Não, não era verdade o que eu escrevi acerca das baratas. Afinal detesto-as Sara, odeio-as, não as percebo nem as aceito.
Hoje, logo hoje e eu exageradamente sensível às 3 da manhã com vontade uma tosta mista. E as baratas a devorarem-me o desejo do queijo antes que eu pudesse satisfazê-lo, sim, as baratas, foram comer a minha vontade antes que eu comesse fosse o que fosse. Pequenas, grandes, médias, terríveis, e eu a pensar se eram elas que me estavam a invadir a cozinha ou se era eu, nós, que invadíamos o mundo com prédios, fornos, máquinas, medos. Deixei a luz da cozinha acesa e vim para a cama escrever este texto preto, barato, repelente, mas que pelo menos sei que acaba aqui, que acaba quando quero e a colónia de insectos para quando será.
(abro a janela, acendo um cigarro e pergunto-me se as baratas terão medo da luz como algumas pessoas têm do escuro)
sexta-feira, junho 06, 2008
segunda-feira, junho 02, 2008
passa e amassa
Voltar a certos sítios onde passamos muito tempo da nossa vida é quase sempre complexo. Pode ser agradável ou doloroso, mas é complicado das duas maneiras. Por exemplo, hoje quando regressei ao trabalho de atelier depois de uma curta temporada sem por as mãos nas canetas e nos pincéis, senti no dedo mindinho do pé o peso da ausência. Fez-me impressão a naturalidade com que as coisas se detrioram quando alguém não está por perto. Ou seja, o normal é tudo se estragar com o tempo e nunca o contrário. E andamos aqui a lutar contra não sei bem o quê. Não quero falar de invenções estranhas como a a tristeza que todos sentimos a obrigação de acreditar que com o tempo ela tende a passar e não a aumentar (o que também pode acontecer). Não, falo das coisas que vemos e que existem, daquelas que tocamos com as mãos todos os dias, da matéria apalpável, amorosa e desejável.
Hoje, ao ver metade dos pincéis duros e presos a tinta seca, papéis invadidos de pó, a lâmpada fundida da casa de banho - senti-me pouco dona de qualquer coisa, não sei muito bem o quê.
Hoje, ao ver metade dos pincéis duros e presos a tinta seca, papéis invadidos de pó, a lâmpada fundida da casa de banho - senti-me pouco dona de qualquer coisa, não sei muito bem o quê.
quinta-feira, maio 29, 2008
a palavra e a verdade

A incredulidade de são tomé, Caravaggio
(Hoje um taxista de gaia revelou-me que era mais perigoso trabalhar de dia do que de noite. Numa certa tarde, "aqui há atrasado", a senhora que levava até são joão da madeira fez-lhe um corte no pescoço. Conseguiu-se defender-se e "deu-lhe porrada dentro da viatura" - contou-me exaltado. Levou 24 pontos depois do despropositado ataque feito a x-acto. No tribunal não conseguiu defender-se porque "era a palavra dela contra a minha" e não havia qualquer testemunha. A senhora alegou que teve que reagir assim devido a um prévio assédio sexual do motorista, e ele apanhou uma pena de 9 meses de prisão de que se conseguiu livrar mediante o pagamento de uma caução. Trezentos e cinquenta escudos por dia, disse, era a minha palavra contra a dela.)
terça-feira, maio 27, 2008
domingo, maio 25, 2008
ser
A nossa vida pode mudar de um dia para o outro.
Ando quase segura que nos podemos habituar a tudo. Que conseguimos viver das formas mais inimagináveis ou insuportáveis. E que o sofrimento é como qualquer matéria orgânica que com o tempo tende a decompor-se. Não sei se penso isto ou se quero pensar assim. Mas eu bem vejo os velhos, como reagem às desgraças. Não sei se aquilo é sabedoria, insensibilidade ou puro comodismo. Suponho que um pouco de tudo.
(a minha avó reage tão naturalmente à morte das amigas e dos cunhados)
Ando quase segura que nos podemos habituar a tudo. Que conseguimos viver das formas mais inimagináveis ou insuportáveis. E que o sofrimento é como qualquer matéria orgânica que com o tempo tende a decompor-se. Não sei se penso isto ou se quero pensar assim. Mas eu bem vejo os velhos, como reagem às desgraças. Não sei se aquilo é sabedoria, insensibilidade ou puro comodismo. Suponho que um pouco de tudo.
(a minha avó reage tão naturalmente à morte das amigas e dos cunhados)
deep loma
Recebi o diploma pelo correio. Acabei o curso em 2005. Há um ano e tal fui obrigada a pagar cento e tal euros por aquela coisa já não sei porquê. Suponho que para provar a algum departamento de uma escolinha qualquer que andei a estudar 5 anos.
É um objecto repelente. O papel é feio (não encontro outro adjectivo mais rico que este) tentando imitar mármore, a letra gótica ligeiramente pixelizada. Depois há qualquer coisa como uma fita onde está pendurada qualquer coisa como uma medalha. Força, conseguiste acabar a maratona. Pelos vistos a medalha deve ser feita de um material mais ou menos bom já que tem um invólucro de plástico a protegê-la. É uma coisa pesada - fisica e esteticamente. Não sei que lhe faça. Se ofereça ao meu pai que generosamente me andou a pagar as propinas. Se limpe o rabo com o papel mármore de modo a que o estampado me pareça mais natural. Se compre uma moldura no ikea e o pendure aqui no hostel, muito orgulhosamente, ao lado desta secretária onde me encontro agora sentada.
É um objecto repelente. O papel é feio (não encontro outro adjectivo mais rico que este) tentando imitar mármore, a letra gótica ligeiramente pixelizada. Depois há qualquer coisa como uma fita onde está pendurada qualquer coisa como uma medalha. Força, conseguiste acabar a maratona. Pelos vistos a medalha deve ser feita de um material mais ou menos bom já que tem um invólucro de plástico a protegê-la. É uma coisa pesada - fisica e esteticamente. Não sei que lhe faça. Se ofereça ao meu pai que generosamente me andou a pagar as propinas. Se limpe o rabo com o papel mármore de modo a que o estampado me pareça mais natural. Se compre uma moldura no ikea e o pendure aqui no hostel, muito orgulhosamente, ao lado desta secretária onde me encontro agora sentada.
terça-feira, maio 13, 2008
profundezas

Às vezes, ao ler o que escrevo, fico pasmada com a quantidade de energia que dispendo ao descrever pessoas que me são desconhecidas.
Concluo que este blog é uma espécie de revista cor de rosa com pretensões formais despropositadas. Baseado - tal qual como a lux ou a nova gente - em suposições, injustiça e mentira. Eu sei lá bem os tesouros escondidos do bigode da gulbenkian. Se calhar, ele até sabe onde fica a reserva natural portuguesa Paul de Boquilobo e eu aqui tão triste por me aperceber no Quem quer ser Milionário que continuo uma ignorante com vontade de não o ser. Pior ainda.
segunda-feira, maio 12, 2008
securitas
De repente fico preocupada com as profissões dos outros. Olho para o segurança das catacumbas da gulbenkian e penso o que fará sozinho todo o dia sem luz. Entro, dá-me um cartão a dizer visitante, pergunta-me o nome, não sorri. Usa farda, sempre a mesma e todos os dias naquela secretária a controlar as entradas. Sempre me assustaram as fardas. O bigode é preto, denso, imóvel, parece um tronco chamuscado. O nome por favor. Quê, Maria quê?
Penso, o que é que você guarda para além do meu nome mal escrito? Uma série de cartões de molas estragadas que não se agarram aos casacos, todo o silêncio inscrito nessa farda passadinha e no bigode bem comportado, um sorriso que lhe ficou no esófago e talvez fosse a escuridão que não o deixasse sair.
Penso, o que é que você guarda para além do meu nome mal escrito? Uma série de cartões de molas estragadas que não se agarram aos casacos, todo o silêncio inscrito nessa farda passadinha e no bigode bem comportado, um sorriso que lhe ficou no esófago e talvez fosse a escuridão que não o deixasse sair.
sexta-feira, maio 09, 2008
quarta-feira, maio 07, 2008
hostel 2
Dão-nos 24 horas por nossa conta. Temos que trabalhar, abrir a porta, fazer check-in, hello I´m Maria, the bus stop is there, porto wine is great, maybe you can try piolho for a beer.
Mas nos entretantos fico sozinha e penso quem é este aqui a quem trato pelo nome, para quem sorri sem saber porquê, com quem vou beber a garrafa de vinho mais barata do mini preço com medo que me faça mal.
Os maiores ataques de solidão são sempre com gente ao lado.
Mas nos entretantos fico sozinha e penso quem é este aqui a quem trato pelo nome, para quem sorri sem saber porquê, com quem vou beber a garrafa de vinho mais barata do mini preço com medo que me faça mal.
Os maiores ataques de solidão são sempre com gente ao lado.
domingo, maio 04, 2008
olhos tão rápidos mesmo de vidro
Viagem do Algarve para o Porto. Nutro desprezo por qualquer companhia de camionagem desde que um condutor da Renex ofereceu deliberadamente a minha mala a um arrumador que por ali passava na hora do embarque.
- "Sr.Motorista, aquela mala verde é minha.
- Então tome lá." Foi assim. Desde então não confio em nada nem ninguém que tenha a ver com a palavra camionagem.
Esta não era da Renex, Eva de seu nome. Nome bastante mais sugestivo, no mínimo.
O meu companheiro de cela é um senhor de 70 anos, preto, bengala, óculos de massa anos 70, sacos plástico, olho de vidro, fecho das calças aberto. Encontro no banco uma revista chamada Happy Woman. Na primeira página uma crónica da directora onde revela aos leitores que gosta do cheiro da terra molhada e das festinhas do marido. Folheio rapidamente todos os sapatos e cremes até chegar à secção onde se fala de sexo que é sem dúvida a mais divertida. Interessante como estas editoras e jornalistas analisam as relações. Como se bastasse ser atrevida e usar meias de liga para mantermos o nosso cônjuge de posto olho em nós. Enquanto admirava mulheres de lingerie em poses ridiculas, o olho de vidro começou a ganhar vida.
- "Sr.Motorista, aquela mala verde é minha.
- Então tome lá." Foi assim. Desde então não confio em nada nem ninguém que tenha a ver com a palavra camionagem.
Esta não era da Renex, Eva de seu nome. Nome bastante mais sugestivo, no mínimo.
O meu companheiro de cela é um senhor de 70 anos, preto, bengala, óculos de massa anos 70, sacos plástico, olho de vidro, fecho das calças aberto. Encontro no banco uma revista chamada Happy Woman. Na primeira página uma crónica da directora onde revela aos leitores que gosta do cheiro da terra molhada e das festinhas do marido. Folheio rapidamente todos os sapatos e cremes até chegar à secção onde se fala de sexo que é sem dúvida a mais divertida. Interessante como estas editoras e jornalistas analisam as relações. Como se bastasse ser atrevida e usar meias de liga para mantermos o nosso cônjuge de posto olho em nós. Enquanto admirava mulheres de lingerie em poses ridiculas, o olho de vidro começou a ganhar vida.
segunda-feira, abril 28, 2008
hoje não tenho idade
A minha avó faz hoje 87 anos. Quando cheguei a casa para almoçar estava sentada no sofá, no lugar que é só dela. Agarrei-a, disse "parabéns avó", e quis que aquele abraço durasse para sempre, que eu me tornasse rugas e ela cabelos castanhos, quis perceber porque é que todo o seu corpo está mais próximo da terra que o meu, as costas a fazerem um ângulo recto com as pernas, os olhos na alcatifa rasgada.
Costuma dizer com um ar cómico que é velha e que "quem de novo não vai, de velho não escapa". Mas hoje, olhar para ela no sítio de sempre e de camisola arranjada por causa das visitas, fez-me perceber algo muito parecido com a eternidade.
E que isto de morrer pode ser para todos, mas gostar de alguém desta maneira é muito mais complexo e se um dia eu for avó vai ser ela a amar os meus netos.
Costuma dizer com um ar cómico que é velha e que "quem de novo não vai, de velho não escapa". Mas hoje, olhar para ela no sítio de sempre e de camisola arranjada por causa das visitas, fez-me perceber algo muito parecido com a eternidade.
E que isto de morrer pode ser para todos, mas gostar de alguém desta maneira é muito mais complexo e se um dia eu for avó vai ser ela a amar os meus netos.
quinta-feira, abril 24, 2008
a gaja que estava ao balcão
Uma repartição de finanças improvisada no primeiro andar de um prédio escuro. Três mulheres atrás de secretárias beges anos 80. De repente começo a imaginar a Roménia, país onde nunca estive. Três mulheres atrás de secretárias beges. Não, afinal não são mulheres, são seres assexuados. Pela posição, fazem lembrar três cactos dispostos em linha recta.
À primeira, dou-lhe a alcunha de castelo de areia. Parece compacta na forma mas frágil no conteúdo. Assim, de camisola bege, cara bege, sentada atrás da secretária bege. Areia, muita areia, e de tanta areia e tão seca - o castelo acaba por se desfazer e eu não consigo pensar mais sobre ela.
A segunda tem cabelos muito encaracolados e exibe orgulhosamente anéis grandes de plástico. É a menos monocromática. Olho para o meu ticket e desejo que o número 93 me leve até aquele monte de esperança.
A terceira é a pior de todas. Não é velha nem poética como a primeira, e a léguas de ser tão afirmativa como a segunda. É um pedaço de ranheta de anteontem. Usa base densa e foleira que lhe tinge os pelos do buço da cor do produto. Parecem maiores assim pintados.
É a que me calha na rifa.
Não me adiantou grande coisa, o cacto ranhento que deve comer chocolates antes de ir para a cama, não se lhe podia fazer perguntas que ficava logo afectada por atender alguém contabilisticamente inculto e desinteressante. Informou-me com um ar muito sério que pertenço à categoria B e que por isso devo pedir o impresso B na altura de declarar o IRS.
Cala-te, e faz-me mas é uma canja com letrinhas cozidas que eu ponho-te a contar os B´s que há no meu prato.
À primeira, dou-lhe a alcunha de castelo de areia. Parece compacta na forma mas frágil no conteúdo. Assim, de camisola bege, cara bege, sentada atrás da secretária bege. Areia, muita areia, e de tanta areia e tão seca - o castelo acaba por se desfazer e eu não consigo pensar mais sobre ela.
A segunda tem cabelos muito encaracolados e exibe orgulhosamente anéis grandes de plástico. É a menos monocromática. Olho para o meu ticket e desejo que o número 93 me leve até aquele monte de esperança.
A terceira é a pior de todas. Não é velha nem poética como a primeira, e a léguas de ser tão afirmativa como a segunda. É um pedaço de ranheta de anteontem. Usa base densa e foleira que lhe tinge os pelos do buço da cor do produto. Parecem maiores assim pintados.
É a que me calha na rifa.
Não me adiantou grande coisa, o cacto ranhento que deve comer chocolates antes de ir para a cama, não se lhe podia fazer perguntas que ficava logo afectada por atender alguém contabilisticamente inculto e desinteressante. Informou-me com um ar muito sério que pertenço à categoria B e que por isso devo pedir o impresso B na altura de declarar o IRS.
Cala-te, e faz-me mas é uma canja com letrinhas cozidas que eu ponho-te a contar os B´s que há no meu prato.
quarta-feira, abril 23, 2008
a seguir por favor
Hoje vou às finanças tornar-me legal. Dizer-lhes que existo e que ganho de vez em quando. Comprar aquela coisa dos recibos verdes que toda a gente detesta.
Incomoda-me saber que vou passar a fazer parte deste jogo do gato e rato. Assusta-me a ideia de começar a debitar discursos amargos sobre os impostos, anda a gente a trabalhar toda a vida e os políticos com ordenados vitalícios, o estado é ladrão, leva metade do meu ordenado e se ao menos atendessem a minha avó no pedro hispano.
Esta situação de quem está a verdes parece-me desprezível. Não nos consideram reais trabalhadores. O nome prestação de serviços faz-me lembrar assim ao de leve a palavra prostitução.
Mas hoje, apesar de toda a revolta que vislumbro no futuro, de quem eu tenho mais medo hoje, sim - é da gaja que vai estar ao balcão.
Incomoda-me saber que vou passar a fazer parte deste jogo do gato e rato. Assusta-me a ideia de começar a debitar discursos amargos sobre os impostos, anda a gente a trabalhar toda a vida e os políticos com ordenados vitalícios, o estado é ladrão, leva metade do meu ordenado e se ao menos atendessem a minha avó no pedro hispano.
Esta situação de quem está a verdes parece-me desprezível. Não nos consideram reais trabalhadores. O nome prestação de serviços faz-me lembrar assim ao de leve a palavra prostitução.
Mas hoje, apesar de toda a revolta que vislumbro no futuro, de quem eu tenho mais medo hoje, sim - é da gaja que vai estar ao balcão.
segunda-feira, abril 21, 2008
milhões de tão pouco
Se ganhasse várias vezes o euro milhões, daria toda a minha massa a ladrões, corruptos e novos ricos para que não tivessem que pensar mais em dinheiro.
Depois, o que sobrasse, distribuiria por gente honesta e amiga para que pudessem ter o bobi num jardim cuidado e observar a evolução dos grelos apenas na época certa.
Depois, o que sobrasse, distribuiria por gente honesta e amiga para que pudessem ter o bobi num jardim cuidado e observar a evolução dos grelos apenas na época certa.
quarta-feira, abril 16, 2008
bife ana
7 da tarde, hora da bifana.
Gosto de jantar ao fim da tarde.
- Sr. Júlio, qual é a sua palavra favorita?
- Olhe que nunca tinha pensado nisso menina. Deixe-me cá pensar. Acho que deve ser mais que uma. Já sei.
Acção. Apto. Preguiça. Seguir.
Dito isto houve uma conversa tão intensa que temo não a conseguir reproduzir. Das palavras fomos parar à guerra dos sexos e descobri que o sr.Júlio é um machista feroz. Não me incomodou nem um bocadinho. Ainda assim, apliquei-me afincadamente na discussão sabendo à partida que o homem não iria mudar de ideias. Defendia a primazia masculina com extrema convicção e via-se que já tinha pensado em todos os argumentos. Gerações e gerações de mulheres na cozinha e hoje em dia os grandes chefs são homens. Distraem-se muito facilmente, vão abaixo com qualquer coisa. Andam nisto o tempo inteiro, em baixo e em cima, mal dispostas, bem dispostas. Pior é quando querem ser as maiores do mundo, e se põe acima de tudo e todos com os seus delírios femininos. Menina, as mulheres nunca foram inteligentes, são seres burocráticos - disse.
Gosto de jantar ao fim da tarde.
- Sr. Júlio, qual é a sua palavra favorita?
- Olhe que nunca tinha pensado nisso menina. Deixe-me cá pensar. Acho que deve ser mais que uma. Já sei.
Acção. Apto. Preguiça. Seguir.
Dito isto houve uma conversa tão intensa que temo não a conseguir reproduzir. Das palavras fomos parar à guerra dos sexos e descobri que o sr.Júlio é um machista feroz. Não me incomodou nem um bocadinho. Ainda assim, apliquei-me afincadamente na discussão sabendo à partida que o homem não iria mudar de ideias. Defendia a primazia masculina com extrema convicção e via-se que já tinha pensado em todos os argumentos. Gerações e gerações de mulheres na cozinha e hoje em dia os grandes chefs são homens. Distraem-se muito facilmente, vão abaixo com qualquer coisa. Andam nisto o tempo inteiro, em baixo e em cima, mal dispostas, bem dispostas. Pior é quando querem ser as maiores do mundo, e se põe acima de tudo e todos com os seus delírios femininos. Menina, as mulheres nunca foram inteligentes, são seres burocráticos - disse.
hostel em volume
A australiana estava mortinha por falar com alguém. Viaja sozinha há meses. Fala alto, peço-lhe para falar mais baixo, ela fala mais baixo e desculpa-se dizendo que é australiana. Fala com dois mexicanos daqueles que olham para as mulheres assim muito de força e parece-me que Rachel gosta disso. Rachel tem um piercing nos lábios que não lhe permite fechar completamente a boca. Um dos mexicanos usa carapuço dentro de casa, o outro não tira o lenço do pescoço. Não parecem deslumbrados com nada. Rachel quer comprar vinho e eu tento vender-lhe porta da ravessa que é o único que ali tenho. Diz que quer mais barato e volta com um regional das terras do sado produto mini preço. One euro and forty five, ooohh that´s amazing, it´s so cheap Maria. Bebem a garrafa até ao fim, sem opinião. Rachel tem agora, à volta do piercing, os lábios quase castanhos, tingidos pelo sado.
Aparece uma americana a pedir uma pizza. São onze da noite. Fica deslumbrada com o facto de no Porto também haver home delivery. Essa não fala tão alto como Rachel, mas tem uma voz muito pior porque mais esganiçada. Tipo cadela que queria crescer e não conseguiu. Fala fala fala. Não sei para quem fala. Não me parece que queira ser ouvida sequer. Apenas ladrar.
As cinco italianas são tão mulheres e tão latinas que me chegam a incomodar. É a segunda vez que me vem pedir um secador de cabelo, não percebem como é que o hostel não providencia um secador de cabelo. Sentam-se nos puffs, sacam das suas mantas e escolhem um filme daqueles em que há um mau que ataca toda a gente. Bebem água e coca colas que não pagam na hora, é a filosofia do deixa ficar na conta. Tipo mercearia. Monopolizam a sala. O som está tão alto, ouço sirenes na recepção. Não lhes interessa falar com mais ninguém, têm-se umas às outras.
Aparece uma americana a pedir uma pizza. São onze da noite. Fica deslumbrada com o facto de no Porto também haver home delivery. Essa não fala tão alto como Rachel, mas tem uma voz muito pior porque mais esganiçada. Tipo cadela que queria crescer e não conseguiu. Fala fala fala. Não sei para quem fala. Não me parece que queira ser ouvida sequer. Apenas ladrar.
As cinco italianas são tão mulheres e tão latinas que me chegam a incomodar. É a segunda vez que me vem pedir um secador de cabelo, não percebem como é que o hostel não providencia um secador de cabelo. Sentam-se nos puffs, sacam das suas mantas e escolhem um filme daqueles em que há um mau que ataca toda a gente. Bebem água e coca colas que não pagam na hora, é a filosofia do deixa ficar na conta. Tipo mercearia. Monopolizam a sala. O som está tão alto, ouço sirenes na recepção. Não lhes interessa falar com mais ninguém, têm-se umas às outras.
segunda-feira, abril 14, 2008
corações 2
A Alberta enviou uma mensagem à minha mãe:
"Bem haja pela companhia/cineminha/jantarinho. Gostei imenso da sua filhota. Um abraço muito grande."
Gosto deste affair entre a língua portuguesa e os inhos.Só ainda não percebi se revela um enorme carinho pelas coisas ou medo em assumi-las.
Sim, porque é só uma cervejinha de vez em quando. Depois um cigarrinho, quem sabe, já que não faz mal a ninguém. Amanhã se estiver calor vou usar aquele topzinho muito decotado. Depois talvez vá dar um beijinho à Alberta, seguido de um abracinho bem sincero e dizer-lhe de mansinho que esta vidinha é tão misteriosa que a devemos amar e respeitar, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza para que não nos passe assim muito ao lado.
(sábado fui a um casamento)
"Bem haja pela companhia/cineminha/jantarinho. Gostei imenso da sua filhota. Um abraço muito grande."
Gosto deste affair entre a língua portuguesa e os inhos.Só ainda não percebi se revela um enorme carinho pelas coisas ou medo em assumi-las.
Sim, porque é só uma cervejinha de vez em quando. Depois um cigarrinho, quem sabe, já que não faz mal a ninguém. Amanhã se estiver calor vou usar aquele topzinho muito decotado. Depois talvez vá dar um beijinho à Alberta, seguido de um abracinho bem sincero e dizer-lhe de mansinho que esta vidinha é tão misteriosa que a devemos amar e respeitar, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza para que não nos passe assim muito ao lado.
(sábado fui a um casamento)
quinta-feira, abril 10, 2008
do tipo camarinha
Gostava de saber porque é que aparecem olheiras quando não dormimos.
"Ihhh, estás cá com umas olheiras. Estás de directa ou quê?"
As olheiras denunciam as nossas horas de sono o que pode ser chato se o colega de trabalho entender que hoje não vamos render tanto. Dormir é pessoal.
Duas covas cinzentas logo num sítio tão central e por uma questão de tempo, já vi coisas mais razoáveis.
E se agora ficássemos com uma mancha vermelha na ponta do nariz de cada vez que fizéssemos muito pouco cocó.
"Ih, estás cá com um vermelhão, vê-se mesmo que não cagaste".
"Ihhh, estás cá com umas olheiras. Estás de directa ou quê?"
As olheiras denunciam as nossas horas de sono o que pode ser chato se o colega de trabalho entender que hoje não vamos render tanto. Dormir é pessoal.
Duas covas cinzentas logo num sítio tão central e por uma questão de tempo, já vi coisas mais razoáveis.
E se agora ficássemos com uma mancha vermelha na ponta do nariz de cada vez que fizéssemos muito pouco cocó.
"Ih, estás cá com um vermelhão, vê-se mesmo que não cagaste".
quarta-feira, abril 09, 2008
de caras
" Os problemas são nossos, a cara é dos outros"
(dizia a minha avó paterna invadindo de pincel a cara da minha tia com pó de arroz; a minha tia tem trinta e tal anos, 4 filhos, estava cansada nesse dia e ia a casa da milucha jantar)
(dizia a minha avó paterna invadindo de pincel a cara da minha tia com pó de arroz; a minha tia tem trinta e tal anos, 4 filhos, estava cansada nesse dia e ia a casa da milucha jantar)
terça-feira, abril 08, 2008
corações, de alain resnais
A Alberta é triste, loira, olhos longes e azuis. É alta, quase gorda. Mãos bonitas. Já foi hospedeira de bordo e nessa altura roubava talheres e toalhas dos hotéis. Diz que que era muito bem disposta, cheia de namorados. Está desempregada. Vivia com uma cadela chamada "Ararat" que morreu há umas semanas. Desde então, a Alberta não consegue entrar em casa. Pediu a amigas e paróquias que a albergassem durante o luto. Ontem fui com ela e com a minha mãe ao cinema ver "Coeurs". À saída disse que o filme lhe veio mostrar que afinal não está sozinha no mundo. Fomos a uma pizzaria e ela quis saber se a sopa era caseirinha. Perguntou à minha mãe (comigo à frente) se eu era uma pessoa que olhava para dentro. Antes que a minha mãe respondesse, perguntei-lhe o que era olhar para dentro e ela continuou mais ou menos a ignorar-me.
Deixamo-la em casa, a primeira noite sem Ararat. Agradeceu o serão, pediu que rezássemos por ela. Dei-lhe um beijo e disse "beijos alberta" enquanto a beijava. Sei que não sei rezar. Fiz o caminho todo de regresso até casa com medo da solidão.
Deixamo-la em casa, a primeira noite sem Ararat. Agradeceu o serão, pediu que rezássemos por ela. Dei-lhe um beijo e disse "beijos alberta" enquanto a beijava. Sei que não sei rezar. Fiz o caminho todo de regresso até casa com medo da solidão.
segunda-feira, abril 07, 2008
roma
O título chamar as coisas pelos nomes foi rejeitado. A galerista disse que não lhe soava bem a frase e perguntou-me "e que tal em inglês"? Eu estava precisamente a falar inglês na altura em que me ligou, primeiro dia como recepcionista num hostel, uma confusão de línguas, nomes, imagens, papéis - e respondi a tudo que sim. Sou poupada nos nãos que uso e tenho pena disso. Por momentos achei provinciano esse recurso à lingua inglesa. Como se a verdade não soasse bem só por ser dita na nossa língua. Então vá, bota-se a coisa noutro idioma que já não fica tão mal porque pouco passamos a sentir e tudo se torna mais fácil.
Deram-me português e é com ele que quero ser, embora possa estar com outras línguas. Em inglês nem sequer sabia como fazer esta distinção entre ser e estar, como se o " to be" me fosse servir para os dois.
Português não é piroso. Quero dizer "amo-te" em vez de "I love you", porque dentro de mim sinto amor, sim, amor, só amor, um amor imenso e love muito pouco.
Deram-me português e é com ele que quero ser, embora possa estar com outras línguas. Em inglês nem sequer sabia como fazer esta distinção entre ser e estar, como se o " to be" me fosse servir para os dois.
Português não é piroso. Quero dizer "amo-te" em vez de "I love you", porque dentro de mim sinto amor, sim, amor, só amor, um amor imenso e love muito pouco.
quinta-feira, abril 03, 2008
depurar
Já gostei de dar títulos aos quadros ou a uma exposição. Hoje em dia é um tormento. Como se reduzem todas as angústias, vontades, erros, dias, horas, minutos, segundos numa palavra? Não há palavra que mereça tanta coisa. Maior parte delas são ingratas e redutoras. Às vezes acho que devia haver um nome diferente para cada pessoa no mundo. Não seria assim tão complicado e acabavam-se os rótulos que cada família acarreta. Isto de dar nomes às coisas. Mas confesso que por vezes também não me custa assim tanto, especialmente quando se trata de adjectivar pessoas que não conheço. Por exemplo, a gaja da ervanária é feia e tem cara de enjoada. É também enjoativa, porque me enjoo só de olhar para ela. Tem cara de peixe estragado, os olhos demasiado cá fora e a boca a querer chegar aos pés. Pinta-se imenso e sempre da mesma maneira. Não gosto de mulheres excessivamente maquilhadas ao balcão de ervanárias, retira-lhes a credibilidade. Não consigo confiar nela nem pedir-he ajuda. É daquelas que diz "prontos" uns a seguir aos outros. Era gorda mas já não é. Espero que não tenha feito a dieta à base da depuralina, não vá ela amanhã apresentar-se ao trabalho para além de feia, doente do fígado.
terça-feira, abril 01, 2008
i don´t lamb messenger
A minha irmã de 14 anos é viciada no messenger. Passo o jantar a ouvir o tlim das janelas virtuais. A carne assada hoje soube-me a pixel. Raul acabou de entrar. Xalu acabou de entrar. Ana acabou de entrar. Agora é a vez do Toni e do Johnnie Johnnie. "I lamb iu" diz um deles. Isso vem de lamber ou de amor? Venho ao computador e a festarola ainda a processar. Toda esta tertúlia fragmentada a entrar nos meus ouvidos, olhos, pensamento. Continuam a "mensajar" que me adoram, que estão à espera que eu responda, que têm saudades minhas. O nick de um é : "sobervivi ao encino portugez", um gajo com piada esse. Invadem-me com fotografias da escola primária como se fosse há muito que por lá passaram. Sempre estranhei este interesse massivo da adolescência por fotografias quando todos éramos bébés cagões. Olha que querida que eu era. Agora dou beijos com cuspe e tenho pêlos púbicos mas já me habituei a eles. Os das axilas é que são uma chatice.
sms
Hoje, enquanto pintava um pássaro que queria que se assemelhasse a um cão, entra-me pelo atelier adentro (gosto de palavreado oral) uma gaivota. Bate as asas freneticamente, dá duas voltas e sai. Estava furiosa, nem tive tempo de lhe sacar o tamanho ou o olhar.
Há quem deteste gaivotas, eu não. Já ouvi relatos assustadores de pessoas que estão de relações cortadas com a espécie. Por exemplo, a Catarina deixou de gostar de gaivotas quando uma lhe bateu à janela do quarto de hóspedes a meio da noite. O vidro, o bico, o tic tic no vidro, deixem-me entrar, mas o que é isto, será um ladrão, tic tic e um medo do diabos. A Catarina vive sozinha e por isso não gosta de acordar à noite com sons que não conhece. Naquela noite teve imensa coragem, levantou-se, foi até à próxima divisão e assim percebeu que tipo de assaltante se tratava.
A minha não teve que fazer barulho. A janela estava aberta. Acreditei por momentos que sabia que eu estava prá'li a brincar às metamorfoses, que aquilo no papel já tinha deixado de ser um pelicano para se transformar num cocker domesticável. Pare lá de ser subversiva e tenha respeito por nós que a gente ainda tem muito orgulho de sermos os únicos a conseguir voar.
Há quem deteste gaivotas, eu não. Já ouvi relatos assustadores de pessoas que estão de relações cortadas com a espécie. Por exemplo, a Catarina deixou de gostar de gaivotas quando uma lhe bateu à janela do quarto de hóspedes a meio da noite. O vidro, o bico, o tic tic no vidro, deixem-me entrar, mas o que é isto, será um ladrão, tic tic e um medo do diabos. A Catarina vive sozinha e por isso não gosta de acordar à noite com sons que não conhece. Naquela noite teve imensa coragem, levantou-se, foi até à próxima divisão e assim percebeu que tipo de assaltante se tratava.
A minha não teve que fazer barulho. A janela estava aberta. Acreditei por momentos que sabia que eu estava prá'li a brincar às metamorfoses, que aquilo no papel já tinha deixado de ser um pelicano para se transformar num cocker domesticável. Pare lá de ser subversiva e tenha respeito por nós que a gente ainda tem muito orgulho de sermos os únicos a conseguir voar.
segunda-feira, março 31, 2008
lembro-te muito seriamente e ainda cheiras a naftalina
Ela recebia-nos todos os verões na sua casa com cheiro a naftalina. No primeiro de Agosto, depois de pousarmos as malas, entregava-nos as chaves de um velho armário com boiões de vidro que nos permitia o assalto massivo a diversos tipos de biscoitos. As mãos tão cheias de vontade, tão desprendidas de prazos,
calorias,
tretas da meia idade
(as crianças e os velhos não têm medo de salmonelas nem iogurtes fora do prazo).
Ao almoço bebia dignamente um - nunca mais que um - copo de vinho tinto que misturava com açucar. Trazia ao pescoço sempre o mesmo fio que carregava um segredo e por isso não o posso contar. O marido vivia só em fotografias e nunca tiveram filhos. Jurava a pés juntos que tinha um vizinho da frente chamado Pássaro Amarelo que limpava as escadas ao sábado e tinha mau feitio. Obrigava-nos a dar beijos num urso bem vestido com olhos feitos de botões verdes. Depois dos beijos, pousava o urso no parapeito da janela e eu acreditava que este, depois de beijado e arejado, nos reivindicasse uma espécie de protecção divina. Ainda acredito. Quando ela morreu deixou-me (para além das bolachas sem prazo de validade e da atracção pelo vinho) o mamífero, o fio de segredo pendurado e outras jóias que usava mas que eu não consigo tirar da caixa. Sinto-me tão feia com coisas valiosas no pescoço e nos braços.
calorias,
tretas da meia idade
(as crianças e os velhos não têm medo de salmonelas nem iogurtes fora do prazo).
Ao almoço bebia dignamente um - nunca mais que um - copo de vinho tinto que misturava com açucar. Trazia ao pescoço sempre o mesmo fio que carregava um segredo e por isso não o posso contar. O marido vivia só em fotografias e nunca tiveram filhos. Jurava a pés juntos que tinha um vizinho da frente chamado Pássaro Amarelo que limpava as escadas ao sábado e tinha mau feitio. Obrigava-nos a dar beijos num urso bem vestido com olhos feitos de botões verdes. Depois dos beijos, pousava o urso no parapeito da janela e eu acreditava que este, depois de beijado e arejado, nos reivindicasse uma espécie de protecção divina. Ainda acredito. Quando ela morreu deixou-me (para além das bolachas sem prazo de validade e da atracção pelo vinho) o mamífero, o fio de segredo pendurado e outras jóias que usava mas que eu não consigo tirar da caixa. Sinto-me tão feia com coisas valiosas no pescoço e nos braços.
sexta-feira, março 28, 2008
assunto sério
Incomoda-me gente demasiado séria. Não entendo porque é que se tem que ser sério. Parece-me uma atitude ingrata. Se me disserem que o homem da tabacaria é um homem sério eu até percebo, quer dizer que não rouba os clientes nem olha para as maminhas das garotas. Mas não é destes sérios que eu estou a falar, que afinal de contas não passam de pessoas honestas e muito bem. Falo daqueles que vêem todo e qualquer assunto como uma coisa que tem que ser levada a sério. Não te rias que isto é mesmo a sério, isto a vida não está para brincadeiras, anda mas é meio mundo a enganar outro meio. Gente chata portanto. Fala-se do joanete da vizinha e imediatamente apresentam a cara número 3 que é a expressão tensa que costumam usar quando se trata de problemas de saúde. Depois, quando os músculos da cara começam a cansar fazem aquela coisa com a língua, sim, aquele exercício português de levar a ponta da língua ao céu da boca e largá-la violentamente até se ouvir um T agudo que quase sempre é seguido pela frase "é a vida", que é como quem diz não te tenho mais nada para dizer para além de já estar cansada da cara. Há ainda os insuportavelmente sérios a trabalhar, como os assistentes das operadoras telefónicas que têm sempre o prazer de estar a falar com quem quer que seja e insistem animadamente em saber outras questões em que possam ser úteis. Mais alguma questão em que possa ser útil? Tenho tantas, caro operador, mas temo que não me possa ajudar. Não leve a sério, não é nada pessoal. E vá lá, diga ao Belmiro que "toda a gente precisa de rir" e chame-me otária se for só de vez em quando.
terça-feira, março 25, 2008
vendo, logo existo
"Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria."
Jorge Luís Borges, in Ensaio: O Livro
(acredito que Borges ficaria no mínimo embasbacado se soubesse que Claúdio Ramos acaba de editar um livro intitulado "Geneticamente Fúteis" que está em destaque nas prateleiras na Fnac - às vezes, a liberdade de expressão assusta-me)
(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria."
Jorge Luís Borges, in Ensaio: O Livro
(acredito que Borges ficaria no mínimo embasbacado se soubesse que Claúdio Ramos acaba de editar um livro intitulado "Geneticamente Fúteis" que está em destaque nas prateleiras na Fnac - às vezes, a liberdade de expressão assusta-me)
segunda-feira, março 24, 2008
morrinha vem de morrer
Qual o sentido desta segunda-feira depois de um domingo de páscoa em que não sabemos quem tem que trabalhar ou não e porquê? Um dia assim, a cabeça ainda em compassos e amêndoas, princípios de primavera e o céu a cuspir morrinha. Morrinha, mas que merda é esta? Eu a descobrir no dicionário que morrinha é não só esta chuva estúpida que não se assume, como também pode ser significar "doença ligeira". Tudo a meio gás portanto. Meio. Chuva que não encharca, doença que não dói, trabalho que ainda não está definido, férias que não estão bem acabadas. Descobri que hoje não vou conseguir ultrapassar este estado desprezível de "morrinhenta". Mas pelo menos vou tentar ser coerente na coisa. Comerei meio pão com queijo, fumarei 10 cigarros e falarei apenas o essencial por preguiça de pensar em mais qualquer coisa. Deixarei unicamente sorrisos amarelados aos que me encontrarem na rua, meio litro de chá no bule, a máquina por fazer, a cama amarrotada e o banho por tomar. A seguir ao almoço, depois de alguns minutos a roçar suavemente as pernas num aquecedor a óleo, tentarei qualquer acção digna e nobre, mas não prometo grande coisa. Ressuscitar devia ser mais democrático.
quarta-feira, março 19, 2008
comer, beber, dormir e sonhar
Comi um bocado da massa. Os camarões estavam descascados e não feriram qualquer tipo de susceptibilidade. À tarde, enquanto pintava um canguru, apeteceu-me uma bifana do Sr. Júlio. Foi a Sra. Elisa, sua mulher, que a preparou e embrulhou amorosamente em papel vegetal. Regressei ao atelier e fiz um macaco a tinta da china que me começou a cheirar a cominhos da bifana. Abri à tesourada uma mini na tentativa de refrescar o desenho e as especiarias. Concluí que um abre cápsulas é fundamental em qualquer casa ou sítio de trabalho. Antes do jantar, a minha irmã preparou-me umas tostinhas com sardinhas oriundas das rias gallegas e quando cheguei a casa do me pai vi arroz de polvo na mesa. Sonhei com hipermercados, pareceu-me mau sinal. Preferia o mercado de peixe.
Devorei ao pequeno almoço - como de costume - três tangerinas biológicas que me tornam numa pessoa mais feliz e saudável. Almocei em casa da minha madrinha, que já não via há muito tempo, arroz de feijão com bifinhos de porco. A sopa de agriões estava óptima e sabia a antigo. No final ofereceu-me amêndoas coloridas e um ovo de chocolate. Estou com sede. Decidi fazer um chá japonês. Não percebo a gente que não admite que somos selvagens.
Devorei ao pequeno almoço - como de costume - três tangerinas biológicas que me tornam numa pessoa mais feliz e saudável. Almocei em casa da minha madrinha, que já não via há muito tempo, arroz de feijão com bifinhos de porco. A sopa de agriões estava óptima e sabia a antigo. No final ofereceu-me amêndoas coloridas e um ovo de chocolate. Estou com sede. Decidi fazer um chá japonês. Não percebo a gente que não admite que somos selvagens.
terça-feira, março 18, 2008
há sonhos que são bem chatos
Sonhei a noite toda que estava a comprar camarões. Um mercado de peixe estreito e comprido, o cheiro que não sei definir, o gelo sujo de onde os animais quase vivos submergem. Não havia mais nada a não ser camarões, nada de petinga, nada de solha, só camarões. Parei no primeiro balcão, não conseguia decidir o que levar. E se são frescos, e se são saborosos, e se são caros, e se os do balcão do lado são melhores que estes, e se tudo isto não passa de uma lúxuria, ai jesus e se eles não queriam ter morrido e eu para aqui a apreciar cadáveres. Este é o ponto de viragem. Adorava comer camarões até hoje, descascá-los bem descascadinhos, tirar-lhes as patinhas moles primeiro, depois o invólucro duro do corpo e sugar as cabecinhas com cuidado para não tocar nos bigodes que podem picar. Logo no primeiro balcão, comecei a imaginar aquele grupo de bichos enterrados no gelo como se fossem uma grande família. Quantas gerações de camarões irei eu indiferentemente dizimar no estômago? Hum, aquele ali dos bigodes compridos tem aspecto de pai, o outro pequenino do canto foi o filho que não teve tempo de crescer, e aquele mais mole e afrouxado talvez seja o avô. Os mais brilhantes seriam as fêmeas pois está claro, olha aquela que bonita que era, devia ser galada pelo outro machão dos bigodaços compridos.
Andei mais um bocado pelo corredor estreito e comprido. Não comprei nada. O mercado estava para fechar e os vendedores começavam a reunir as famílias em caixas grandes de esferovite daquelas que parecem sempre sujas.
Levantei-me, gelada. Perguntei à minha avó o que estava a pensar fazer para o almoço: “ Massa com camarão e bróculo”. Tentei estabelecer uma lógica para tal coincidência, mas rapidamente fui invadida por um sentido prático da vida.
E se a fome apertar vou comê-los sim senhora, não posso ser hipócrita, logo eles que me sabem tão bem, ai pai mãe avó filho desculpem, afinal vocês se calhar nem são uma família porra, e sabe-se lá se sofreram ou não, também hão-de comer os outros que estão ao vosso lado, para além de já ter ouvido que sois uns necrófagos do pior e vos alimentais de qualquer resíduo orgânico que se encontre no mar, ou seja, o que vocês apreciam mesmo é um cadaverzito como nós, seus malandrecos.
Andei mais um bocado pelo corredor estreito e comprido. Não comprei nada. O mercado estava para fechar e os vendedores começavam a reunir as famílias em caixas grandes de esferovite daquelas que parecem sempre sujas.
Levantei-me, gelada. Perguntei à minha avó o que estava a pensar fazer para o almoço: “ Massa com camarão e bróculo”. Tentei estabelecer uma lógica para tal coincidência, mas rapidamente fui invadida por um sentido prático da vida.
E se a fome apertar vou comê-los sim senhora, não posso ser hipócrita, logo eles que me sabem tão bem, ai pai mãe avó filho desculpem, afinal vocês se calhar nem são uma família porra, e sabe-se lá se sofreram ou não, também hão-de comer os outros que estão ao vosso lado, para além de já ter ouvido que sois uns necrófagos do pior e vos alimentais de qualquer resíduo orgânico que se encontre no mar, ou seja, o que vocês apreciam mesmo é um cadaverzito como nós, seus malandrecos.
s/ título
“Recordar-se não é o mesmo que lembrar-se; não são de maneira nenhuma idênticos. Podemos muito bem lembrarmo-nos de um evento, rememorá-lo com todos os pormenores, sem por isso dele ter a recordação. A memória não é mais do que uma condição transitória da recordação: ela permite ao vivido que se apresente para consagrar a recordação. Esta distinção torna-se manifesta ao exame das diversas idades da vida. O velho perde a memória, que geralmente é de todas as faculdades a primeira a desaparecer. No entanto, o velho tem algo de poeta; a imaginação popular vê no velho um profeta, animado pelo espírito divino. Mas a recordação é a sua melhor força, a consolação que os sustenta, porque lhe dá a visão distante, a visão de poeta. (…) Os óculos dos velhos são graduados para ver ao perto; mas o jovem que tem de usar óculos, usa-os para ver ao longe; porque lhe falta o poder da recordação, que tem por efeito afastar, distanciar."
Soren Kierkegaard
Soren Kierkegaard
quinta-feira, março 13, 2008
patinhos
Não sei se por cepticismo ou preguiça, nunca fui grande entendida a política. Uma vergonha. Mas parece-me que quase todos os políticos nacionais têm qualquer coisa de aborrecido. A começar pela desastrosa coincidência de maior parte serem feios ou desinteressantes fisicamente. Torna-se chato ver constantemente homens (não me apetece falar de mulheres muito menos deputadas) de gravata congelada e timbre de garoto estudioso. Sem querer parecer arrogante e muito menos maternal, quase todos os eles me provocam um sentido de protecção inconveniente. Apetece-me dar-lhes miminhos nas suas carinhas de shrek, abraça-los orgulhosamente por saberem fazer contas e adverti-los que é muito feio mentir.
Drama em imensos f(actos)
Dores de cabeça, pois, a insónia, os ladrões carinhosos, os cigarros mentolados noite fora. Almoço com pena de estar sem fome para as sardinhas fritas da afurada. Alto, vem aí gritaria, a Júlia foi à rua comprar a revista “Caras” e regressa sobressaltada: “O dono da padaria de Gondarém, o médico, matou os irmãos todos e depois matou-se a ele. Corre perigos de vida.” Pelos vistos depois de morrermos, ainda temos que nos sujeitar aos mesmos riscos de quem está vivo. Ele há coisas. Era médico, mas matou os irmãos todos por dinheiro, Santo Deus, onde já se viu. Já toda a gente sabe. Aparece a Lé na sala, larga o pedal da velha Singer e junta-se à tertúlia. “ Ah, se calhar esse médico era aquele homem que eu vi a morrer no Santo António.”
O telemóvel da Júlia toca ininterruptamente, a Liliana quer saber se aconteceu alguma coisa ao Zé, ainda parente de seu marido e que trabalha na dita padaria, não vá ele ter sido atingido com uma bala perdida ou com uma baguete ressequida. Ainda conseguem ser bem duras. A Lé abre bem a boca mostrando orgulhosamente os dois dentes da frente que lhe sobram e reclama a veracidade dos factos, vai mas é perguntar tudo à Zeza que ela é que sabe. A minha avó abre a “Caras”, pergunta se a menina do balcão também morreu e relembra as bolas de berlim que "eram tão boas".
O telemóvel da Júlia toca ininterruptamente, a Liliana quer saber se aconteceu alguma coisa ao Zé, ainda parente de seu marido e que trabalha na dita padaria, não vá ele ter sido atingido com uma bala perdida ou com uma baguete ressequida. Ainda conseguem ser bem duras. A Lé abre bem a boca mostrando orgulhosamente os dois dentes da frente que lhe sobram e reclama a veracidade dos factos, vai mas é perguntar tudo à Zeza que ela é que sabe. A minha avó abre a “Caras”, pergunta se a menina do balcão também morreu e relembra as bolas de berlim que "eram tão boas".
quarta-feira, março 12, 2008
roubem tudo menos os sonhos
Descobri há poucos minutos na wikipedia (costumo ter uma insónia por ano, foi hoje) que ao dormir, os sentidos perdem-se pela seguinte ordem: visão, paladar, olfacto, audição e tacto. Mas não pensem os mais espertinhos que ao despertar será respeitada a dita fila indiana ao revés. Será então assim que acordarei amanhã de remelas penduradas nos olhos (a palavra "remela" é badalhoca) e por ordem de chegada: tacto, audição, visão, paladar e olfacto. Dizem eles que o tacto desperta ao mais leve toque sobre a pele. É o vigia do corpo adormecido. Claro está. Mas que chatice. Imagino-me agora submersa na imensidão deste silêncio a assaltarem-me a casa e eu a acordar só com a festinha do gatuno:
-"Menina, dá para levar umas coisinhas de sua casa?"
-"Dá sim senhor, desde que me deixe dormir em paz."
-"Menina, dá para levar umas coisinhas de sua casa?"
-"Dá sim senhor, desde que me deixe dormir em paz."
segunda-feira, março 10, 2008
sr. arrepiado
Hoje o lenço de seda molhou-se e encolheu. Os buracos da traça deixaram a água entrar pelo pescoço do velho e ele deixou-se ficar assim, parado, cheio de frio, arriscando a via dos condutores que tentam seguir a sua vida pelos pés escorregadios de tal burguês feitos de calçada granítica e trilhos deslizantes.
sexta-feira, março 07, 2008
quinta-feira, março 06, 2008
dor al dente
Dói-me um dente. Sinto-me rídicula. O dente que me dói já nem é dente, é um pedaço de qualquer coisa pendurado à gengiva, por isso sinto-me ainda mais idiota. Um resto de qualquer coisa que já nem é nada continua a incomodar-me. Absurdo. Curiosamente, é nestas alturas que me encho orgulhosamente de uma leve noção de poder, acreditando que ao beber uns copos de vinho tinto transformarei a raíz do meu dente numa pequena alma insignificante, embriagada e tonta.
felinos apagados
Sim, ele diz-se casado mas não me parece por plena vontade e desejo. Não sei até que ponto tenho direito de achar isto, mas bamos, isto da internet é meio esquizo, a gente até diz umas coisas e não se sabe de quem, nem quem existe, nem quem não existe. Voltando. Ele, de voz fina, “femifina”, pois, feminina mas sem o conseguir ser com a naturalidade de uma mulher, diz-me sem eu lhe perguntar nada: “ Já faz 16 anos que eu comecei a namorar para a minha esposa”. Assim, naquela garagem semi-escura como as garagens costumam ser, e eu a tentar ler na penumbra o que traz estampado na t-shirt preta ainda mais escura. Já consegui, a vermelho, assim, e a explodir dos peitos, a frase: “ Wild at heart”. E enquanto penso no coração têxtil do Alberto, a Dona Amélia queixa-se que está a fazer fisioterapia à cervical porque que deu um “jeito”. Um jeito que não deu jeito portanto, todas as línguas têm os seus processos paradoxais. Reparo que pintou o pouco cabelo que lhe resta de um roxo difícil de aturar, e as unhas roídas de vermelho tipo sangue de ferida no jardim infantil. Ao fim de alguns anos de suspeitas, começa a agradar-me esta dependência quase física que as mulheres têm da cor - as bases que tornam as caras castanhas no inverno, os lápis que disfarçam as olheiras, os vernizes que cobrem a transparência das unhas, as tintas que escondem as brancas. Considero este recurso à maquilhagem um acto criativo, com o devido factor de falsidade que é intrínseco aos caminhos da imaginação. O Alberto continua escuro e imóvel de coração selvagem cosido ao peito. Dona Amélia, ensine-lhe umas coisas.
ballad of big júlio
“Há dias que são só de dúvidas” diz o Sr. Júlio enquanto me faz a sandes de salpicão. Começo a duvidar se não deveria dedicar inteiramente o meu blog à observação deste senhor, sábio de mãos e memória, que por me parecer ter duvidado mais do que eu ao longo de todos estes anos de vida, duvido que tenha chegado a conclusões tão vagas quanto as minhas presentes.
segunda-feira, março 03, 2008
am(p)or(to)
Se o Porto fosse alguém era um velho de cabelo cinzento e duro, com um certo charme e lenço de seda ao pescoço atacado pela traça. Simpático mas teimoso. Daquelas pessoas com manias muito peculiares que só fazem rir os que não têm que conviver com ele diariamente. Sim, teimoso, talvez chato, talvez seco, inflexivel, coração granítico, pernas cheias de varizes, e de vez em quando uma maquilhagem que tenta esconder as entranhas envelhecidas. Tinha um negócio que já deu muito mas já não dá. Olhos claros, água, muita água, às vezes sujos, os olhos tão sujos com tantos outros (talvez também sujos) a olhar para eles, a vivê-los e a amá-los porque se diz que um é feito de ouro e outro de sal. Que terrível paixão tenho por esse velho que não me larga, esse manhoso que me faz sempre voltar, esse queixoso que entrega toda a gente à lamúria, esse cínico que ainda não percebi se também gosta de mim, esse tio avô solteiro que me oferece chocolates imperial no natal.
pêlos pouco mediáticos
A minha esteticista enquanto me arrancava animadamente os pêlos da raiz, contou que a naomi campbell estava no brasil e teve que ser operada de urgência. Tadinha. Os jornalistas ainda não sabem a quê, mas parece ser qualquer problema da parte abdominal.
Falava dela com um ar tão sério e familiar, que por momentos desconfiei que a top model era sua cliente e já tinha estado deitada naquela marquesa onde sofro volta e meia. Até se referiu à fulana como "a naomi", seguramente considerando que dizer "campbell" seria uma redundância.
Sem querer subir na tabela das preferências pessoais da esteticista cristina, agradar-me-ia que perguntasse se me estava a fazer doi doi em vez de falar da parte abdominal da outra. Assustam-me estas amizades criadas no papel foleiro da nova gente, como se fosse a naomi e não eu que lhe confiasse as entranhas da minha epiderme.
Falava dela com um ar tão sério e familiar, que por momentos desconfiei que a top model era sua cliente e já tinha estado deitada naquela marquesa onde sofro volta e meia. Até se referiu à fulana como "a naomi", seguramente considerando que dizer "campbell" seria uma redundância.
Sem querer subir na tabela das preferências pessoais da esteticista cristina, agradar-me-ia que perguntasse se me estava a fazer doi doi em vez de falar da parte abdominal da outra. Assustam-me estas amizades criadas no papel foleiro da nova gente, como se fosse a naomi e não eu que lhe confiasse as entranhas da minha epiderme.
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
papás e mamãs
Se voltasse a ser criança, ficaria ofendidíssima se os meus pais ao tentarem mostrar-me o que é uma complexa rede linguística, me dissessem doi doi em vez de ferida, popó em vez de carro, miau miau em vez de gato, ou tau tau em vez de "dou-te já uma coça".
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
li verdade
"Os apetites são ou naturais e necessários, como o beber e comer; ou naturais e não necessários, como a intimidade com as mulheres; ou não são nem naturais, nem necessários: desta última espécie são quase todos os dos Homens; são todos supérfluos e artificiais, pois é admirável quão pouco é necessário à natureza para se contentar, quão pouco ela nos deixou para desejar."
Michel de Montaigne, in Ensaios
Michel de Montaigne, in Ensaios
terça-feira, fevereiro 26, 2008
é de gente
Hoje sonhei que fui invadida por pessoas. Logo eu, que gosto tanto delas. Era uma praga de gente, quanto mais seres humanos via mais eu desesperava. Que horror. Eles e elas a invadirem os meus espaços físicos, mentais, emocionais, assim, gente por todo o lado em mim, eu tão esbatida no meio desse excesso de almas, se calhar não eram almas, eu sem saber como lhes dar um pontapé, sim, um pontapé bem dado no rabinho de cada invasor, era o que eles mereciam.
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
é de mundo
A Júlia contou-me que o filho da ex-amante do marido morreu atropelado pelo metro. Apareceu lá em casa de recorte de jornal em punho e fui praticamente obrigada a ler a notícia de tal desgraça. Não se mostrou muito comovida pela morte do pequeno Edmundo, e mantinha uma cara séria que me pareceu previamente planeada. Pelos vistos mãe e filho viviam umas portas acima da dela. Perguntei-lhe se tinha ido ao funeral ao que ela respondeu imediatamente que não, mas a minha irmã foi e ninguém achou bem na família.
Pelos vistos a Júlia considera a mulher que lhe meteu as cornetas a verdadeira culpada de tal infidelidade. Pior. Ela própria se responsabiliza pelo delito sexual cometido por Nelo + Vizinha.
Eu trabalhaba noite e dia, chegaba a casa às tantas da madrugada, não lhe daba atençon, olhe, e ela ali a ligar-lhe, e ele, e ele, prontus, coitado do Nelo, olhe sabe como é que são os homens, assim sem a atençon da isposa, prontus, ela é que debia ter mantido a postura, a baca.
Gosto imenso do Nelo, conheço-o desde pequena e não me dizem respeito os seus devaneios nocturnos. Mas não consigo aceitar esta ordem de ideias e valores. Tentei mostrar-lhe, em vão, que todo o ser humano (homens solitários ou carentes incluídos) é livre para tomar certas opções. E que houve certamente um momento em que o Nelo pode decidir entre ficar em casa ou tocar numa das campainhas acima da sua.
Pelos vistos a Júlia considera a mulher que lhe meteu as cornetas a verdadeira culpada de tal infidelidade. Pior. Ela própria se responsabiliza pelo delito sexual cometido por Nelo + Vizinha.
Eu trabalhaba noite e dia, chegaba a casa às tantas da madrugada, não lhe daba atençon, olhe, e ela ali a ligar-lhe, e ele, e ele, prontus, coitado do Nelo, olhe sabe como é que são os homens, assim sem a atençon da isposa, prontus, ela é que debia ter mantido a postura, a baca.
Gosto imenso do Nelo, conheço-o desde pequena e não me dizem respeito os seus devaneios nocturnos. Mas não consigo aceitar esta ordem de ideias e valores. Tentei mostrar-lhe, em vão, que todo o ser humano (homens solitários ou carentes incluídos) é livre para tomar certas opções. E que houve certamente um momento em que o Nelo pode decidir entre ficar em casa ou tocar numa das campainhas acima da sua.
gravidezes
Reparei que o Sr. Júlio faz festinhas na própria barriga enquanto fala de expressões algébricas e metalurgia. Quando se cansa do movimento, cruza as maõs secas e pousa-as paternalmente nesse excesso avolumado de si mesmo, onde talvez começe uma nova vida, embrião alimentado a tripas e vinho verde.
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
hora do almoço
Há dias em que ficava eternamente a observar baratas ou pessoas sentada numa poltrona daquelas que nos sugam o cú.
Bebia um chá, e assistia serenamente à luta entre o peso na consciência por não estar a fazer nada versus a felicidade de poder exceder os limites da inércia.
Vou já sair de casa.
Bebia um chá, e assistia serenamente à luta entre o peso na consciência por não estar a fazer nada versus a felicidade de poder exceder os limites da inércia.
Vou já sair de casa.
terça-feira, fevereiro 19, 2008
não se deve matar só porque é barato.
Já sabia que havia baratas na cozinha da minha avó. Mas ainda não percebi se me incomodam ou não.
Há uns anos houve uma praga gigante e a gente teve toda que fugir lá de casa que nem medricas asseados. Coitadinha da minha avó, acho que não tem idade para pegar no "necessaire" por causa de uma colónia de insectos, mas teve que ser. Pelos vistos dizem que são porcalhonas. A mim não me metem grande nojo, nem sequer as tento matar a meio da noite quando me levanto cheio de sede e as vejo que nem domingueiras a passearem-se pelos balcões. Depois, mal acendo a luz, transformam-se em pequenas vanessas fernandes frenéticas. Curto observar a metamorfose.
Não sei que faça com elas, mas irrita-me serem "baratas". Acho o nome pejorativo. Como se fossem pouco caras, vulgares, a verdadeira pechincha que Deus criou, os saldos Outono-Inverno da Natureza.
Há uns anos houve uma praga gigante e a gente teve toda que fugir lá de casa que nem medricas asseados. Coitadinha da minha avó, acho que não tem idade para pegar no "necessaire" por causa de uma colónia de insectos, mas teve que ser. Pelos vistos dizem que são porcalhonas. A mim não me metem grande nojo, nem sequer as tento matar a meio da noite quando me levanto cheio de sede e as vejo que nem domingueiras a passearem-se pelos balcões. Depois, mal acendo a luz, transformam-se em pequenas vanessas fernandes frenéticas. Curto observar a metamorfose.
Não sei que faça com elas, mas irrita-me serem "baratas". Acho o nome pejorativo. Como se fossem pouco caras, vulgares, a verdadeira pechincha que Deus criou, os saldos Outono-Inverno da Natureza.
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
especialistas
"O que precisamos fazer é arranjar casamentos, ou melhor, trazer de volta ao seu estado original de casados os diversos departamentos do conhecimento e das emoções, que foram arbitrariamente separados e levados a viver em isolamento nas suas celas monásticas. Podemos parodiar a Bíblia e dizer: "Que o homem não separe o que a natureza juntou"; não permitamos que a arbitrária divisão académica em disciplinas rompa a teia densa da realidade, transformando-a em absurdo."
Aldous Huxley, in 'A Situação Humana'
Aldous Huxley, in 'A Situação Humana'
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
são quê?

Não sei se estou a ficar outra vez adolescente ou se nunca o deixei de ser, mas ultimamente o meu sentido de crítica tem aguçado consideravelmente. Achar toda a gente palerma, querer mudar o mundo e coisa e tal.
Não consigo perceber o dia dos namorados. Acho fraco. Cansa-me saber que existe um dia onde há gente a oferecer swatchs ao seu mais que tudo. Já para não falar de peluches, que eu considero um atentado à higiene mental e nasal de qualquer individuo que se preze. Quando era pequenina gostava de ursos, mas não eram tão peludos quanto os de agora.
Fui comer sushi com uns amigos, neste tal dia do valentino. Óbvio que o restaurante estava cheio de casais, uns mais entusiasmantes que outros.
Há muito que já não mando nos meus olhos e quando reparo, estou colada na mulher da mesa ao lado. Esta fulana de meia idade andava a espalhar más vibrações por todo o restaurante (era pequeno o que se torna perigoso). Tinha a bicanca afiada, o cabelo imóvel cortado pela orelha, e estava com um sobretudo cinzento que manteve enfiado durante todo o jantar.
Tinha os olhos muito juntos que emanavam do centro a palavra "frete", e na ponta descaíam ligeiramente, de cadelinha marota. Passou o jantar assim. E de cada vez que pegava nos pauzinhos, eu temia a saúde do marido.
No final, quando se levantaram para pagar ouvi o dono do restaurante a dizer: "Tome um cêgripe que isso passa".
Onde isto já chegou. Agora, mesmo com gripe, esta gente continua a achar giro celebrar um santo que não se lhe conhece a cara, mas que nos invade as montras uma vez por ano com corações vermelhos feitos de plástico.
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
razão e medida
Entro na tasca. Esta lá sr. Júlio sozinho e cumprimenta-me com os seus olhos semi-estrábicos e esbugalhados do vinho. A sra. Elisa adoeceu da vesícula e faz-me falta. Há um banco vazio atrás do balcão, onde ela costumava sentar-se que nem rainha à espera de clientes.
Olho para o presunto pendurando no tecto e parece-me o mesmo desde a minha primeira meia de leite. Gosto daquele presunto ali, um monte de carne inerte decorada a facadas incertas.
O sr. Júlio começa a falar do tempo em que se pagavam as coisas com feijões e ovos, e eu pergunto se quer que eu lhe traga grão de bico em vez de cinquenta cêntimos para pagar o descafeinado. Ele ri-se. E quando se ri assim, eu sinto-me invadida por aqueles olhos que entortam a cada gargalhada, e saiem de onde estavam tão quietos. Depois ensina-me palavras novas. Explica-me o que é uma padieira, que um alqueire de milho são 18 quilos e que razão é o rolo da massa com que se passa por cima deste. Divaga em números, medidas, quilos, metades, quartos e oitavos. Eu anoto o vocabulário novo num caderno vermelho e digo-lhe que ele deve perceber muito de matemática, ao que ele responde: "Se a menina quiser, resolvo-lhe já aqui uma expressão algébrica". Agradeço-lhe a dignidade e a ortografia. Antes de sair, acaba a aula dizendo: "A menina devia-se dedicar a estas coisas antigas. Estas coisas antigas têm valor, sabia?"
Olho para o presunto pendurando no tecto e parece-me o mesmo desde a minha primeira meia de leite. Gosto daquele presunto ali, um monte de carne inerte decorada a facadas incertas.
O sr. Júlio começa a falar do tempo em que se pagavam as coisas com feijões e ovos, e eu pergunto se quer que eu lhe traga grão de bico em vez de cinquenta cêntimos para pagar o descafeinado. Ele ri-se. E quando se ri assim, eu sinto-me invadida por aqueles olhos que entortam a cada gargalhada, e saiem de onde estavam tão quietos. Depois ensina-me palavras novas. Explica-me o que é uma padieira, que um alqueire de milho são 18 quilos e que razão é o rolo da massa com que se passa por cima deste. Divaga em números, medidas, quilos, metades, quartos e oitavos. Eu anoto o vocabulário novo num caderno vermelho e digo-lhe que ele deve perceber muito de matemática, ao que ele responde: "Se a menina quiser, resolvo-lhe já aqui uma expressão algébrica". Agradeço-lhe a dignidade e a ortografia. Antes de sair, acaba a aula dizendo: "A menina devia-se dedicar a estas coisas antigas. Estas coisas antigas têm valor, sabia?"
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
terça-feira, fevereiro 12, 2008
last news about familia com chamadas de graça
A Júlia veio informar-me que o homem da cabine trabalha no restaurante chinês lá da senhora da luz. Afinal foi precipitado chamar-lhe de machista. Pelos vistos as mulheres trabalham na loja e os homens fritam crepes. A loja, à qual eu chamei improvisadamente de "hao-hua" porque me pareceu um nome credível, tem um tolde vermelho a dizer "loja das lojas". Entre a ourivesaria sousa e o morgado sobrinho, a família decidiu que o seu estabelecimento era o melhor da rua. Gosto desta frontalidade desmedida.
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
o mistério da cabine
Todas as noites, ao lado de casa da minha avó, está um chinês a falar numa cabine telefónica. Isto começa a provocar-me uma curiosidade mórbida. Será que estão a falar
à pala para a China ou a encomendar artigos dos armazéns da Varziela?
Não é sempre o mesmo homem lá dentro. Ora um velho, ora um jovem. Devem revezar-se (acho que nunca tinha escrito a palavra "revezar").
Estava eu a ir para o Bonaparte e ouço uma voz histérica vinda da cabine. Reparo que é o chinês do costume. Cá para mim ele pertence à loja hao-hua ali ao lado onde costumo comprar ganchos para o cabelo, embora só tenha visto mulheres a trabalhar lá dentro. A família de chineses da rua senhora da luz deve ser meia machista. Já desconfiava.
Regresso do Bonaparte. Venho contente depois de algumas cervejas e cigarros legais.
Talvez tenham passado duas horas.
E ele ainda lá, com a sua voz aguda e penetrante falando esse mandarim que por momentos me apeteceu entender.
à pala para a China ou a encomendar artigos dos armazéns da Varziela?
Não é sempre o mesmo homem lá dentro. Ora um velho, ora um jovem. Devem revezar-se (acho que nunca tinha escrito a palavra "revezar").
Estava eu a ir para o Bonaparte e ouço uma voz histérica vinda da cabine. Reparo que é o chinês do costume. Cá para mim ele pertence à loja hao-hua ali ao lado onde costumo comprar ganchos para o cabelo, embora só tenha visto mulheres a trabalhar lá dentro. A família de chineses da rua senhora da luz deve ser meia machista. Já desconfiava.
Regresso do Bonaparte. Venho contente depois de algumas cervejas e cigarros legais.
Talvez tenham passado duas horas.
E ele ainda lá, com a sua voz aguda e penetrante falando esse mandarim que por momentos me apeteceu entender.
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
o sentido sem sentido

Hoje, durante a minha caminhada matinal tentei fechar os olhos e andar um bocado sem ver. Conheço aquela avenida desde pequenina, é sempre em frente, banda sonora marítima, nada que saber.
Toda a gente já fez isto uma vez ou outra, mas não sei como é que se costumam safar. Eu sou uma perra.
Não podia vir ninguém contra mim, nem vivalma no passeio, e os ciclistas desviam-se sempre tão rápido quanto aparecem.
Um segundo, dois, três, talvez quatro, perna firme, cabeça levantada, mas isto assim não dá - e abro os olhos num impulso quase desesperado.
Tento outra vez, novamente os olhos a despertarem incontrolavelmente.
Oh maria mas estás com medo de quê? O mar continua ali, o passeio não vai fugir e tu vais chegar a casa só um bocado mais tarde.
Pensei no "ensaio sobre a cegueira" de Saramago.
E percebi que se na vida tiver sempre medo de fechar os olhos e seguir em frente, estou completamente lixada.
terça-feira, fevereiro 05, 2008
just like a man
O meu irmão fez ontem 18 anos e ofereceram-lhe um cd do bob dylan.
Afinal este blog sempre serve para alguma coisa.
Viva a família Vasquez.
(durante a festa comovi-me ao vê-lo genuinamente bêbado e comecei a achar chato categorizá-lo de "pseudo-irmão")
Afinal este blog sempre serve para alguma coisa.
Viva a família Vasquez.
(durante a festa comovi-me ao vê-lo genuinamente bêbado e comecei a achar chato categorizá-lo de "pseudo-irmão")
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
ballad of a human being
"Ética é estarmos à altura do que nos acontece."
Gilles Deleuze
Saltitava de blog em blog e encontrei esta frase. Tão certa. Tão curta.
Fiquei sem vontade de escrever.
E tornou-se inevitável fazer um copy paste.
Gilles Deleuze
Saltitava de blog em blog e encontrei esta frase. Tão certa. Tão curta.
Fiquei sem vontade de escrever.
E tornou-se inevitável fazer um copy paste.
quarta-feira, janeiro 30, 2008
não lavo mais a loiça

Hoje, outra vez.
Eu na cozinha a lavar os pratos com restos de lulas guizadas.
E música a sair do quarto do meu pseudo-irmão e a entrar-me nos ouvidos, nos olhos ainda com gordura, nas mãos feitas de fairy.
Não, não era a Laura Pausini.
Umas flautas abafadas.
Uma versão estranha de uma música qualquer conhecida.
Ai, não.
Não pode ser.
Com todo o respeito por música tradicional e étnica,
aquilo era mesmo o pior dos Pan Pipes.
sexta-feira, janeiro 25, 2008
serei eu do tamanho das minhas botas?
Hoje, numa sapataria, ouvi uma voz pequena e orgulhosa a dizer:
"Olha mãe, já sou mais alto que o espelho".
(os espelhos das sapatarias também não deviam ser tão pequenos, como se para comprar sapatos deixássemos de ser um todo e nos reduzíssemos a pés chularentos)
Lembrei-me de Fernando Pessoa que dizia "porque sou do tamanho que vejo e não do tamanho da minha altura", mas rapidamente senti que o pensamento às vezes nos torna grandes mas secos. Depois olhei novamente para o rapazinho, reparei no seu reflexo segmentado, ri-me com ele, deitei um olhar cúmplice à mãe, esqueci Fernando Pessoa, e saí feliz da loja.
"Olha mãe, já sou mais alto que o espelho".
(os espelhos das sapatarias também não deviam ser tão pequenos, como se para comprar sapatos deixássemos de ser um todo e nos reduzíssemos a pés chularentos)
Lembrei-me de Fernando Pessoa que dizia "porque sou do tamanho que vejo e não do tamanho da minha altura", mas rapidamente senti que o pensamento às vezes nos torna grandes mas secos. Depois olhei novamente para o rapazinho, reparei no seu reflexo segmentado, ri-me com ele, deitei um olhar cúmplice à mãe, esqueci Fernando Pessoa, e saí feliz da loja.
quarta-feira, janeiro 23, 2008
hum...
"Todos os acasos da nossa vida são materiais de que podemos fazer o que quisermos. Quem possui muito espírito faz muito da sua vida - cada tomada de conhecimento, cada acontecimento seria para ele inteiramente espiritual - um primeiro membro de uma série infinita, o início de um romance infinito."
Friedrich von Novalis, in 'Fragmentos'
Friedrich von Novalis, in 'Fragmentos'
terça-feira, janeiro 22, 2008
auto de fé

Irritam-me certas formalidades.
Ontem estava a entrar na bomba da galp da boavista a falar ao telémovel. Já sei que é perigoso, já sei que é proibido, já sei que põe em risco a segurança da via pública - e por isso é raríssimo fazê-lo. Mas quando reparei estava um bando de polícias à minha esquerda a tomar café e a fumar. O chefe olhou para mim e chamou-me.
-"A menina pode ser autuada, e a coima é de 120 euros. Para além de não poder estar ao telemovel enquanto conduz, também não o pode fazer numa bomba de gasolina. Faz interferência."
- "Ai, o quê? Não me diga...pensei que podia...desculpe, estava distraída, até pensei que se estava a rir para mim..."
- "Menina, é proibido tudo o que possa interferir com a segurança a nível da condução. Outro dia um colega meu até autuou uma senhora que se ia a assoar na VCI."
Pensei que a única solução era rir-me. Rir-me dele que também não devia estar a fumar numa bomba, de mim, do ranho da pobre coitada, das possiveis explosões por interferência do meu nokia, e acima de tudo das palavras "autuada" e "coima". Mas porquê é que eles me vêm sempre com este paleio todo?
Eu não quero ser autuada e muito menos efectuar o pagamento de uma coima. Quero ser multada e pagar uma multa, no máximo.
No final, eu perguntei se ele me podia perdoar. O chefe disse: "Perdoar não perdoo, mas esqueço." Mas que falta de vocabulário sr. agente, seria muito mais interessante se tivesse dito que não me podia absolver mas que iria olvidar. Esquecer deve ser só para burros.
segunda-feira, janeiro 21, 2008
"Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidos. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fossem pessoas vivas."
Agustina Bessa-Luís, in 'Antes do Degelo'
Agustina Bessa-Luís, in 'Antes do Degelo'
quinta-feira, janeiro 17, 2008
quarta-feira, janeiro 16, 2008
festival de pó celeste

Ontem fui a um concerto de harpa no salão árabe do palácio da bolsa.
A sala cheirava a casaco de peles com pouco uso, a pó de arroz que esteve na gaveta e a perfume deixado de fabricar. Da minha idade quase ninguém. Alguns velhotes não resistiram até ao fim e foram tirando a sua soneca. Mas aquelas senhoras, essas, mantinham a postura, de peles rugosas e maquilhadas, cabelos bem armados, tentando dignamente que as suas costas se alinhassem com a verticalidade das cadeiras.
Às vezes, os homens, parecem-me tão mais reais que as mulheres.
Entre o som etéreo das harpas e o princípio de um ressonar - eu não sabia decidir qual era o mais perfeito.
quinta-feira, janeiro 10, 2008
"Do meu pai recebi desde menino uma imprudente
Forma de receber as frases que nos dizem: não esperar
Por elas numa cadeira, mas saltar em redor, eis
Um método que não era método porque era instinto:
Ouvir a frase de todos os pontos de vista,
Como se a linguagem depois de dita
Fosse uma matéria que permanecesse no ar,
E nós, animais representantes do diabo, à sua volta,
Tornássemos visível o que ela queria esconder:
A frase tentava exibir o rosto bem maquilhado
E nós apontávamos a sua roupa íntima,
As borbulhas deselegantes, a sua fealdade e a sua falsidade."
Forma de receber as frases que nos dizem: não esperar
Por elas numa cadeira, mas saltar em redor, eis
Um método que não era método porque era instinto:
Ouvir a frase de todos os pontos de vista,
Como se a linguagem depois de dita
Fosse uma matéria que permanecesse no ar,
E nós, animais representantes do diabo, à sua volta,
Tornássemos visível o que ela queria esconder:
A frase tentava exibir o rosto bem maquilhado
E nós apontávamos a sua roupa íntima,
As borbulhas deselegantes, a sua fealdade e a sua falsidade."
terça-feira, janeiro 08, 2008
não fumadores ou não fumadores
Hoje durante uma caminhada pela baixa, reparei que todas as lojas - seja do que for - têm agora um papel vermelho a dizer que não se pode fumar. Tentei lembrar-me de alguma vez em que estive na Zara a provar um vestido enquanto fumava uma cigarrada. Senti-me um pouco perseguida por esta papelada proibitiva e achei-a totalmente despropositada. Nós não somos estúpidos. Qualquer dia por lei ainda teremos que ver anunciado na porta de todas as lojas papéis vermelhos a dizer "não é permitido roubar" ou "proibido cagar no chão".
segunda-feira, janeiro 07, 2008
70 euros para o inimigo
Algumas oficinas são centros de metafísica. O Sr. Manuel mete qualquer Platão no bolso.
Ora bem, hoje foi a vez do polo começar a fazer barulhos estranhos vindos do além, juntamente com uma luzinha vermelha do óleo que piscava freneticamente. Pois, devo ter que encher aquela coisa com óleo e ele pára de grunhir, pensei. Parei na repsol da marginal e vejo um homem de fato macaco a roer animadamente uma daquelas coisas "tipo colher" que nos dão nas bombas para mexer o café. O roedor era bem simpático e ajudou-me em todo o processo. Pois bem, boto primeira em direccção à baixa e aquela merda a apitar outra vez. Hum, então afinal não era do óleo. Porra.
Tentei disfarçar que aquela luz não é vermelha nem está a apitar - às vezes a força da mente resulta - mas nada.
Resolvi então ir a uma oficina onde já tinha ouvido falar que a mecânica chefe era uma tal de Carla.
" - Boa tarde, a Carla está?
- Não menina, só deve chegar lá para as três e meia.
- Hum, então o senhor talvez me possa ajudar. O meu carro está prestes a explodir e eu quero evitar explodir com ele. A luz do óleo apita, o motor faz um barulho estranho, o carro vai abaixo repentinamente e quando travo é uma chiadeira dos diabos. Pode arranjá-lo?
- Isso pode ser muita coisa. Não sei o que é. Estamos em obras. Até pode ser da vela. Ou pode ter que fazer uma revisão. Mas nós não sabemos quando é que podemos fazer-lhe a revisão. A menina marque. Talvez possa deixá-lo aqui amanhã. Mas quer deixar hoje? É uma questão de marcar. Mas isso eu não sei o que é. Nós não temos aqui as peças, temos que mandar vir. Não sei por quanto tempo tem que ficar a arranjar, isso tem que se ver."
Percebi que com o Sr. Manuel não ia a lado nenhum.
- Olhe, então eu só preciso de saber se acha que eu posso andar com ele hoje, se isto não me vai gripar, se eu não vou explodir juntamente com o carro.
- Isso não sei menina, ele andar anda."
E andou mesmo. Dirigi-me a outra oficina, a do Sr. Zé Manel.
Relato o meu pequeno drama.
" - Menina, tem que mudar o filtro do óleo, limpar a borboleta e verificar os calços do travões. Fica-lhe à volta dos 70 euros, deve estar pronto ao fim da tarde e nós ligamos-lhe para vir buscá-lo."
Desculpe Sr. Manuel, mas gente prática é outra coisa. E eu a pensar que gostava tanto de filosofia.
Ora bem, hoje foi a vez do polo começar a fazer barulhos estranhos vindos do além, juntamente com uma luzinha vermelha do óleo que piscava freneticamente. Pois, devo ter que encher aquela coisa com óleo e ele pára de grunhir, pensei. Parei na repsol da marginal e vejo um homem de fato macaco a roer animadamente uma daquelas coisas "tipo colher" que nos dão nas bombas para mexer o café. O roedor era bem simpático e ajudou-me em todo o processo. Pois bem, boto primeira em direccção à baixa e aquela merda a apitar outra vez. Hum, então afinal não era do óleo. Porra.
Tentei disfarçar que aquela luz não é vermelha nem está a apitar - às vezes a força da mente resulta - mas nada.
Resolvi então ir a uma oficina onde já tinha ouvido falar que a mecânica chefe era uma tal de Carla.
" - Boa tarde, a Carla está?
- Não menina, só deve chegar lá para as três e meia.
- Hum, então o senhor talvez me possa ajudar. O meu carro está prestes a explodir e eu quero evitar explodir com ele. A luz do óleo apita, o motor faz um barulho estranho, o carro vai abaixo repentinamente e quando travo é uma chiadeira dos diabos. Pode arranjá-lo?
- Isso pode ser muita coisa. Não sei o que é. Estamos em obras. Até pode ser da vela. Ou pode ter que fazer uma revisão. Mas nós não sabemos quando é que podemos fazer-lhe a revisão. A menina marque. Talvez possa deixá-lo aqui amanhã. Mas quer deixar hoje? É uma questão de marcar. Mas isso eu não sei o que é. Nós não temos aqui as peças, temos que mandar vir. Não sei por quanto tempo tem que ficar a arranjar, isso tem que se ver."
Percebi que com o Sr. Manuel não ia a lado nenhum.
- Olhe, então eu só preciso de saber se acha que eu posso andar com ele hoje, se isto não me vai gripar, se eu não vou explodir juntamente com o carro.
- Isso não sei menina, ele andar anda."
E andou mesmo. Dirigi-me a outra oficina, a do Sr. Zé Manel.
Relato o meu pequeno drama.
" - Menina, tem que mudar o filtro do óleo, limpar a borboleta e verificar os calços do travões. Fica-lhe à volta dos 70 euros, deve estar pronto ao fim da tarde e nós ligamos-lhe para vir buscá-lo."
Desculpe Sr. Manuel, mas gente prática é outra coisa. E eu a pensar que gostava tanto de filosofia.
sexta-feira, janeiro 04, 2008
xô palavrões
Estava agora a reler o que escrevo e reparei que estou a ficar muito malcriada.
Vou começar a escrever coisas suaves e bonitas outra vez.
(se é que alguma vez escrevi coisas suaves e bonitas, mas acho que sim)
Vou começar a escrever coisas suaves e bonitas outra vez.
(se é que alguma vez escrevi coisas suaves e bonitas, mas acho que sim)
quarta-feira, janeiro 02, 2008
a culpa nem sequer é minha
Não percebo o que é que há entre mim e o meu carro. Não vibro com aquele gajo. Ligo-me a qualquer merdice, custa-me deitar a escova de dentes fora ao final de alguns meses de uso. Mas o meu polo, porra, o meu polo não me curte.
Para além de já ter tido dois mini acidentes (culpa dele claro), de ter atraído um gang de polícias na marginal, e de me dar vontade de fumar um maço de sg mentol cada vez que entro nele - hoje foi a vez de se por a fazer peões numa rotunda. Oh que canudo. Estava eu a contornar a anémona de matosinhos que está prestes a transformar-se num olho do cú gigante (a rede está decadente), e aquela coisa começa a derrapar. Senti-me naquelas chávenas gigantes da feira popular que dão voltas e mais voltas. Foram praí três. Quando o polo decide parar, ficou de cú virado para o mar. Que chic é o gajo. Reparei que por intervenção dos autocolantes de deuses indianos que me acompanham sempre nas janelas, não havia nem um carro na rotunda. Ninguém viu sequer. Era meio dia. Entretanto, com o embate, subi uma merda qualquer de granito - tipo separador de faixas - que me impedia de sair dali. Fiquei presa. Primeira e nada.
Aparece um homem com ar de tio da foz, um ser bondoso que reparou em mim. Ou um "tipo civilizadíssimo" como diriam algumas pessoas da minha família. E no meio daquela chuva imensa, depois daquelas voltas que pareceram nunca acontecer, o tio mete primeira e tira-me facilmente o carro dali. O gajo comigo queria era ficar de cú virado para o mar. Ai o traiçoeiro.
Para além de já ter tido dois mini acidentes (culpa dele claro), de ter atraído um gang de polícias na marginal, e de me dar vontade de fumar um maço de sg mentol cada vez que entro nele - hoje foi a vez de se por a fazer peões numa rotunda. Oh que canudo. Estava eu a contornar a anémona de matosinhos que está prestes a transformar-se num olho do cú gigante (a rede está decadente), e aquela coisa começa a derrapar. Senti-me naquelas chávenas gigantes da feira popular que dão voltas e mais voltas. Foram praí três. Quando o polo decide parar, ficou de cú virado para o mar. Que chic é o gajo. Reparei que por intervenção dos autocolantes de deuses indianos que me acompanham sempre nas janelas, não havia nem um carro na rotunda. Ninguém viu sequer. Era meio dia. Entretanto, com o embate, subi uma merda qualquer de granito - tipo separador de faixas - que me impedia de sair dali. Fiquei presa. Primeira e nada.
Aparece um homem com ar de tio da foz, um ser bondoso que reparou em mim. Ou um "tipo civilizadíssimo" como diriam algumas pessoas da minha família. E no meio daquela chuva imensa, depois daquelas voltas que pareceram nunca acontecer, o tio mete primeira e tira-me facilmente o carro dali. O gajo comigo queria era ficar de cú virado para o mar. Ai o traiçoeiro.
sábado, dezembro 29, 2007
esclarecimentos aos leitores que me restam
Ontem ouvi certas críticas à forma "leve" como descrevi o julgamento, anunciando vislumbres de nova irresponsabilidade. Que lata que eu tenho - sou apanhada com um 1,9 de alcool no sangue, e no final ainda me ponho a gozar os agentes da polícia em vez de dar graças aos céus por ter sido absolvida. Pois, falando na esfera do real, é óbvio que reconheço o meu erro, e é mais do que óbvio que tive uma sorte do caneco. Mas isto é um bloguezito de merda, um espaço virtual onde deposito sonhos, deliríos ou caprichos. E que piada teria escrever sobre os males da minha consciência? Pronto, vou confessar-vos: o meu coração por algumas semanas tornou-se frágil como um copo do ikea, duro que nem a estrada onde pelos vistos andei aos "esses" sem reparar, medricas que nem lareira à chuva. Mas isto são assuntos chatos, parece-me. Estou arrependida, sim, estou. Sei que tive sorte, sim, sei. Mas também sei que a chefe Manuela é mal cheirosa, e que as alegações finais tanto da minha advogada como do ministério público, pouco falaram da dona Maria Sottomayor. Acreditem ou não, os protagonistas foram mesmo os senhores agentes.
domingo, dezembro 23, 2007
o julgamento - pormenores de uma chefe chocante
A chefe Manuela para além do seu perfume e baton desprezíveis, também tinha os olhos carregados de risco preto daquele que parece nunca mais sair, e madeixas mal feitas. Via-se tão bem aquela raíz preta que começava despreocupadamente a nascer, acusando as pontas loiras e secas da sua tamanha artificialidade. Apesar de toda a sua idiotice e de usar produtos de maquilhagem insultuosos, a chefe tinha uns olhos que se podem considerar bonitos. Gosto de olhos que falem de qualquer coisa, que nos dêm festinhas ou que nos mandem para o caralho, mas que falem. Os dela mandavam-me para o caralho.
A Juíza para a chefe Manuela:
- "Lembra-se da arguida?"
A chefe olha para o lado com queles olhos pretos tipo azeitona prontos a espichar azeite para cima de mim e diz:
- "Perfeitamente".
Que contente que ela estava por se lembrar de alguém como eu, uma imbecil distraída que se esquece de contar os copos que bebe.
Depois lá se pôs a contar a sua versão sobre aquela noite, começando por dizer que já trabalha há 27 anos naquela esquadra. Que maneira pobre de começar um discurso, como se os anos de serviço fossem encobrir todas as mentiras que passados uns minutos começou animadamente a expelir por aquela boca vermelha imunda.
"A dona Maria Sottomayor não queria fazer a contra-prova, depois queria, depois recebia toques, depois punha-se ao telefone, eu falava pra ela mas a dona Maria Sottomayor não me ligava, ela esteve para cima de vinte minutos ao telefone, a dona Maria Sottomayor." Eu já não me sentia nem Dona, nem Maria, nem Sottomayor, e à custa da chefe Manuela aquele julgamento começou a ser exercer um tipo de fascínio sobre mim, como se tudo já me fosse distante e eu pudesse apreciar de forma neutra todos os exercicios de linguagem e manipulação que ali se praticavam.
A Juíza para a chefe Manuela:
- "Lembra-se da arguida?"
A chefe olha para o lado com queles olhos pretos tipo azeitona prontos a espichar azeite para cima de mim e diz:
- "Perfeitamente".
Que contente que ela estava por se lembrar de alguém como eu, uma imbecil distraída que se esquece de contar os copos que bebe.
Depois lá se pôs a contar a sua versão sobre aquela noite, começando por dizer que já trabalha há 27 anos naquela esquadra. Que maneira pobre de começar um discurso, como se os anos de serviço fossem encobrir todas as mentiras que passados uns minutos começou animadamente a expelir por aquela boca vermelha imunda.
"A dona Maria Sottomayor não queria fazer a contra-prova, depois queria, depois recebia toques, depois punha-se ao telefone, eu falava pra ela mas a dona Maria Sottomayor não me ligava, ela esteve para cima de vinte minutos ao telefone, a dona Maria Sottomayor." Eu já não me sentia nem Dona, nem Maria, nem Sottomayor, e à custa da chefe Manuela aquele julgamento começou a ser exercer um tipo de fascínio sobre mim, como se tudo já me fosse distante e eu pudesse apreciar de forma neutra todos os exercicios de linguagem e manipulação que ali se praticavam.
sexta-feira, dezembro 21, 2007
o julgamento - uma possivel perspectiva
Um julgamento pode ter alguma piada. Principalmente se sairmos absolvidos à custa da incompetência dos outros.
Eu, que por lei tinha cometido um crime, devido a outra lei qualquer, tive que ser absolvida.
O agente França, o agente Silva, o agente Pinto. Que queridos que eles eram. Juro que por momentos me apeteceu abraçar o agente França. Era alto, com principios de barriga. Imaginei-o perfeitamente vestido de pai natal no dia 24 à noite tentando surpreender a sua recém-nascida neta (não sei porquê acho que o agente França só pode ter uma neta, e que essa corre riscos de se chamar katia e de se vestir de cor-de-rosa todos os dias).
O Agente Pinto era igualmente fofo. Reparei que a alcunha perfeita para este agente seria a de "Pintoínho", pois tinha cara de pequeno pássaro.
O Silva era o único baixo dos três, por isso também me enterneceu. Ainda por cima tinha uma cara assim meia amacacada. Consegui vislumbrá-lo no jardim de infância como sendo o mais feio da classe e deu-me pena.
Apanhei o França à porta do tribunal antes do julgamento, e ele até me disse: "Menina, não temos nada contra si, isto é só mais um deber." Um dever. Estou a ver. O Pintoínho, à saída, desejou-me as boas festas.
Mas a chefe Manuela, ai, a chefe Manuela. Essa, nem festas, nem deberes, queria era lixar-me bem lixada dentro daquele tribunal onde o seu perfume gucci dos chineses nos invadia a todos de forma injusta. E gritava tão alto e tão mal, meu deus, as palavras desajeitadas que saíam daquela boca vermelha mal pintada. Culpa outra vez dos chineses, provavelmente.
Eu, que por lei tinha cometido um crime, devido a outra lei qualquer, tive que ser absolvida.
O agente França, o agente Silva, o agente Pinto. Que queridos que eles eram. Juro que por momentos me apeteceu abraçar o agente França. Era alto, com principios de barriga. Imaginei-o perfeitamente vestido de pai natal no dia 24 à noite tentando surpreender a sua recém-nascida neta (não sei porquê acho que o agente França só pode ter uma neta, e que essa corre riscos de se chamar katia e de se vestir de cor-de-rosa todos os dias).
O Agente Pinto era igualmente fofo. Reparei que a alcunha perfeita para este agente seria a de "Pintoínho", pois tinha cara de pequeno pássaro.
O Silva era o único baixo dos três, por isso também me enterneceu. Ainda por cima tinha uma cara assim meia amacacada. Consegui vislumbrá-lo no jardim de infância como sendo o mais feio da classe e deu-me pena.
Apanhei o França à porta do tribunal antes do julgamento, e ele até me disse: "Menina, não temos nada contra si, isto é só mais um deber." Um dever. Estou a ver. O Pintoínho, à saída, desejou-me as boas festas.
Mas a chefe Manuela, ai, a chefe Manuela. Essa, nem festas, nem deberes, queria era lixar-me bem lixada dentro daquele tribunal onde o seu perfume gucci dos chineses nos invadia a todos de forma injusta. E gritava tão alto e tão mal, meu deus, as palavras desajeitadas que saíam daquela boca vermelha mal pintada. Culpa outra vez dos chineses, provavelmente.
segunda-feira, dezembro 10, 2007
"O pão" ou o bordel imaginário
Estou em Matosinhos, numa padaria chamada " O pão". Giro. Peço descafeinado e fumo sg mentol.
Isto é escuro cá dentro. Por cima da máquina de cigarros há três embrulhos de natal, daqueles com papéis de motivos natalícios que costumam estar nas caixas de supermercado ao lado das chicletes. Que feios são estes três caixotes, e os laços, os laços dos embrulhos, os laços que foram encaracolados com a tesoura, que feios estes laços são. Ao lado da máquina de cigarros há duas coisas daquelas grandes com bolas de plástico lá dentro. Paga-se um euro por cada bola inútil, mas vá lá, é surpresa, e por isso há sempre quem pague um euro pelo desconhecido.
Em cima do balcão, outro caixote embrulhado a papel natalício (verde, vermelho, dourado) onde se pode ler : "As funcionárias deste estabelecimento desejam a todos os seus clientes um feliz natal e um próspero ano novo". Com todo o respeito pelas funcionárias de " O pão", reparo que isto em cima em cima de o balcão de um bordel é que ficava giro. Depois comecei a sentir pena da palavra " próspero", que só é utilizada nesta altura do ano. Tadinhos dos que são prósperos, nunca ninguém lhes liga.
Na mesa mais próxima da minha vejo duas mulheres a conversarem. Uma tem um penso branco no nariz, como é que será que ela foi fazer aquilo? Caiu no parque recreativo da senhora da hora? É jovem, tem cabelo preto e come uma torrada por volta das três da tarde (ninguém come torradas a essa hora). Mas a sua amiga é ainda mais bizzara, apesar de não comer torradas. É loira permanentada. Penso que as permanentes deviam ser proibidas, porque as mulheres não são para serem confundidas com caniches. É mais velha do que a outra do penso no nariz, tem um ar assim meio gasto. Look tipo anos 90, jaqueta de ganga e baton cor de rosa. Isto podia ser mesmo um bordel diurno de matosinhos onde se vendem torradas à sucapa.
Apago o segundo sg mentol. Pago o descafeinado com uma moeda de um euro. Penso: se tivesse outra igual a esta (e se fosse mais estúpida) metia-a naquela coisa grande com bolas de plástico à espera de outro porta-chaves ou de um urso feio de peluche.
Isto é escuro cá dentro. Por cima da máquina de cigarros há três embrulhos de natal, daqueles com papéis de motivos natalícios que costumam estar nas caixas de supermercado ao lado das chicletes. Que feios são estes três caixotes, e os laços, os laços dos embrulhos, os laços que foram encaracolados com a tesoura, que feios estes laços são. Ao lado da máquina de cigarros há duas coisas daquelas grandes com bolas de plástico lá dentro. Paga-se um euro por cada bola inútil, mas vá lá, é surpresa, e por isso há sempre quem pague um euro pelo desconhecido.
Em cima do balcão, outro caixote embrulhado a papel natalício (verde, vermelho, dourado) onde se pode ler : "As funcionárias deste estabelecimento desejam a todos os seus clientes um feliz natal e um próspero ano novo". Com todo o respeito pelas funcionárias de " O pão", reparo que isto em cima em cima de o balcão de um bordel é que ficava giro. Depois comecei a sentir pena da palavra " próspero", que só é utilizada nesta altura do ano. Tadinhos dos que são prósperos, nunca ninguém lhes liga.
Na mesa mais próxima da minha vejo duas mulheres a conversarem. Uma tem um penso branco no nariz, como é que será que ela foi fazer aquilo? Caiu no parque recreativo da senhora da hora? É jovem, tem cabelo preto e come uma torrada por volta das três da tarde (ninguém come torradas a essa hora). Mas a sua amiga é ainda mais bizzara, apesar de não comer torradas. É loira permanentada. Penso que as permanentes deviam ser proibidas, porque as mulheres não são para serem confundidas com caniches. É mais velha do que a outra do penso no nariz, tem um ar assim meio gasto. Look tipo anos 90, jaqueta de ganga e baton cor de rosa. Isto podia ser mesmo um bordel diurno de matosinhos onde se vendem torradas à sucapa.
Apago o segundo sg mentol. Pago o descafeinado com uma moeda de um euro. Penso: se tivesse outra igual a esta (e se fosse mais estúpida) metia-a naquela coisa grande com bolas de plástico à espera de outro porta-chaves ou de um urso feio de peluche.
terça-feira, dezembro 04, 2007
segunda-feira, novembro 26, 2007
quinta-feira, novembro 22, 2007
domingo, novembro 18, 2007
padaria ribeiro
"- Olhe, e agora por favor dê-me duas natas bem cheinhas para uma pessoa que só come o interior."
segunda-feira, novembro 12, 2007
domingo, novembro 11, 2007
Nietzsche e eu
The advantage of a bad memory is that one enjoys several times the same good things for the first time.
terça-feira, outubro 30, 2007
segunda-feira, outubro 22, 2007
terça-feira, outubro 16, 2007
faulkner
It's a shame that the only thing a man can do for eight hours a day is work. He can't eat for eight hours; he can't drink for eight hours; he can't make love for eight hours. The only thing a man can do for eight hours is work.
terça-feira, outubro 02, 2007
o prazo das coisas
"Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos."
sexta-feira, setembro 21, 2007
segunda-feira, setembro 10, 2007
A grande encosta
" Quando se deixa esta província de que vos falei, desce-se por duas jornadas e meia uma grande encosta. Durante aquelas nada há que mereça ser contado, salvo que se encontra uma grande praça, onde se realiza uma grande feira, certos dias do ano.Vêm até aí muitos comerciantes que trazem ouro, prata e muitas outras mercadorias. São originários de regiões onde ninguém consegue ir, senão eles próprios, tão selvagem e remota é das outras; nem ninguém chega a saber onde fica situada porque ninguém lá consegue ir.
Depois de se ter caminhado aquelas duas jornadas, chega-se a uma província situada a sul, que está nos confins da Índia e que se chama Mien. Depois, continua-se durante quinze dias, por lugares desabitados e por florestas cheias de elefantes, rinocerontes e muitos outros animais; não se encontram nem homens nem habitações.
Assim deixemos esta região e vou contar-vos uma história, como irão ouvir."
Marco Polo in "O livro das maravilhas"
Depois de se ter caminhado aquelas duas jornadas, chega-se a uma província situada a sul, que está nos confins da Índia e que se chama Mien. Depois, continua-se durante quinze dias, por lugares desabitados e por florestas cheias de elefantes, rinocerontes e muitos outros animais; não se encontram nem homens nem habitações.
Assim deixemos esta região e vou contar-vos uma história, como irão ouvir."
Marco Polo in "O livro das maravilhas"
terça-feira, julho 24, 2007
Escrita II
"Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livros nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara"
Sophia
Vazia
Não precisa de livros nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara"
Sophia
domingo, julho 15, 2007
quarta-feira, maio 23, 2007
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