escolares indiferentes ao conhecimento. Penso no incontrolável depósito que sou eu, que somos, e tento pôr os cabelos e os cadernos no sítio certo. Peço-me desculpa e deito-os fora. Apareces sempre na gaveta das fotografias. Não há nada para além de fotografias na gaveta. As imagens sabiam ser elitistas o suficiente para se organizarem num espaço próprio e se distanciarem de cabelos e cadernos. Que respeito tínhamos por aquilo. Este era o avô que nunca conheci, aquele que não tem cor, sempre de roupas cinzentas e cara a preto e branco. A alcatifa gasta é arrancada pelos braços desiludidos da Júlia.
Sabes que mais?
Nada disto me pesa Claúdia. Bebo cerveja ao fim da tarde como antigamente. Encontro pessoas de quem gosto em todo o lado, mas sinto-me mais ou menos miserável por lhes violar as histórias de vida cá dentro. Não respeito a verdade. Imagino tudo. Olho para os cadernos e os cabelos e só penso em si, claro, na vida perfeita que me ofereceu, sim ofereceu,

(desculpa Cláudia)

como poderia pensar noutra pessoa, como sequer é que poderia pensar em mim, eu que assiti ao bicho da madeira a comer as mesinhas de cabeceira do quarto sem nunca fazer nada, sem nunca lhe ter dito, sem nunca comprar um sprayzito. Eu enchi-lhe as gavetas de cabelos e cadernos, desculpe se já não podia guardar mais nada em sua casa, eramos nós por todo lado, na comida e na desarrumação, os casacos à porta e os gritos do fundo da sala " - Agasalha-te, ouviste?"

(olá Claúdia)

Parabéns pela defesa. Contudo, não te parece termos que "defender" a tese um pouco ridículo?
Até ao lanche.

sábado, julho 25, 2009

sexta-feira, julho 24, 2009

de boca aberta com agustina - a saturação da servidão

Hoje estão em causa, não as paradas, que é tudo em que as multidões são adestradas, ou a guerra, a que se convidam; está em causa toda uma dinâmica nova para criar o habitat duma humanidade que atingiu a saturação da servidão, depois de há milénios ter dado o passo da reflexão. As pessoas interrogam-se em tudo quanto vivem. A saturação da servidão não é uma revolta; é um sentimento de desapego imenso quanto aos princípios que amaram, os deuses a que se curvaram, os homens que exaltaram. (...) Mas foi crescendo a saturação da servidão, porque a alma humana cresceu também, tornou-se capaz de ser amada espontaneamente; tudo o que servimos era o intermediário do nosso amor pelo que em absoluto nós somos. Serviram-se valores porque neles se representava a aparência duma qualidade, como a beleza, o saber, a força; esses valores estão agora saturados, demolidos pela revelação da verdade de que tudo é concedido ao corpo moral da humanidade e não ao seu executor.
Um grande terror sucede à saturação da servidão. Receamos essa motivação nova que é a nossa vontade, a nossa fé sem justificação a não ser estarmos presentes num imenso espaço que não é povoado pela mitologia de coisa alguma. Somos novos na nossa velha aspiração: a liberdade é doce para os que a esperam; quando ela for um facto para toda a gente, damos-lhe outro nome.

Agustina Bessa-Luís, in Dicionário Imperfeito

segunda-feira, julho 20, 2009

porco II

O holandês deixou os dois tupperwares no carro. Fiquei podre, pior que o porco. O porco ficou, nada mais nada menos, que 3 dias dentro da carrinha a apodrecer. Não bastava já ter sido morto e cozinhado. Cago-me de medo de hoje vir a sonhar com o animal a quem aquele cachaço pertenceria, inventar-lhe nome e família, data de nascimento, se gostava mais de bolotas ou ração.
Não admito este esquecimento por várias razões. Pelo desperdício como é óbvio. Pelo cheiro nauseabundo que ficou no carro do Joel e por termos que ter feito uma viagem a 140km/h sempre com as janelas abertas já depois de termos atirado os restos mortais ao lixo. Gosto tanto de silêncio.
A última razão, a mais forte, é também a mais absurda de todas. É que eu tenho pena como aquele porco acabou. Sozinho, sempre sozinho, depois de nos ter oferecido um belo jantar de quinta feira com o seu próprio corpo, acaba dentro de um tupperware do IKEA, (daqueles baratos que só se vendem em packs), debaixo do assento de uma carrinha que não é usada ao fim-de-semana, deitando odores do mais criativo que há, à espera que alguém repare nele.

sexta-feira, julho 17, 2009

porquinhos

O porco estava bom. Foi a primeira vez que comi tal bicho na casa nova. A casa é tão arejada que só pede vegetais e coisas assim frescas. Não aceita bem cadáveres, apesar de eu apreciar tais bicharocos. O holândes falou-nos dos seus hábitos alimentares. Vive sozinho e compra pão que vai congelando e descongelando. Depois do jantar, pus os restos dentro de duas caixinhas de plástico e dei-lhe.

Lembro-me depois do Alfredo sentado nas escadas, de mochila às costas. Teria mais de 40, cara carregada de sono e solidão.
- Quero mudar de quarto.
E estende-me as chaves, não olha para mim, como se quisesse cortar com o passado que as ditas cujas representavam. Aceitei-as, absolutamente conivente com o acto, como uma recém divorciada a quem o marido lhe entrega as chaves da casa. Não perguntei porquê, porque porquê parece-me uma pergunta demasiado brutal para quem sofria como Alfredo.
- Posso ajudar-te em mais alguma coisa, Alfredo?
- O americano batia palmas toda a noite. Havia um espanhol que ressonava alto, muito alto, então o americano resolveu bater palmas, como se fosse ele o dono do mundo, como se não houvesse mais gente no quarto.
Nesse dia, Alfredo foi passear com Andreja, eslovaca simpática que viajava sozinha e sabia falar português. Penso que depois de uma noite sem dormir, o nosso amigo Alfredo sentia-se bem apenas com alguém que falasse a sua língua.
Na manhã seguinte encontrei-o na sala sozinho, bem antes do tempo da água fervida e do café na mesa.
- Dormiste bem?
- Hoje sim. As pessoas não sabem uma coisa: não sabem muitas vezes que os problemas vêm delas e não dos outros. A culpa é quase sempre nossa. Sim, culpamos os outros dos nossos males e insónias, mas o problema está em nós.

O bruxismo voltou. Passo a noite a roer os meus próprios dentes, já gastos o suficiente. O melhor é não voltar a comer porco, a culpa pode ser mesmo do cadáver. Minha não é de certeza. O que achas Alfredo?

terça-feira, julho 07, 2009

segunda-feira, junho 29, 2009

robert larga o ice tea e dedica-se ao porto

Estou aqui, aqui mesmo. Por momentos percebo onde estou, não sei quanto tempo vai durar. Estou sentada nesta carpete preta. Ou no tapete negro. Não, nem uma coisa nem outra - estou sentada no tapete preto que é como me ensinaram a falar.
Já não me lembro do dia.
Estou sentadinha assim, quase a doer-me o rabo, apesar do tapete ter uma espécie de pêlo.
Daqui vejo bem os pés do Robert, que está do outro lado do sofá. Os pés do Robert são largos como barbatanas usadas que foram alargando com o tempo. Os dedos são grandes, consistentes e secos, parecem pequenos troncos de lenha preparados para arder na lareira do vizinho. Digo vizinho porque não temos lareira aqui e não calha bem a metáfora.
O Robert só bebe vinho do porto desde que chegou ao Porto e eu acho-lhe piada por isso. Uma coisa tão simples de se fazer. Beber a coisa típica da cidade por onde se anda. Tirou uma foto do cartaz publicitário da Ramos Pinto e fez uma montagem fantástica no photoshop: em vez das cabeças dos dois personagens vintage, aparecem duas fotografias do próprio Robert. O Robert a olhar para ele mesmo, e o belo anjo a segurar-lhe um copo cheio de idiotice e desilusão.
(desilusão porque o Robert disse-me há pouco não acreditar no amor, e idiotice porque ele é um nadinha de nada idiota. Daqui de onde estou vejo-lhe o modelo das sandálias que usa pela forma do escaldão que tem nos pés de urso, mas isso não o faz muito mais idiota do pouco que já é)
O Robert, para além de beber coisas típicas da cidade onde se encontra (neste momento vive na Rússia e bebe vodka), trabalha 6 semanas sem parar e depois galanteia-se outras 6 semanas a viajar. Ora trabalha, ora viaja. Gosto dele por isso e por beber vinho do porto com gosto mas sem distinção.

sexta-feira, junho 26, 2009

carlos drummond de andrade


(...) O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam, para depois comentá-los com a maior cara-de-pau ("com isenção de largo espectro", como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego — às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles. (...)

quarta-feira, junho 17, 2009

fim da tarde solto

É o medo que o tempo traz. O tempo sem palavra e sem desenho. Há um tempo de silêncio, sim - sem palavras, sem desenho, só porque deve ser. Há verbos mais inquestionáveis que outros.
Só é preciso cuidado para não ultrapassar aquilo que nos é permitido. Há uma restrição absoluta e invisível desse tempo que apodrece e deixa o medo, velho resistente moribundo.
Como se tudo aquilo que está numa sala pudesse deixar de existir quando se desliga a tomada. Não vale a pena ficarmos com tudo para nós. A luz ficou apagada tanto tempo, é agora difícil ver os armários outra vez.
Mas entretanto confesso, amo-vos, palavras que não escrevi. Prometo-vos ser fiel. Com uma condição: saiam cá para fora.
Enquanto não existirem ninguém vos pode dizer que não valem a pena.

sábado, junho 13, 2009

tu, m(ed)usa

Penso que um autor deve intervir o menos possível na elaboração da sua obra. Deve procurar ser um amanuense do Espírito ou da Musa (ambas as palavras são sinónimas), e não das suas opiniões, que são o que de mais superficial nele existe. Assim o entendeu Rudyard Kipling, o mais ilustre dos escritores comprometidos. A um escritor, disse-nos, é-lhe dado inventar uma fábula, não a moralidade dessa fábula.

Jorge Luís Borges, in Nova Antologia Pessoal

segunda-feira, junho 08, 2009

domingo, maio 31, 2009

segunda-feira, maio 18, 2009

da rua e dos pés

Alice sentiu frio nos pés. Não se devem usar sandálias com este tempo, mas era tão de manhã. Foi então que viu duas pombas.
Alice costuma sair tarde de casa. Não, costuma sair mais tarde do que devia. No fundo, e de forma mais que patética, desafia o tempo. Como se aqueles 5 minutos que lhe restam para fazer a marginal toda, pudessem inchar como os seus pés num dia de verão e as sandálias muito apertadas.
Depois do episódio da ovelha suicida e do cavalo abandonado, foi a vez das pombas.
Alice entra em casa. Naquele dia, antes do outro em que tinha saído com frio nos pés. À porta do prédio uma pomba estranha. Está encostada, aninhada, naquele canto onde vai aquele homem parar às vezes para dormir um bocado e acabar o vinho de pacote.
Não fez nada, nada havia a fazer, ou talvez alguma coisa, sei lá. Pensou que não iria lutar contra o destino da pomba e que pensos adesivos em patas de pombas vadias era coisa de filme chato. Alice, que gosta de desafiar o tempo nos dias em que trabalha e quando apanha aviões, não é capaz de desafiar o fado da pomba moribunda. Nunca ninguém lhe tinha chamado hipócrita.
Sentiu frio nos pés. Quando fazia marcha atrás, olha (não sabe porquê) por baixo da carrinha branca que está estacionada mesmo em frente ao prédio.
Alice vê a pomba, morta.
(não interessa se era a sua ou não)
Vê duas pombas mortas.
Alice é novamente patética e pensa que a segunda pomba morta tinha vindo para ajudar a primeira, e não tendo conseguido completar a sua missão, morreu de tristeza.

sexta-feira, maio 08, 2009

manguemo-nos enquanto levantas os olhos

Apareceu uma nova versão do Roberto de limão. Desta vez não bebe latas de ice-tea assim seguidinhas. É mais inteligente: comprou um pacote daqueles grandes do mini-preço. De manga. Já foi ao supermercado 3 vezes. Abro-lhe a porta com um sorriso digno de quem não se importava (ainda que me importe) de partilhar o pacote ao fim da tarde no jardim. Ele baixa a cabeça, eu baixo com ele de forma a vermos os dois a mesma coisa. Não lhe sei o nome, devia saber. Não lhe posso tratar pelo nome, devia tratar. Mas, digamos que, para este nível precário de conhecimento, saber o nome de alguém é retirar-lhe todas as características que se estão a formar. Não me posso dar ao luxo de aceitar tareias violentas naquilo que ainda me resta de imaginação. De tanto a salgar, acabou por ficar seca - a pobre.

Il n'y a pas de problème parce qu'il n'y a pas de solution

terça-feira, abril 28, 2009

il postino




- ...Os etcéteras! Pensa que o mundo inteiro é a metáfora de qualquer coisa?

quinta-feira, abril 23, 2009

cama de casal

Vou contar aqui uma coisa. Pequena, como de costume. A minha irmã mais nova, que terá os seus 15 anos, disse hoje ao jantar que tinha 3 grandes sonhos:

- ir a Nova Iorque
- assistir a um jogo com o Roger Federer no Wimbledon
- ter uma cama de casal e poder dormir à larga

Vim para casa. De noite, os espaços tornam-se imensos, desfigurados. Deitei-me na cama vazia - de casal por sinal - e estive quase para lhe mandar um toque.

(não sou divorciada)

segunda-feira, abril 20, 2009

so high thek




Paul Thek's piece pays homage to cruel losses sustained on a battlefield of the artist's imagining.

esto mago

De repente, a cabeça seca e o estômago tem um buraco. A médica diz que pode ser úlcera, mas que este é o primeiro episódio de dor e por isso não vou ter que fazer endoscopia. Há quem diga que as endoscopias não são exames fáceis, que nos metem um tubo por ali abaixo. Não tenho medo dos tubos, mas assustam-me as noites em que acordo a ganir de dor e só uma bolacha me acalma. Acordo, sinto o estômago (até agora só sabia onde o estômago era porque era aluna de 4 a ciências da natureza), sinto a dor, não não, aquela dor é maior que eu, e eu é que a invado, eu é que não pertenço ali. Tenho saudades daquilo que sou. Fecho os olhos à espera de um sonho cheio de lulas e alecrim. As lulas aparecem e o alecrim deixa-me o aroma na mão. Entretanto aí vem ela outra vez, acordar, ganir, abrir a luz e a boca, bota a bolacha abaixo antes que venha o tubo e adormeço novamente à espera de galinhas ao ar livre.

sexta-feira, abril 10, 2009

brasas

Hoje de manhã foi assim: eu estava numa fila do supermercado. O que eu queria era sair da cama e que aquela fila acabasse rapidamente, mas isso é outra história. Antes de ir pagar, costumo olhar sempre para a menina da caixa para perceber como é que ela passa os produtos naquela coisa que lê os códigos de barra. Dependendo do movimento de mãos da menina e não do tamanho da fila, escolho a caixa. Bem, este supermercado só tinha uma fila e uma menina. Eu estava a escolher uma pizza congelada (detesto pizzas congeladas) enquanto esperava pela minha vez de pagar. Isto é giro, poder estar em duas partes ao mesmo tempo. Abri várias caixas de pizza para ver o aspecto das pizzas, li-lhes os ingredientes, ofendi os produtores. Depois lá apareceu uma que me convenceu: era de queijo e lulas. Queijo e lulas, meu deus, o que é que se passará na minha reserva de desejos. Eis senão quando abro o pacote e o que encontro é apenas uma lula. Uma lula nem grande nem pequena, corpo médio e congelado. Já as patinhas, essas, que eram muitas e fininhas pareciam mais moles, como se fossem imunes à temperatura negativa da arca, quase como as mãos elegantes do meu vizinho que só toca piano ao fim de semana.
(o vizinho gosta da música da pantera cor de rosa, mas toca-a sem mistério)

últimas semanas

Às tantas, passa-se horas a dormir e não sabemos por onde andamos. Isto tem-me acontecido, deito-me cedo e nunca mais acordo. Sonho consigo avó, sempre. Outro dia estava a tomar banho e ouço alguém a entrar em casa. Espreito pela porta da casa de banho e vejo-a no corredor, com aqueles vestidos que só usava no Verão e com uns óculos dos anos 80 que tinham a massa castanha e grossa. Fiquei preocupada se estaria a molhar o chão todo, a avó não gostava, e eu era descuidada. Aquilo também sem cortina era difícil. Outro dia ria-se, nós a falarmos não sei de quê e a avó só se ria. Nem uma palavrinha, eram sorrisos calmos e inesquecíveis.
É assim que recheio a sua enorme ausência, em acontecimentos noctívagos e isolados que nunca sei quando vão aparecer de novo. Talvez por isso agora durma tanto, para passar horas consigo, assim, sem nada para fazer, só aquela coisa do almoço e de estarmos no sofá. O último sonho deixou-me preocupada: eu sabia que a avó estava morta mas a avó morreu durante o sonho, como se a segunda morte confirmasse a primeira. Fiquei com muito medo que o meu inconsciente a tivesse matado e nunca mais a pudesse ver de vestido no corredor. Desde então ainda não sonhei outra vez consigo e já passaram 4 dias. Fui ao Ikea e comprei uma cortina para a banheira.

quinta-feira, abril 02, 2009

filhos

Sócrates: Você sabe, Fedro, esta é a singularidade do escrever, que o torna verdadeiramente análogo ao pintar. As obras de um pintor mostram-se a nós como se estivessem vivas; mas, se as questionamos, elas mantêm o mais altivo silêncio. O mesmo se dá com as palavras escritas: parecem falar connosco como se fossem inteligentes, mas, se lhes perguntamos qualquer coisa com respeito ao que dizem, por desejarmos ser instruídos, elas continuam para sempre a nos dizer exactamente a mesma coisa. E, uma vez que algo foi escrito, a composição, seja qual for, espalha-se por toda a parte, caindo em mãos não só dos que a compreendem mas também dos que não têm relação alguma com ela; não sabe como se dirigir às pessoas certas e não se dirigir às erradas. E, quando é maltratada ou injustamente ultrajada, precisa sempre que o seu pai lhe venha em socorro, sendo incapaz de se defender ou de cuidar de si própria.

Platão, in Fedro

quarta-feira, março 25, 2009

roberto de limão

O Roberto, só naquele bocadinho estive lá, bebeu 4 ice-teas. Vi-o com estes olhos que a terra há-de comer, a abrir 4 latinhas daquelas. Era apenas um fim da tarde de terça-feira e não havia muito para fazer. Talvez por isso ele fosse achar que se intoxicar de açucar e teína seria a melhor opção. O Roberto abria as latas maquinalmente, indiferente ao som do metal quando se puxa aquela coisa e abre-se a lata. Pode-se dizer que esse som é excitante, sugestivo, inaugural. Faz-me lembrar a campainha de Pavlov. Acho que o que eu queria mesmo é que o nosso Roberto fosse que nem os cãezinhos, que ladrasse e se babasse ao ouvir o estalo metálico que lhe anunciava gratuitamente a satisfação de um desejo. Mas não. Talvez ele não sentisse desejo. O nosso amigo olhava em frente e prás, abria a lata, depois punha a cabeça assim ó pra trás, um golo desmedido, e voltava a pousar os olhos num livro que fingia ler.

(à noite, quando fui revistar os quartos e vi o Roberto a dormir, apeteceu-me abraçá-lo muito e dizer-lhe que a solidão não se cura com líquidos)

terça-feira, março 24, 2009

quarta-feira, março 18, 2009

gente com o vente

O homem da garagem não tinha qualquer sotaque. Sozinho na garagem grande, vestia uma camisa branca e mancava. Mancava sem se atrapalhar, não queria andar mais rápido do que podia. Tinha uma cara feita em gesso de onde não se desvendava facilmente a idade. As mãos eras grandes, como se dentro delas e dos ossos que nelas estão dentro, pudesse carregar mais segredos que nós.
- Um homem de camisa branca numa garagem - pensei.
Não foi preciso tirar bilhete nem registo.
- Menina, vá-se embora e não se preocupe.
Todos estes bilhetes que somos obrigados a tirar nos parques são demasiados pesados por representarem uma equação mal resolvida para quem gosta de viver: tempo = dinheiro.
O homem da garagem não tinha trocos. Vestia uma camisa branca e tinha o cantinho dele montado, na imensidão do espaço absurdo que é uma garagem.
Uma mesa vazia. Encostados à parede, uma lancheira quase fechada e um microondas com a hora errada.

segunda-feira, março 09, 2009

lanche

Ela falava, falava desmesurada, indefinidamente. Ela falava sem receptor. Há muito disto no mundo - pensei. Não percebo se é uma questão de arrumação mental, de desprezo pelas palavras, necessidade de integração, vontade de sair da concha. À noite, às vezes falo com o espelho.

(Olho em volta e bato com a cabeça na concha que está cada vez mais dura. É difícil abri-la, e partir não se aconselha. Às vezes revejo-me naquelas amêijoas que ficam no prato por estarem muito fechadas)

- Cuidado que essas não se podem comer!

Voltando à mulher. No início, até a ouvi. Havia um prato de salpicão na mesa. Depois comecei a emborcar o enchido de forma desumana. E à medida que a senhora se ia entusiasmando, eu ouvia-a cada vez menos, até as palavras se tornarem sons de dedos a baterem na concha. Truz truz. Não entram. Já estava lá dentro, num silêncio absoluto, e o sal do salpicão a roubar o sentido de todos aqueles ecos verbais, conservando-me viva e fresca na concha esquecida.

terça-feira, março 03, 2009

zézix

Caro Zézito, deixe-me que lhe diga: a palavra "simplex" é de mau gosto. Remete para marca de tachos ou tupperwares. Pior, ainda me faz lembrar aquele anúncio da clix que quer que compremos algo que é "à borlix".
Fonix Zé, respeita-nos. Promove o português correcto e poupa o povo a conhecer os teus pêlos da perna. Desde que te vi todo suado na televisão, a fazer uma maratona de domingo, nunca mais acreditei em ti.

ps: é verdade, outro dia ouvi um tio teu no telejornal a chamar-te de Zézito, e achei que todos te podíamos tratar assim.

sábado, fevereiro 28, 2009

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

antecipação da primavera

É nestes dias de sol, que ao coçar o cérebro de certas irritações mentais, me entrego à luz inaugural das manhãs e amo cada mochileiro ignorante que por aqui passa.

notas:
(eu também sou ignorante)
(amo igualmente os mochileiros que não são ignorantes)

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

verde

Gosto de alcatifa gasta. Está gasta por toda a casa. Conta-me o tempo e o peso dos pés. E, de tão gasta, começa a anunciar a camada que está por baixo. Por baixo está uma espécie de rede pixelizada bege - há manchas que me explicam os percursos que gosto de fazer. Entro sempre pelo mesmo sítio, estou a vê-lo da cama, está gasto da minha monotonia. Podia pelo menos, de vez em quando, entrar mais encostada para o lado do puxador. Que ficasse aí o testemunho de alguma coisa que só faço de vez em quando. Mas não, a matéria não mente, o que está gasto gasto está, e nós para aqui a olhar a ver se ela se põe nova outra vez e me mostra o tamanho antigo dos meus pés.
Hoje prometi a mim mesma não escrever nada que fosse nostálgico. Não sei se as alcatifas são nostálgicas ou não. Talvez por nunca poderem ser limpas dos ácaros devidamente, representem o processo da infinita acumulação que nos gere. Não quero acabar o texto aqui. Falta o remate final, quando se dá aquele nó que une as coisas escritas acima. No quarto da Lé, o chão está cheia de linhas soltas e bocados de tecido que se agarraram à alcatifa já há muito anos, e que o aspirador não as consegue tirar.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

natas

A Berta diz que há gente que defuma as casas. Eu não conhecia esta prática. A única coisa que me lembrei quando ela disse aquilo foi de salmão e presunto.
Defumar é, basicamente, limpar a casa dos espíritos malignos do inquilino anterior.
- Sim, porque há pessoas que podem tolher a nossa vida - continua.
Então é assim: com medo que nos tolham a vida, mais vale que defumemos a casa.
E como é que se defuma?
Compram-se umas coisas naquelas lojas e depois dizem-se umas palavras para os cantos da casa.
Não é qualquer um que pode defumar, tem que ser daqueles repórteres especialistas no além. Cartas e essas coisas. Outro dia conheci uma. Disse que sabia tombar pessoas, tombava pessoas do mal. Pensei quem eram as pessoas do mal. Como se pertencessemos a algum repartimento moral. Olha que aquele, é uma pessoa de bem. Mas enfim, se formos do mal, há que ter cuidado em sentarmo-nos na cadeirinha, senão vem a Rosa e pumba - já estamos tombados.
Não sei se alguém já me quis tombar ou tolher.
Naquela noite, sem me conhecer, a Rosa disse que via tristeza nos meus olhos e eu comecei alegremente a comer o prato de bacalhau com natas.

(a Berta deve ter falado da minha avó ao subir a calçada)

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

tisanas

"Às vezes penso: os nossos sentimentos são como uma espécie de esparguete em aço, em que cada segmento está totalmente imiscuído no todo mas ao mesmo tempo é distintamente apercebível. Outras vezes penso: não, os nossos sentimentos são como uma floresta de esparguete de aço em que cada segmento emerge só parcialmente distinto. Na ponta de cada uma dessas varas vibra uma formação algo rendilhada, consequência dos constantes tremores de cada segmento, e assim, quando alguém está sob o império de funda emoção, tudo nele treme e na floresta tudo vibra e essas extremidades rendilhadas formam rapidíssimos desenhos, imiscuindo-se uns nos outros, e o total é uma combinação de vibrações que se sobrepõem e explicam a confusão que se encontra no indivíduo sob o império da emoção."

Ana Hatherly

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

avó e computador

Não sei se deva procurar um sentido para tudo o que acontece. Isso contraria a natureza caótica do mundo e reduz-nos a figurantes.
Durantes estes anos todos (poucos) forcei-me a pensar que as coisas aconteciam porque tinham que acontecer. Espera aí, talvez o facto de aceitar certas coisas como são, e exclusivamente as coisas que acredito não poder mudar, seja um acto profundamente estóico.
Porra, ainda que tenha um trabalho importantíssimo para entregar amanhã, prefiro vir para aqui cuspir fluídos psíquicos.
Hoje tudo me parece banal mas profundamente único.
O computador que comprei há um ano e por quem tinha enorme carinho, estragou-se ontem a meio do tal trabalho importante. Um especialista de computadores, amigo de longa data, disse-me para não ter muitas esperanças em recuperar a informação. Está bem, eu não tenho. Pus-me agora a pensar o que ficou ali e não senti grande coisa. Quer dizer, senti, mas foi insignificante. Perdi registos, muitos registos que não sei como recuperar. O passado electrónico não pertence a ninguém.
A minha querida avó materna morreu há uma semana e eu passo os dias a tentar recuperá-la dentro de mim. Tenho medo da memória. Ontem o computador perdeu a sua sem mais nem menos. Tenho medo da memória. Não quero que ela venha para aqui com as suas selecções esquisitas de momentos. Avó, eu não quero esquecer nada que tenha a ver consigo. Quero registar todos os cheiros e todos os seus gestos. Quanto tempo demorava o seu silêncio. O facto de amá-la assim faz com que o meu disco rígido seja mais resistente que os da apple.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Rilke

Tudo quanto é velocidade não será mais do que passado, porque só aquilo que demora nos inicia.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

terça-feira, janeiro 13, 2009

leitão com asti gancia

A Maria Leitão aparece na cozinha enquanto desfio bacalhau. Não exige que lhe olhe nos olhos para dizer que está feliz porque o pai morreu.
- Não sei onde. Lá para o Brasil. Só soube uns tempos depois.
- Feliz, Maria? Coitado do seu pai.
A Maria voltou a abrir a boca para lançar um sorriso quase bárbaro. O pai fez-lhe muito mal. Senti-me estranhamente bem por ter encontrado uma espinha.
A Maria comemorou o acontecimento com champanhe. Disse:
- Menina, tinha há anos uma garrafa de champanhe guardada para quando morresse a minha sogra, mas tive de a abrir. Agora só tenho que comprar outra e esperar pela morte da minha sogra. A minha sogra é muito má. É mesmo muito má.
Nunca me tinha passado tal coisa pela cabeça. Já há muitos anos que deixei de entender a bondade ou a maldade. Enquanto arrancava a última pele cinzenta da posta, comecei a sentir as bolhinhas do champanhe na barriga.
Pensei em desenhos animados.
Os maus, os bons, os maus que morrem vencidos pelos bons.
Mas a Maria não faz parte deste trama. É pura espectadora, calculista e previdente, não vá a sogra morrer ao domingo e o supermercado estar fechado.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

terça-feira, janeiro 06, 2009

novo (2) - bruxismo

O dentista já me tinha dito que eu era bruxómona. Não sei como é que se escreve, procurei no google e só encontrei sites brasileiros. Se bem que vai ser tudo igual daqui em diante. Sim, sofro de bruxismo. Não é porcalhice.
O bruxismo consiste em passar a noite a raspar com os dentes uns nos outros, como se estivéssemos muito zangados. Do género cão antes de morder. RRRRRRRRRR. Ranger.
Quando ele me disse que sofria de bruxismo eu não liguei, mas ultimamente acordo exausta da boca. De daqui em diante, se alguém me disser que ando com má cara eu vou confessar: "ó pá, é porque ando cansada da boca". Imaginem-se a mastigar aqueles restinhos de nozes e pinhões a noite toda. A tarefa nunca está completa - mal acabam de aniquilar aquele resto de amêndoa dos formigos do Albano, aparece a avelã do chocolate Nestlé da Tia Cláudia.
Pensei que talvez os sonhos e o meu estado psíquico pudessem influenciar na intensidade do bruxismo. Mas não me parece. Sonhei a noite toda com uma comunidade de gatos. Acabou com a gata mais bonita a ter filhos. Isto é de uma simplicidade quase absurda. Se ao menos sonhasse com cavalos brancos, portas e precípios. Não, sonho com gatas parideiras e com meia dúzia de pessoas que amo e me fazem feliz.

novo (1) - pick up

O ano começou mal. Desde dia 1, já comi com duas multas no carro e um pequeno acidente. Não foi acidente. Foi estupidez minha. Também não foi com o meu carro, foi com o carro de outra pessoa. Se fosse com o meu já não valia a pena contar.
Descobri que o vizinho que eu acreditava andar-se a fazer a mim é gay.
A Gabriela veio pedir um escadote porque tinha a casa dela inundada e nunca mais o devolveu. Para além de livros e cd´s, nunca se deve emprestar escadotes.
No dia 2 pus-me a pensar se não deveria fazer daquelas listinhas inúteis com aquilo que quero mudar neste ano, deixar de fumar, fazer dieta, não dizer mal das pessoas no blog. A treta do costume. Detesto listas, promessas, juras. Juro-te que. Juro-te pela minha vida. A única vez que tive que jurar tive que mentir, naquela espelunca de tribunal. Mentir em sítios feios torna a mentira demasiado verdadeira.
Não quero ouvir ninguém a prometer nada, basta que falem, a promessa é por natureza uma redundância. Ou deveria ser.

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Lina

Não gosto das amigas da minha avó, nem do natal, nem de ladrilhos de marmelada.
A Lina ligou, eu atendi e sabia muito bem quem era, mas tentei passar por desconhecida.
- Sim, eu vou chamá-la.
A Lina liga muito de vez em quando, no natal ou para anunciar a morte de alguém. Tem cara de gaivota velha, líder de um bando de pássaros que há muito a não segue.
À medida que a minha avó foi ficando cansada de viver, e deixou de a poder convidar para jogar canasta às quartas, ela nunca mais quis saber. Safada da Lina, queria era os pãezinhos de leite com fiambre e a tarte de maçã. Eu bem a vi outro dia no Pingo Doce a comprar pensos higiénicos.
- Menina estes são dos grandes?
- São, minha senhora.
Quando chegava a casa, percebia que era dia de canasta pelo cheiro das águas de colónia trazidas de Vigo. No bule, um resto de chá preto já demasiado amargo. Procurava então restos de bolos e pãezinhos, as senhoras deixam sempre um ou dois. Agora deixam o tempo cuidar delas e dos outros, à espera que o Fado lhes toque à porta, esse que lhes roubou os maridos.
(a não ser a Linda que compra pensos higiénicos para as netas e usa botas de tacão)
Caramba, o que teremos que fazer para que o presente não se divorcie de nós. Eu quero-lhe pedir em casamento, prometo-lhe ser fiel.
A velhice mais terrível é essa, aquela em que o que tempo não desfaz as marcas de baton nos guardanapos de linho, as migalhas dos pães de leite perpetuadas nas tardes de quarta feira sem lanche nem jogadas.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

manhã

Preocupam-me ainda as coisas do passado. Escrevo como se o poema fosse uma realidade, ou dele nascessem as folhas da vida, com o verde esplêndido de uma súbita primavera. Sobreponho ao mundo a linguagem; tiro palavras de dentro do que penso e do que faço, como se elas pudessem viver aí, peixes verbais no aquário do ser. É verdade que as palavras não nascem da terra, nem trazem consigo o peso da matéria; quando muito, descem ao nível dos sentimentos, bebem o mesmo sangue com que se faz viver as emoções, e servem de alimento a outros que as lêem como se, nelas, estivesse toda a verdade do mundo. Vejo-as caírem-me das mãos como areia; tento apanhar esses restos de tempo, de vida que se perdeu numa esquina de quem fomos; e vou atrás deles, entrando nesse charco de fundos movediços a que se dá o nome de memória. Será isso a poesia? É então que surges: o teu corpo, que se confunde com o das palavras que te descrevem, hesita numa das entradas do verso. Puxo-te para o átrio da estrofe; digo o teu nome com a voz baixa do medo; e apenas ouço o vento que empurra portas e janelas, sílabas e frases, por entre as imagens inúteis que me separaram de ti.

Nuno Júdice

sábado, dezembro 13, 2008

pistolleto

driving with seixas

No fundo, tenho um fraco pela trivialidade. Atraem-me as mãos normais dele no volante. A conversa mediada pelo retrovisor, os taxistas vivem no mundo do reflexo e de algum silêncio.
Ele pergunta-me:
- Do you speak english?
Eu:
- Yes.
- So, listen this song.

E calámo-nos. Na rádio, a voz rouca e kitsch de Chris Rea:
I sing this song
To pass the time away
Driving in my car
Driving home for christmas


Rio-me. Rimo-nos.
Digo-lhe que é bom sabermos inglês porque assim percebemos as letras das canções.
Ele diz-me várias coisas em tempos diferentes da conversa mas que eu decidi juntar aqui:
- Tem razão menina, é que a música vem sempre acompanhada de poesia. Eu faço o turno da noite. Quando não há clientes, eu falo com os colegas ou leio um livro. Sou Seixas de nome, o meu avô também era Seixas e era conhecido lá na zona do Tua. Não há nada de anormal em trabalhar à noite, durmo sempre das 8 da manhã até às 4. Só não levo pessoas ao Marquês, é tudo para a prostituição, fecho as portas assim por dentro e abro o meu livro.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

paterna

Não sei se é de termos medo das imagens, isto é, não sei se deveríamos controlar o tempo a que nos dedicamos a elas, ou seja, porque será que tapamos os olhos nos filmes de terror mas nunca deixamos de espreitar.
A minha avó estava bonita, assim, mesmo morta, mas já não sei se era ela ou não. Primeiro custa-me dizer que ela estava morta, como é que alguém morre, e que palavra mais arrojada - morte. Os homens inventam palavras sem saberem o que elas significam. Não há nada mais individualista que um caixão, se ao menos fossem mais largos e houvesse espaço para um compartimento cheio de bebidas, comidas e objectos. Chamem-me materialista, mas eu quero ir lá para baixo com meia dúzia de coisas que gosto, uns cadernos e algumas fotografias.
Voltando ao respeito pelas imagens
(ou simplesmente a ver vamos se eu reconheço qual é o meu estofo para ver um homem desdentado a pousar a minha avó lá debaixo dos nossos pés e depois pegar numa pá prefigurando uma cena de filme de terror série d)
Quanto tempo poderemos nós olhar para alguém que gostamos assim, inerte. As mãos tãos frias, ela nunca tinha as mãos frias, durante anos coçou-me as costas e o cabelo com as unhas sempre a respeitar um tamanho sensato, nunca demasiado arranjadas (detesto unhas perfeitas) e a pele bem tratada com cremes baratos.
Mas quais são as mãos que durante o inverno nos invadem o príncipio das costas,
ali naquele espaço de sedução entre a camisa e um par de calças,
(o idiota que inventou a palavra lombar não fazia a mínima do que falava)
e não nos fazem sentir o frio de fora que está a entrar para dentro,
entrar para dentro é um sublime pleonasmo a meu ver,
eu a pensar: espero que ela não se farte já
eu a pensar: espero que hoje se lembre de me coçar as costas antes de eu adormecer no sofá cama do hostel, cheia de medo que me peçam uma coca-cola a meio da noite, nesse espaço infinito entre a memória e um frigorífico.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

merhaba

dentro

O homem entra na camioneta com um terço na mão, ostentanto a sua fé e poder.
É grande, sujo, usa gravata e tem barriga. A gravata repousa resignada na curva da pança e não consegue chegar até ao cinto. As gengivas são escuras, ainda que não as tenha visto.
O homem usa gargalhadas secas e altas para reagir à série cómica e estúpida que passa na televisão. Acho depravado tantos passageiros serem obrigados a ver o mesmo filme e a ouvir as gargalhadas de homens como este.
Gosto de ir ao cinema porque está escuro, podemos chorar à vontade sem que o vizinho da cadeira 26 nos desvende a cara molhada. Mais: no cinema não há a possibilidade de escolher a posição da cadeira. Na primeira meia hora de uma viagem entrego-me à angústia de não saber se devo ficar com as costas verticais ou então carregar naquele botãozinho e reprimir as pernas do senhor de trás.
O homem sujo repara nos nossos sapatos lamacentos e começa a apontar com os dedos inchados para o tapete de entrada feito de papel de jornal. Tínhamos que ter passado os pés nas notícias antes de entrar na camionete. Perdoou-nos de forma indecisa por sermos estrangeiros.
As mulheres à minha volta usam lenços na cabeça, normalmente às flores, que denunciam por vezes o comprimento do cabelo. Imagino-me a arrancar-lhes o tecido e a cultura - não sei se é lata ou não - mostra-me esse preto do teu cabelo, será um pouco ondulado, aposto que é brilhante, se te mexeres ele mexe contigo, e a cor das tuas pernas, terás varizes internas ou externas, não faz mal nem uma coisa nem outra.
Esqueço-me das cores delas, das gengivas do outro, da chuva lá fora.
Abro "Memórias de Adriano" e recomeço a viagem paralela.

sexta-feira, novembro 07, 2008

OgonçalO

O Gonçalo corre pelos corredores da Ordem da Trindade sozinho, como se quisesse provocar o silêncio e a doença. Ninguém o proíbe. Vestido de cores outonais, traz ao peito um papel com o seu nome que me faz lembrar o cheiro de um lápis aguçado. O Gonçalo tem um redemoinho na poupa do cabelo que lhe poupa algumas questões existenciais acerca do seu futuro físico - toda a gente sabe que este tipo de redemoinhos capilares são resistentes ao tempo, por isso, ele próprio se vai aperceber que afinal há sempre alguma coerência naquilo que o define.
Mas o miúdo não é assim tão heróico para estar sozinho, de uma das celas hospitalares sai a avó com o cabelo que lhe resta pintado de um vermelho quase eléctrico. A avó não traz nome ao peito nem tem cintura. É recta da cabeça vermelha aos sapatos ortopédicos, assim, meia enchouriçada.
A avó olha para nós e imagina um sorriso conveniente que nunca lhe chega a sair.
Chama:
- Gonçalo.
E o Gonçalo continua a fugir, desta vez vai pelas escadas, já está quase no 2º andar.
E eu, de cá de cima e através do vão, vejo a poupa a fugir também, movimentando-se quase livremente dentro daquilo que o próprio cabelo pensou ser o seu momento áureo de indepêndencia face aos genes. Pergunto:
- Gonçalo, tiveste um irmão foi?
- Não.
( ele já quase no primeiro andar)
- Então, é uma maninha?
- Não. Foi a minha mãe que veio aqui encolher as maminhas.

domingo, novembro 02, 2008

segunda-feira, outubro 27, 2008

insónia

Every word is like a knife
But the silence cuts you twice

quinta-feira, outubro 23, 2008

nada é meu senão uma ideia ou outra e mesmo assim

As coisas fogem-nos, assim, tão le n ta m e nte.
No sábado assaltaram o polo, tadinho dele com aqueles olhinhos expressivos que brilham de noite quando lhes carrego no botão. Talvez tenha deixado as portas abertas porque no dia seguinte não havia sinais de arrombo ou vidros partidos, o que torna o assalto de muito maior relevância porque passam a ser duas partes que têm culpa. Roubaram um maço de cigarros quase vazio e um soutien preto do continente (ainda com etiqueta) que a mãe me tinha oferecido no dia anterior.
Dois dias depois, o carro a ser rebocado. Vejo-o de pernas para o ar e vou a correr para a carrinha azul com 2 polícias lá dentro. Aqueles dois abutres fizeram-me lembrar aquelas estátuas de areia que participam em concursos veranis e aparentemente conseguem resgatar os turistas errantes do absoluto tédio do apartotel.
Peço-lhes para não levarem o carro. Não levam. Peço para não pagar os 70 €, mas isso já não podem, para além do mais já está tudo passado para o papel,
- Não vê? O papel.
Eis senão quando as lágrimas em cascata pela cara abaixo e continuo a chorar compulsivamente, não, compulsivamente não, foiapenascontinuamenteassimeaspalavrasmolhadasoxalá
molhassemtambémoshomenseasestátuassedesfizessem.
No dia seguinte a este desabafo universal com o mundo mediado por duas bestas, chove no Porto. Saio do carro, pego na pasta cheia de fotocópias/apontamentos/possibilidades e sem reparar como,

as folhas todas pelo ar a voar em fila indiana
como se obedecessem a uma ordem divina
depois a chuva a trazê-las à terra novamente
estão agora algumas coladas à estrada
outras continuam na fila para voar
não vou atrás delas
isto de as coisas nos fugirem
espero que os deuses entendam a minha letra

quinta-feira, outubro 16, 2008

in the mood

tripar

Nunca chegamos ao essencial. Diz-se:
O que interessa é o que está por dentro. Mas o dentro é mistério e escuridão.
O dentro é o que não conseguimos ver e por isso temos a lata de dizer que é bom ou mau porque ninguém pode provar o contrário.
O dentro são estas entranhas de que somos feitos, estes intestinos impertinentes, o fígado cansado, o coração em maratona. A minha outra avó está muito doente e eu não consigo ver nada. Tudo escuro, as doenças desenvolvem-se nesse sítio de dentro onde não se consegue ver. O que dirá o pâncreas do esófago? Nada. Convivem animadamente na escuridão absoluta, os cúmplices malditos.
O que importa é o que está por dentro. Não é nada.
Para além disto, a verdade é que temos nojo de tudo o que sai de nós, caca, sangue, catotas. Pois, porque já não nos serve. Não há injustiça senão em nós, que temos nojo das coisas.
O medo também não é flor que se cheire (sempre responsabilizei o medo por todos os males do mundo), mas pelo menos é mais animal. Agora o nojo, o nojo é uma construção humana complexa. Implica essa noção que somos uns seres assépticos que não somos, provoca-nos a mais diversas doenças, rouba-nos a imunidade mental e física.
Não sejamos enojados. Ontem, a Graça trouxe-me rojões e eu comi tripa enfarinhada pela primeira vez. Deixei um bocadinho no prato e fiquei desiludida comigo mesma.
(tripa não é nojo, é bom, mas é demasiado impositiva para um jantar tardio)

quinta-feira, outubro 09, 2008

macaco (2)

macaco

Como toda a gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas. Li quase tudo quanto os nossos historiadores, os nossos poetas e mesmo os nossos narradores escreveram, apesar de estes últimos serem considerados frívolos, e devo-lhes talvez mais informações do que as que recebi das situações bastante variadas da minha própria vida. A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.

in "Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar



(este livro é tão nobre de espírito, tomara toda a gente nascesse de palavras assim, fiquemo-nos pelas estátuas então)

quinta-feira, outubro 02, 2008

momentos descontínuos

A Júlia pediu-me que lhe pintasse dois quadros para a sua casa nova.
Pinta-me dois quadrinhos?
Pinto, mas não sei quando.
Está bem, vou então comprar as telas ao chineses e já volto. Tenho um sofá cor de chocolate.
Comoveu-me o recurso à metáfora, mas desde quando é que ela deixou de dizer castanho?
Talvez tenha sido nesse dia que o Patrick deixou a pasta de amendoim no hostel. É estranho lidar com sítios de passagem. Por fora escreveu o seu nome a verde, mesmo antes de me oferecer um agulha de tricot para eu conseguir ler melhor os ficheiros de computador.
Sempre que me sento naquele terraço.
Sempre que me sento naquele terraço a fumar um cigarro, contrariada por fumar um cigarro e contente por ceder à contradição, eu sou o Porto. Eu sou isto e eu amo esta cidade tal como ela me ama a mim. As gaivotas histéricas, constantes, os dias em que sinto irritantemente feminina. Aquele sino da Sé, um golo de cerveja para olear a estrutura enquanto defino o que ainda tenho para fazer no tempo que me resta para acabar o turno. Entende-me, eu estou aqui neste terraço. Ainda há um lampião do lado de baixo da travessa que acende e apaga. Acende e apaga, sempre foi assim, tenho medo que se apague de vez e acabe o jogo. O jogo consiste em arranjar uma justificação para tal desordem. Olha, vai por ali uma pessoa a passar, se calhar vai acender nesse momento, mas também depende do tipo de pessoa. Ideias carregadas de cepticismo, a luz que acende e apaga. Nunca acreditei em soluções brilhantes.
No terraço ouvem-se os diospiros do jardim abaixo a cairem. Imagino-os doces e rasgados na relva, à espera que algum de nós os apanhe, mas que forma mais altruísta de se matarem.

quarta-feira, outubro 01, 2008

tudo deve ser contado pelo menos uma vez

Tudo o que nos acontece, tudo o que falamos ou nos é narrado, tudo quanto vemos com os nossos próprios olhos ou sai da nossa língua ou entra pelos nossos ouvidos, tudo aquilo a que assistimos (e por que, portanto, somos de certo modo responsáveis), há-de ter um destinatário fora de nós, e esse destinatário vai sendo seleccionado por nós em função do que acontece ou nos dizem ou então dizemos nós. Cada coisa deverá ser contada a alguém - nem sempre a mesma pessoa, não necessariamente -, e cada coisa vai-se colocando de parte como quem folheia e aparta e vai destinando prendas futuras numa tarde de compras.

Tudo deve ser contado pelo menos uma vez, ainda que, como havia determinado Rylands com a sua autoridade literária, deva ser contado segundo os tempos. Ou, o que vem a dar no mesmo, no momento justo e às vezes nunca mais se não se soube reconhecer ou se deixou passar deliberadamente esse momento preciso. Esse momento apresenta-se às vezes (a maioria das vezes) de maneira imediata, inequívoca e compulsiva, mas muitas outras vezes apresenta-se apenas confusamente e ao fim de lustros ou décadas, como acontece com os grandes segredos. Mas nenhum segredo pode ou deve ser guardado para sempre do conhecimento de toda a gente, é forçoso que encontre pelo menos um destinatário uma vez na vida, uma vez na vida desse segredo.
É por isso que algumas pessoas reaparecem.
É por isso que nos condenamos sempre por aquilo que dizemos. Ou por aquilo que nos dizem.

Javier Marías, in "Todas as Almas"

quinta-feira, setembro 25, 2008

pensar ou não pensar

Entro no Sr. Júlio e não o vejo. Está o filho, que é parecido com ele, a servir vinhos e petiscos. Está ali ao fundo um cliente magrinho e fininho que por aqui passa muitas vezes. Costuma beber vinho verde de fato e gravata. O fato fica-lhe largo, como se celebrasse com o alcóol os tempos de jovem quando os tecidos ainda se colavam ao corpo musculado. O bigode é farfalhudo, quase de polícia, e também não lhe cabe. Uma cara triangular, todas as linhas a acabarem num queixo pontiagudo e decidido.
Peço uma cerveja.
Talvez me apeteça presunto mas não peço.
De repente aparece o Sr. Júlio à minha frente. Diz boa tarde menina, pega numa faca e começa a cortar o presunto.
- Mas eu não pedi presunto.
- Mas eu sei que a menina quer. Além do mais não me esqueço de retribuir favores.
- Dei-lhe as batatas sem esperar nada em troca.
- Há uma coisa que se chama consideração.

Calei-me, à espera de ouvir. E continuou a falar. Sobre os anos 50, sobre comunismo, sobre escrita.

- Menina, dê continuidade à sua carreira intelectual.

Sr. Júlio, creio que já o possa ter desiludido. Para além do mais, começou o Outono e passo os dias a sentir as palavras a secarem quando pego no computador. Vou para o atelier e só encontro o passado. Ontem lavei muito bem a casa de banho, desfiz-me da tinta seca que andava a entupir o lavatório. Inscrevi-me num mestrado para aprender uma teoria da qual eu não estou minimamente convicta. Percebo as teorias tão bem, mas não as consigo ver acontecer. Tudo o que estudo parece-me tão distante do presente.
Hoje estou de facto preocupada se a sopa de alface vai ficar cremosa e se a vitela não endurece. Estive a arrumar a cozinha e deitei uma data de legumes fúnebres que me fizeram sentir viva.

terça-feira, setembro 16, 2008

35

Sou o número 35. Há uma folha de rascunho à porta da secretaria onde se tem que escrever o nome e o número de chegada. Havia uma Vânia que era o número 34, como depois só havia branco escrevi 35 tracinho Maria. Depois é-se atendida sabe-se lá quando. Pelo menos na segurança social dizem-nos a hora prevista. Aqui temos uma cambada de gente com cara de impaciente ( se a palavra bicha aterroriza qualquer um, a própria coisa em si desmotiva o mais zen dos monges) e cabelos oleosos. Não sei se é de ser tão escuro neste corredor, mas algo se pasa com o cabelo deste pessoal. Parecem ter todos os pés secos como eu. A vida é mesmo um monólogo.
Bom, voltando à questão das filas. Hoje de manhã também fui ao banco. No banco tive que tirar um papelzinho que dizia "001" e por isso fiquei contente. Apesar do deserto da sala, o homem do banco carregou no botão que fez com que aparecesse o número 001 numa televisão. Dirigi-me ao balcão respectivo e eis senão quando começou mal o dia. Como já referi várias vezes neste blog, não consigo suportar gente que está ao balcão que nos trata como bebés insolentes. Não se lhe podia fazer uma pergunta que aquele ser de fato e gravata por fora porque por dentro era um trapo humano, ficava aborrecido chegando a explusar-me discretamente daquela agência.
- "Na outra de S.Lázaro é que se calhar resolve melhor isso".

Depois cheguei aqui e vejo este papel. Penso:
- Se hoje não fosse o último dia para fazer esta merda.

Vou ter que esperar, não é tão mau assim. Não sei porque nós, humanos, não conseguimos muito bem esperar. Até nem tenho nada de extrema importância para fazer esta manhã. Até pode ser adiado o que teria para fazer. Mas bom, não me apetece estar na bicha. Deixei lá o meu nome com um número na folha de rascunho (que pode ser aldrabada e modificada sem que ninguém dê por isso) e vim comigo para a sala dos computadores.
Não sei o que terei deixado lá.
Um possível lugar marcado.
Um número e uma assinatura.
Os pés secos reflectidos nos pés dos outros.
A vontade de receber um jacto de água que nos invada os corpos, se entranhe nos cabelos, o sebo bem lavadinho, os papéis das propinas desfeitos, a folha de rascunho sem números ou nomes - uma mancha de tinta uniforme, desejos borratados de sermos atendidos anotados por uma BIC.

quinta-feira, setembro 11, 2008

ei-los gios

Recebi um souvenir de Benidorm, enterneceu-me aquele golfinho de plástico. É um golfinho transparente e lá dentro cabem coisas como conchas, água, mini flores plastificadas. Agrada-me especialmente por ser multifuncional. A cauda do golfinho serve como abre cápsulas e o lombo tem um iman para se quisermos decorar o frigorífico. Algures no corpo transparente plastificado do bicho diz "BENIDORM".

- Toma Maria, trouxe isto para ti de Benidor.
(e enquanto admirava encantada a ausência do "m")
- Obrigado, estás maluca, escusavas de ter trazido, não queria que gastasses dinheiro comigo.

Logo a seguir pensei na frase estúpida que tinha dito.
Não percebo porque é que costumamos recusar prendas, não me parece uma atitude propriamente educada ou sensata. É como quando nos dão elogios, ficamos assim:

- Oh, obrigada, não sou nada, até que há gente muito melhor.

Se nos criticam:

- O quê? Olha mas é para ti.

Mas pior que tudo isto é não saber explicar como se gosta de uma prenda que nos deram. Eu sei que sou absurda porque sofro este dilema. A racionalidade é um leão domesticado. Se não fizer cara de espanto ela ainda vai pensar que vou deitar o golfinho fora, ai o que é que vou dizer para ela perceber que gostei, que valeu mesmo a pena ter gasto o que gastou, mas que porra de pensamento calculista este que eu tenho.
Talvez não suportemos a ideia de existência, não duvido que sejamos demasiado pequenos para isso.

(que seca, estou cada vez mais moralista embora não suporte moralistas - fico a tremer de um olho quando vejo aquela vice presidente do Mccain, orgulhosa mulher e mãe, não sei quê Pallin, caçadora de renas ao fim de semana, anti quase tudo que defendo e não defendo assim tanta coisa, pro tudo que considero desumano e insensato)

quarta-feira, setembro 03, 2008

romance suspenso

Passamos a vida à procura de coisas.
Não é uma grande conclusão, esta. Mas julgo ser verdade. A verdade nunca pode ser repetitiva porque é verdade e repete-se sempre de maneiras diferentes. A mentira é como os prédios, crescem onde quisermos, da forma que mais convenha ao senhorio e aos condóminos. E por ser de natureza calculista - a mentira sujeita-se a passar a ser uma coisa monótona com muito menos interesse. Afinal não sei, de repente parece que tudo o que disse até agora (pouco ou nada) deixou de fazer sentido.
Voltemos às pessoas que existem. Nunca poderia ser escritora.
Ela chegou aqui de calças brancas justas, isso, brancas e justas, e nem sequer se notavam as cuecas ou a mínima nódoa. Camisa preta acho eu que era preta, lembro-me apenas do decote e dos botões. Reparei também na traseira dos sapatos que me pareceram asas em vez de solas. Eram moles e silenciosos, não que as asas sejam assim.
- Venho ter com uns amigos.
E os amigos lá estavam, afinal era só um. Ela quis enganar-me com o plural, a marota. Não sei se queria mentir.
A parte mais picante fica para depois. Posso adiantar que não vi nada senão uma manta cor de laranja que tapava duas pessoas.
Por agora sinto-me apenas cansada de mapas, museus em ponto minúsculo, ruas que não estão lá, restaurantes que só sei onde estão se estiver a ir para lá com pés e não com as mãos. As bic nunca encaixaram bem no meu dedo, não sei porquê.
Passamos a vida à procura de sítios que não existem. Quando passam a ser verdade, há que nos entreter com a próxima mentira.
Isto não é um cliché, parece-me demasiado verdadeiro.

sexta-feira, agosto 29, 2008

a sudden gust of wind

água

Cheguei a casa. A minha mãe.
A minha mãe estava de branco e comia um pão de cereais com azeite.
No balcão da cozinha um chá de rosas. Eram botões de rosa cor de rosa botoezinhos assim pequeninos que depois ficam mais bonitos e abertos com a água a ferver. A casa estava a uma temperatura perfeita. A casa tinha sido pintada há dois dias e nem cheirava a tinta como eu gosto. Seco, branco e luz. Espaço e rosas pequeninas que bebemos as duas. Lembrei-me da palavra purgatório. A minha mãe usa camisas de noite brancas que parecem sempre passadas e cheiram ao chá. Depois a minha mãe perguntou-me se eu queria ir almoçar a um vegetariano chamado terra. No terra comemos tofu e arroz integral. Ela pediu um sumo de banana, iogurte e canela e disse várias vezes e todas as vezes como se fosse a primeira:
- Este sumo que está óptimo.
Acho que a sua intenção era que eu pedisse um sumo igualmente de banana, iogurte e canela, mas a mim não me apetecia e por isso não pedi. Pedi uma água das pedras que vinha fresca como eu gosto e não comi sobremesa porque não me apetecia. O telemóvel tocou uma vez e eu não atendi. Viemos as duas a pé pelo mar até a casa, onde eu adormeci por opção.
Escrevi este texto para quem não gostou do sangue do texto anterior. Há sempre alguém que não gosta.

segunda-feira, agosto 25, 2008

a massa

Ela disse:
- O quê, o meu bacalhau com natas não é bom? Tu nunca provaste o meu bacalhau com natas.
A irmã respondeu que já tinha provado e não tinha achado assim nada de especial, naquela quinta feira em que todos comemos juntos. Eu não estava nesse dia. Afinal o bacalhau tinha natas a mais, acabou por confessar a primeira, mas eu sei fazer esse prato que é uma maravilha.
Ela quase que podia ser alta e já foi loira um dia. Não sei desde quando é que quer continuar a ter uma cor na cabeça que já não tem. Não sei onde estava eu nessa quinta feira onde a cor do cabelo talvez se pudesse confundir com a cor do prato e está a apetecer-me vomitar lascas de pensamentos salgados sem qualquer grau de parentesco.
Talvez tenha sido no dia do bacalhau em que conheci a outra senhora de azul que gostava de falar de sangue. Um homem dali morreu e o sangue a sair-lhe pelas orelhas, pelo nariz e tudo. Falava em sangue e bebia leite. Ao lado, cassetes com cantores de penteados duvidosos e olhares penetrantes assistiam frios e impunes à conversa avinagrada. É a vida, olhe, tão novo. E o cantor em silêncio. Só ela falava, a senhora de azul. Eu, que estava com um vestido preto às flores brancas, senti-me possível toalha onde possivelmente se pudesse colocar um prato com peixinhos fritos do rio e recordar entre duas espinhas, possíveis feitos históricos do homem recentemente vivo.
Só não gostei quando vi o saquinho branco do sangue do frango no balcão da cozinha onde se fez o bacalhau com natas. Era arroz de cabidela para o almoço e sinto que este texto está mal cozido e ainda não se lhe tiraram as entranhas ao pito. Na mesma cozinha onde na quinta feira se fez o bacalhau com natas que eu não pude provar, estava um saquinho de sangue fresco para juntar ao arroz. O saquinho parecia daqueles antigos com leite do dia mas tinha sangue em vez de leite, ainda que ambos sejam símbolos de vida e fertilidade. Reparei que o sangue estava cheio de conservantes. Afinal não custa nada comer aquilo, não está tão vivo assim. Isto de matar o bicho e manter o sangue fresco com meia dúzia de números e E´s é de um cinismo atroz.
O que diria a senhora de azul quando visse isto, talvez:
- O meu arroz de cabidela é melhor que o teu, nunca provaste um assim.
Os cantores das cassetes fechados em armaduras de metal, mortos desde sempre naquele mostrador que roda e nós vamos vendo as caras deles ou eles as nossas.
Que fome, dizem, há tanto tempo que não via uma toalha tão bonita.

sexta-feira, agosto 01, 2008

pequenez

Como isto foi acontecer não sei bem. Não quero saber.
Entro no Sr. Júlio com um saco de batatas na mão para lhe oferecer. Vinha pesada, não sei se das coisas na mão ou na cabeça.
Passo o balcão e entro para a cozinha como se fosse minha, há espaços que se tornam nossos porque os já imaginámos antes. Deixo cair o saco e está lá ele, de avental branco e olhar satírico.

- Oh menina, então diga lá como é que se foi lembrar do Big Júlio.

Aquele "big" antes do nome soou-me estranho, mas ignorei-o. Aliás, pensei que se estava a referir às batatas, tipo - oh menina diga lá o que lhe deu para se lembrar de mim enquanto podia oferecer batatas mas é à sua família. Mas não. É então que tira um pedaço de papel que estava em cima do frigorífico. As mãos, que parecem de ferro, acentuam a leveza daquele pedacinho branco com letras impressas.
Leio, leio-me, e encontro-me na cozinha a ler o que escrevi sobre ele e tudo o que aquela tasca significa para mim. Já não sei o que é real - se o que escrevi, se o que estou a ver.
Fico envergonhada. Ele diz-me que aquilo foi lá parar através de outro cliente.
Peço uns petiscos em busca da verdade.
É então que diz:

- A menina não tema pelo seu futuro. A menina escreve muito bem e sabe articular a imaginação. Não tema, ouviu?

O Sr. Júlio leu o meu blog.
Em papel, claro.

domingo, julho 27, 2008

rotas

Adorava saber o que se passa cá dentro quando me sinto cansada.
E porquê, porque raio é que nos sentimos cansados. Quem é que me programou de forma a que se dormir 6 em vez de 8 horas eu vou ter que ficar assim, rota, toda rota como se costuma dizer. Rota quer dizer com buracos, e pelos buracos deixamos entrar (ou sair) coisas que não queremos (ou queremos). Estou toda rota, e mais uma vez é a escrita que me faz perceber as coisas, organiza-me o que sinto, é a mulher a dias do meu pensamento.
(lembrei-me agora que rota pode ser caminho e vou tentar aproveitar-me disso para me sentir melhor, mas só quando acabar este texto)
Entretenho-me a pensar na palavra em vez de sentir o cansaço. A minha avó não diz rota como eu digo, ela só a usa para quando há tecidos com buracos e pede à Lé para cosê-los.
- Celeste, esta camisa está rota.
A Lé é a costureira, cose coisas, mas eu não sei coser como ela, ao menos se conseguisse medir e cortar o que sinto. Estou cansada mais 10 cm do que o normal, peguemos na tesoura e deixemos cair na alcatifa fios, linhas e pedaços de coisas que não nos servem. Ela mexe com tecidos e eu olho para a minha pele, parece-me meia baça de não ter dormido, penso:
- Lé podias engomar-me a cara, passavas-me a boca e os olhos a ferro, o nariz não está tão mal assim. Passa a minha pele com esse ferro dos antigos que não é de plástico como os que se encontram na worten, uma modernice que não serve para nada dirias.
Já que és professional e tens uma singer, cose-me depois os buracos que me fazem sentir rota, que eu fico com a parte da limpeza. Deixa que eu pego na vassoura, junto as palavras todas num cantinho, empurro-as para o apanhador e deito-as aqui.
Obrigado.

quinta-feira, julho 17, 2008

restos

Quando fiz anos a minha irmã ofereceu-me um frasco de espargos verdes marca continente .
Adoro espargos verdes. Quando era nem criança nem adolescente ia com a minha avó ao carrefour e ficava a olhar para a prateleira das conservas para poder comparar os preços entre os espargos brancos e verdes, gordos ou magros, de lata ou vidro.

- Avó, hoje posso levar espargos?
- Não se pode vir com vocês às compras.

As idas ao carrefour tinham carro, cheiro e horas próprias. Íamos com uma amiga não muito velha da minha avó chamada Laidú. Sim, Lai Du. Uma mistura de chinês com crioulo. Ela própria tinha um cabelo bastante étnico, qualquer coisa entre um penteado afro e uma banalíssima "mise" ocidental. Poucas vezes lhe vi aquele cabelo - usava daqueles lenços plastificados para a cabeça como se estivesse sempre a chover. O carro era com estofos fofos, quentes, cinzentos, uma delícia para as viagens até Gaia que me pareciam longas.
Após uma hora e tal, a Laidú regressava sempre com dois ou três sacos meios frouxos, nunca percebi bem o que andava para ali a fazer durante tanto tempo.
Hoje abri o frasco dos anos no hostel, mesmo antes de almoçar.
Os aperitivos sempre me souberam melhor do que qualquer outra coisa.
Pensei que talvez houvesse uma maionese perdida de alguém que já foi embora.
Estavam lá várias, tipo hipermercado.
Escolhi a Calvé, a minha favorita, para misturar com os espargos.
Imaginei a Laidu à porta do Carrefour à minha espera, o canadiano que deixou aquilo ali, a minha irmã a tirar a prenda da carteira, a minha avó a dizer sim podes levar, e conclui mais uma vez que ver o todo em vez das partes é sempre muito mais interessante.
Esta coisa da vida é complexa e por isso difícil de se ver. Tal como uma uma teia de aranha. Convém sempre vasculhar o que resta nos cantos dos frigoríficos.

dedão

Como é que hei-de explicar, o dedo grande do pé dela, o dedo grande do pé dela não parecia dela. Sempre me surpreenderam os dedos grandes dos pés das pessoas, costumam ter personalidades fortes e têm ar de chefes. Bom, estávamos num casamento e as mulheres sempre tão sacrificadas para estarem bonitas, sempre tão bonitas, por vezes vezes enjoativas, mas vá lá, voltando ao dedo do pé da outra. Eu estava sentada numa poltrona de cor bordeaux à espera de fazer xixi, e olhava para o chão deliciada com os veios da madeira. Eis que se ouviu o som dos tacões de mulher no taco da madeira, tacões no taco, é assim mesmo e sem querer acabei de fazer uma espécie de música. Continuo a olhar para o chão e aparece um pé dentro de uma sandália de tacões fininhos, daqueles agulha. A sandália tinha duas tiras também elas fininhas e uma apertava o dedo grande do pé da senhora e este levanta-se ligeiramente da sola como se quisesse fazer uma pergunta. A tira apertava este dedo e este dedo não tem mais nada, começa a inchar e a falar comigo ou com a minha bexiga. Porque é que eu estou aqui, esta merda dói caralho e porque é que sou só eu que estou asfixiado, mais nenhum dedo deste pé nem do outro sofre como eu sofro. A certa altura aquele dedo ria-se de dor e gemia, tentando encontrar um espaço digno e livre. A certa altura pensei nas partes do meu corpo que não conheço muito bem, nuca, costas, rabo, o que dirão eles de mim. A certa altura, aquele dedo parecia não pertencer a corpo algum, e apesar de estar sob a ameaça da tira - vivia orgulhosamente o seu cargo de chefia e impunha-se aos seus quatro súbditos, quer dizer, ainda que haja uma porra de gente com o segundo dedo do pé mais comprido do que o primeiro, o primeiro é sempre o primeiro e concluo com isto que as mãos são mais democráticas que os pés.

terça-feira, julho 08, 2008

ou vir e sem tir

O carro estava em condições. Quando chegou a minha vez tive que sair de dentro da viatura enquanto um jovem se punha a acelarar a fundo no meu pedal. Aproximei-me de outro homem com ar de ter qualquer função e resolvi fazer conversa. Então diga lá o que é analisa nesse ecran, e que tal está o pólinho, e que números são esses senhor, que números são esses que eu não os conheço e me são tão indiferentes que acaba por se tornar absurdo este diálogo. Mas explique-me hoje aquilo tudo aquilo que eu não sei, ainda que amanhã já tudo possa ter esquecido, quem sabe fica qualquer coisinha.
Foi então que este homem falou-me com imenso orgulho e desmesurada paciência de azotos, carbos e óxidos. Tinha voz de professor e olhos de pai.
Depois perguntou-me se eu andava sempre na cidade, e eu disse que sim pensando em curvas/campos/vinhas, e ele disse que eu devia puxar mais pelo motor e eu respondi "está bem" enquanto sentia nas mãos e nos pés a explosão do dito cujo da última vez que resolvi puxar por ele.
Há sempre uma inevitável carga de mentira quando tentamos evitar discordar de um pai ou professor.
Não costumo mentir, acho.

sexta-feira, julho 04, 2008

inspecção

Sim, e agora a quem agradeço, sempre foi essa a minha dúvida, a quem é que devo agradecer por andar por aí sempre mais ou menos contente. Eu aqui na fila da inspecção do carro, e a saber que ontem à noite é que devia ter escrito este texto, era ontem sra.preguiça, afinal eu é que tinha razão. Ontem é que me sentia assim, tão divinamente grata a alguém (divinamente no sentido lato do termo que não sei se existe), tão pessoal e intransmissível. Sim, sempre gostei de ver estes termos nos cartões e afins, dá-lhes um carácter humano que estes não têm.
Hoje estou numa fila e muitos homens de fora dos carros a acenderem cigarros enquanto esperam pela sua vez, eu própria acendo um cigarro antes de abrir o computador para escrever isto onde me quero assumir humana, irrepetível e por sorte até feliz.
Pode ser que apanhe o senhor do ano passado, aquele que mora ao pé da minha casa e por isso resolveu falar sobre as palmeiras e o rio enquanto testavam os pneus ao polo. Talvez este ano o carro não esteja com os pneus em condições, e o senhor já nem trabalhe aqui ou então já não more na minha rua o que vai limitar definitivamente os possíveis temas da conversa.
Dizem que posso avançar, mais um bocadinho à frente menina, está bom aqui. Sinto-me a atingir uma meta. Se pensar um bocadinho mais sei que não atingi absolutamente nada. Tenho que fechar o computador.

terça-feira, julho 01, 2008

jeo

Tocaram dois seres à porta. Estava a trabalhar a tentar explicar o que era a torre dos clérigos a uma coreana que se ria com tudo o que eu dizia. Acho piada quando se riem assim, apetece-me rir por cima deles até ver quem é que se ri mais, até a palavra se desfazer em som e dialogarmos apenas através de gargalhadas mais ou menos explicativas. Ri-te Win Chu que eu rio-me contigo.
Entretanto pois, já tinham tocado. E estão lá fora dois homens que não podiam ser hóspedes. Têm óculos de sol escuros a fugir para o "moderno", camisas azuis e passadas de manhãzinha pelas mulheres. Desconfio que eram feios mas não lhes cheguei a ver os olhos, como é que se pode falar de Deus de olhos tapados.
- Você acha que há solução para a morte?
- Não sei o que você entende por solução, mas agora estou a trabalhar.
- Olhe, gostávamos que ficasse com isto.

Fechei a porta e olhei para o folheto enquanto esperava por mais uma risada, mas ela não estava lá. Abri aquilo por respeito às palavras e não a homens, li um bocadinho da teoria dos jeovás, demasiadas imagens pensei eu, acabei por ler a frase " cuide sempre da sua saúde espiritual enquanto aprende línguas estrangeiras" e fechei o livro orgulhosamente.

segunda-feira, junho 30, 2008

curas

A célebre forma de medicina moral (a de Aríston de Chios), «a virtude é a saúde da alma», deveria ser pelo menos assim transformada para se tornar utilizável: «A tua virtude é a saúde da tua alma». Porque em nós não existe qualquer saúde, e todas as experiências que se fizeram para dar este nome a qualquer coisa malograram-se miseravelmente. Importa que se conheça o seu objectivo, o seu horizonte, as suas forças, os seus impulsos, os seus erros e sobretudo o ideal e os fantasmas da sua alma para determinar o que significa a saúde, mesmo para o seu corpo. Existem, portanto, inúmeras saúdes do corpo; e quanto mais se permitir ao indivíduo, a quem não podemos comparar-nos, que levante a cabeça, mais se desaprenderá o dogma da «igualdade dos homens», mais necessário será que os nossos médicos percam a noção de uma saúde normal, de uma dieta normal, de um curso normal da doença. Será só então que se poderá talvez reflectir na saúde e na doença da alma e colocar a virtude particular de cada um nesta saúde, que corre muito o risco de ser num o contrário do que sucede com outro. Restará a grande questão de saber se podemos dispensar a doença, mesmo para desenvolver a nossa virtude, se, nomeadamente, a nossa sede de conhecer, e de nos conhecermos a nós próprios, não tem necessidade da nossa alma doente tanto como da nossa alma saudável, em resumo, se querer exclusivamente a nossa saúde não será um preconceito, uma cobardia e talvez um resto de barbárie mais subtil e do espírito mais retrógado.

Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'

sábado, junho 28, 2008

tel à vivo

Outro dia sonhei a noite toda com Israel. Senti-lhe os cheiros, procurei as ruas, subi a apartamentos de amigos, assaltei as cores e os tamanhos das janelas. Falei com gente que não conhecia e tive pensamentos sobre eles. Falaram-me de política, deram-me opiniões.
Nunca fui a Israel. Acordei a pensar o quão viajados não seremos, se ao menos nos lembrássemos de tudo que já sonhámos, que pessoas tão cultas e interessantes seríamos.

quinta-feira, junho 19, 2008

cheia de graça

Descobri o Sr. Júlio do universo feminino.
Tem olhos de sapo como ele que parecem duas ameixas saltitantes com vontade de fugir do resto da cara como se não lhe pertencessem.
Há dias que são só de dúvidas disse o Sr.Júlio no último Inverno. E ela agora entre pataniscas e lava loiça pergunta-me com a mesma leveza com que fritou o bacalhau: " E a morte como será?"
Sabes Maria, é que os momentos mais importantes da nossa vida que é quando nascemos e quando morremos, nós nunca havemos de nos lembrar deles, nunca - disse. Eu acredito tanto em Deus, continuou, já vi o filme de Jesus mas sei lá bem o que é verdade no meio de tudo aquilo.
Eu olho-a por uns segundos e digo que por acaso também acredito em Deus e ela pede-me que eu coma mais salada.

quarta-feira, junho 18, 2008

veículo movido a energia desconhecida

Pronto, fartei-me da selecção e do Cristiano Ronaldo, sim, já estava com medo de me fartar e agora fartei-me realmente, estou completamente farta - já não os posso comer mais.
Por exemplo, acho uma chatice ligar a televisão e ver um bando de lutadores a empurrar um autocarro com a equipe lá dentro. Não sei se já viram a versão original (http://www.youtube.com/watch?v=DTx_J9qDF5s), mas ele há gente a cair na neve e a levantar-se assim muito rapidamente com a força de um verdadeiro campeão. Há seres estranhos a empurrar o autocarro. Velhos, novos, giros, engraçados, indiferentes, mas nenhum com cara de português. E lá dentro os jogadores engravatados de semblantes muito sérios - verdadeiros responsáveis pelo estado do país. Mas que é isto? E que coisa é aquela do Simão estar a ouvir Ipod enquanto que alguns burros de carga berram lá fora? Sempre fui super adepta da selecção e até andava a usar um pin com o galo de barcelos que saiu à Júlia na tv mais.
Mas não consigo conceber a ideia de que uma equipe de futebol nos possa fazer amar e respeitar mais o país - porque não faz. Só se o amor e o respeito forem coisas que eu não sei muito bem como são, mas isso até já desconfiava.

(gostei de ouvir o daniel oliveira no prós e contras)