O título chamar as coisas pelos nomes foi rejeitado. A galerista disse que não lhe soava bem a frase e perguntou-me "e que tal em inglês"? Eu estava precisamente a falar inglês na altura em que me ligou, primeiro dia como recepcionista num hostel, uma confusão de línguas, nomes, imagens, papéis - e respondi a tudo que sim. Sou poupada nos nãos que uso e tenho pena disso. Por momentos achei provinciano esse recurso à lingua inglesa. Como se a verdade não soasse bem só por ser dita na nossa língua. Então vá, bota-se a coisa noutro idioma que já não fica tão mal porque pouco passamos a sentir e tudo se torna mais fácil.
Deram-me português e é com ele que quero ser, embora possa estar com outras línguas. Em inglês nem sequer sabia como fazer esta distinção entre ser e estar, como se o " to be" me fosse servir para os dois.
Português não é piroso. Quero dizer "amo-te" em vez de "I love you", porque dentro de mim sinto amor, sim, amor, só amor, um amor imenso e love muito pouco.
segunda-feira, abril 07, 2008
quinta-feira, abril 03, 2008
depurar
Já gostei de dar títulos aos quadros ou a uma exposição. Hoje em dia é um tormento. Como se reduzem todas as angústias, vontades, erros, dias, horas, minutos, segundos numa palavra? Não há palavra que mereça tanta coisa. Maior parte delas são ingratas e redutoras. Às vezes acho que devia haver um nome diferente para cada pessoa no mundo. Não seria assim tão complicado e acabavam-se os rótulos que cada família acarreta. Isto de dar nomes às coisas. Mas confesso que por vezes também não me custa assim tanto, especialmente quando se trata de adjectivar pessoas que não conheço. Por exemplo, a gaja da ervanária é feia e tem cara de enjoada. É também enjoativa, porque me enjoo só de olhar para ela. Tem cara de peixe estragado, os olhos demasiado cá fora e a boca a querer chegar aos pés. Pinta-se imenso e sempre da mesma maneira. Não gosto de mulheres excessivamente maquilhadas ao balcão de ervanárias, retira-lhes a credibilidade. Não consigo confiar nela nem pedir-he ajuda. É daquelas que diz "prontos" uns a seguir aos outros. Era gorda mas já não é. Espero que não tenha feito a dieta à base da depuralina, não vá ela amanhã apresentar-se ao trabalho para além de feia, doente do fígado.
terça-feira, abril 01, 2008
i don´t lamb messenger
A minha irmã de 14 anos é viciada no messenger. Passo o jantar a ouvir o tlim das janelas virtuais. A carne assada hoje soube-me a pixel. Raul acabou de entrar. Xalu acabou de entrar. Ana acabou de entrar. Agora é a vez do Toni e do Johnnie Johnnie. "I lamb iu" diz um deles. Isso vem de lamber ou de amor? Venho ao computador e a festarola ainda a processar. Toda esta tertúlia fragmentada a entrar nos meus ouvidos, olhos, pensamento. Continuam a "mensajar" que me adoram, que estão à espera que eu responda, que têm saudades minhas. O nick de um é : "sobervivi ao encino portugez", um gajo com piada esse. Invadem-me com fotografias da escola primária como se fosse há muito que por lá passaram. Sempre estranhei este interesse massivo da adolescência por fotografias quando todos éramos bébés cagões. Olha que querida que eu era. Agora dou beijos com cuspe e tenho pêlos púbicos mas já me habituei a eles. Os das axilas é que são uma chatice.
sms
Hoje, enquanto pintava um pássaro que queria que se assemelhasse a um cão, entra-me pelo atelier adentro (gosto de palavreado oral) uma gaivota. Bate as asas freneticamente, dá duas voltas e sai. Estava furiosa, nem tive tempo de lhe sacar o tamanho ou o olhar.
Há quem deteste gaivotas, eu não. Já ouvi relatos assustadores de pessoas que estão de relações cortadas com a espécie. Por exemplo, a Catarina deixou de gostar de gaivotas quando uma lhe bateu à janela do quarto de hóspedes a meio da noite. O vidro, o bico, o tic tic no vidro, deixem-me entrar, mas o que é isto, será um ladrão, tic tic e um medo do diabos. A Catarina vive sozinha e por isso não gosta de acordar à noite com sons que não conhece. Naquela noite teve imensa coragem, levantou-se, foi até à próxima divisão e assim percebeu que tipo de assaltante se tratava.
A minha não teve que fazer barulho. A janela estava aberta. Acreditei por momentos que sabia que eu estava prá'li a brincar às metamorfoses, que aquilo no papel já tinha deixado de ser um pelicano para se transformar num cocker domesticável. Pare lá de ser subversiva e tenha respeito por nós que a gente ainda tem muito orgulho de sermos os únicos a conseguir voar.
Há quem deteste gaivotas, eu não. Já ouvi relatos assustadores de pessoas que estão de relações cortadas com a espécie. Por exemplo, a Catarina deixou de gostar de gaivotas quando uma lhe bateu à janela do quarto de hóspedes a meio da noite. O vidro, o bico, o tic tic no vidro, deixem-me entrar, mas o que é isto, será um ladrão, tic tic e um medo do diabos. A Catarina vive sozinha e por isso não gosta de acordar à noite com sons que não conhece. Naquela noite teve imensa coragem, levantou-se, foi até à próxima divisão e assim percebeu que tipo de assaltante se tratava.
A minha não teve que fazer barulho. A janela estava aberta. Acreditei por momentos que sabia que eu estava prá'li a brincar às metamorfoses, que aquilo no papel já tinha deixado de ser um pelicano para se transformar num cocker domesticável. Pare lá de ser subversiva e tenha respeito por nós que a gente ainda tem muito orgulho de sermos os únicos a conseguir voar.
segunda-feira, março 31, 2008
lembro-te muito seriamente e ainda cheiras a naftalina
Ela recebia-nos todos os verões na sua casa com cheiro a naftalina. No primeiro de Agosto, depois de pousarmos as malas, entregava-nos as chaves de um velho armário com boiões de vidro que nos permitia o assalto massivo a diversos tipos de biscoitos. As mãos tão cheias de vontade, tão desprendidas de prazos,
calorias,
tretas da meia idade
(as crianças e os velhos não têm medo de salmonelas nem iogurtes fora do prazo).
Ao almoço bebia dignamente um - nunca mais que um - copo de vinho tinto que misturava com açucar. Trazia ao pescoço sempre o mesmo fio que carregava um segredo e por isso não o posso contar. O marido vivia só em fotografias e nunca tiveram filhos. Jurava a pés juntos que tinha um vizinho da frente chamado Pássaro Amarelo que limpava as escadas ao sábado e tinha mau feitio. Obrigava-nos a dar beijos num urso bem vestido com olhos feitos de botões verdes. Depois dos beijos, pousava o urso no parapeito da janela e eu acreditava que este, depois de beijado e arejado, nos reivindicasse uma espécie de protecção divina. Ainda acredito. Quando ela morreu deixou-me (para além das bolachas sem prazo de validade e da atracção pelo vinho) o mamífero, o fio de segredo pendurado e outras jóias que usava mas que eu não consigo tirar da caixa. Sinto-me tão feia com coisas valiosas no pescoço e nos braços.
calorias,
tretas da meia idade
(as crianças e os velhos não têm medo de salmonelas nem iogurtes fora do prazo).
Ao almoço bebia dignamente um - nunca mais que um - copo de vinho tinto que misturava com açucar. Trazia ao pescoço sempre o mesmo fio que carregava um segredo e por isso não o posso contar. O marido vivia só em fotografias e nunca tiveram filhos. Jurava a pés juntos que tinha um vizinho da frente chamado Pássaro Amarelo que limpava as escadas ao sábado e tinha mau feitio. Obrigava-nos a dar beijos num urso bem vestido com olhos feitos de botões verdes. Depois dos beijos, pousava o urso no parapeito da janela e eu acreditava que este, depois de beijado e arejado, nos reivindicasse uma espécie de protecção divina. Ainda acredito. Quando ela morreu deixou-me (para além das bolachas sem prazo de validade e da atracção pelo vinho) o mamífero, o fio de segredo pendurado e outras jóias que usava mas que eu não consigo tirar da caixa. Sinto-me tão feia com coisas valiosas no pescoço e nos braços.
sexta-feira, março 28, 2008
assunto sério
Incomoda-me gente demasiado séria. Não entendo porque é que se tem que ser sério. Parece-me uma atitude ingrata. Se me disserem que o homem da tabacaria é um homem sério eu até percebo, quer dizer que não rouba os clientes nem olha para as maminhas das garotas. Mas não é destes sérios que eu estou a falar, que afinal de contas não passam de pessoas honestas e muito bem. Falo daqueles que vêem todo e qualquer assunto como uma coisa que tem que ser levada a sério. Não te rias que isto é mesmo a sério, isto a vida não está para brincadeiras, anda mas é meio mundo a enganar outro meio. Gente chata portanto. Fala-se do joanete da vizinha e imediatamente apresentam a cara número 3 que é a expressão tensa que costumam usar quando se trata de problemas de saúde. Depois, quando os músculos da cara começam a cansar fazem aquela coisa com a língua, sim, aquele exercício português de levar a ponta da língua ao céu da boca e largá-la violentamente até se ouvir um T agudo que quase sempre é seguido pela frase "é a vida", que é como quem diz não te tenho mais nada para dizer para além de já estar cansada da cara. Há ainda os insuportavelmente sérios a trabalhar, como os assistentes das operadoras telefónicas que têm sempre o prazer de estar a falar com quem quer que seja e insistem animadamente em saber outras questões em que possam ser úteis. Mais alguma questão em que possa ser útil? Tenho tantas, caro operador, mas temo que não me possa ajudar. Não leve a sério, não é nada pessoal. E vá lá, diga ao Belmiro que "toda a gente precisa de rir" e chame-me otária se for só de vez em quando.
terça-feira, março 25, 2008
vendo, logo existo
"Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria."
Jorge Luís Borges, in Ensaio: O Livro
(acredito que Borges ficaria no mínimo embasbacado se soubesse que Claúdio Ramos acaba de editar um livro intitulado "Geneticamente Fúteis" que está em destaque nas prateleiras na Fnac - às vezes, a liberdade de expressão assusta-me)
(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria."
Jorge Luís Borges, in Ensaio: O Livro
(acredito que Borges ficaria no mínimo embasbacado se soubesse que Claúdio Ramos acaba de editar um livro intitulado "Geneticamente Fúteis" que está em destaque nas prateleiras na Fnac - às vezes, a liberdade de expressão assusta-me)
segunda-feira, março 24, 2008
morrinha vem de morrer
Qual o sentido desta segunda-feira depois de um domingo de páscoa em que não sabemos quem tem que trabalhar ou não e porquê? Um dia assim, a cabeça ainda em compassos e amêndoas, princípios de primavera e o céu a cuspir morrinha. Morrinha, mas que merda é esta? Eu a descobrir no dicionário que morrinha é não só esta chuva estúpida que não se assume, como também pode ser significar "doença ligeira". Tudo a meio gás portanto. Meio. Chuva que não encharca, doença que não dói, trabalho que ainda não está definido, férias que não estão bem acabadas. Descobri que hoje não vou conseguir ultrapassar este estado desprezível de "morrinhenta". Mas pelo menos vou tentar ser coerente na coisa. Comerei meio pão com queijo, fumarei 10 cigarros e falarei apenas o essencial por preguiça de pensar em mais qualquer coisa. Deixarei unicamente sorrisos amarelados aos que me encontrarem na rua, meio litro de chá no bule, a máquina por fazer, a cama amarrotada e o banho por tomar. A seguir ao almoço, depois de alguns minutos a roçar suavemente as pernas num aquecedor a óleo, tentarei qualquer acção digna e nobre, mas não prometo grande coisa. Ressuscitar devia ser mais democrático.
quarta-feira, março 19, 2008
comer, beber, dormir e sonhar
Comi um bocado da massa. Os camarões estavam descascados e não feriram qualquer tipo de susceptibilidade. À tarde, enquanto pintava um canguru, apeteceu-me uma bifana do Sr. Júlio. Foi a Sra. Elisa, sua mulher, que a preparou e embrulhou amorosamente em papel vegetal. Regressei ao atelier e fiz um macaco a tinta da china que me começou a cheirar a cominhos da bifana. Abri à tesourada uma mini na tentativa de refrescar o desenho e as especiarias. Concluí que um abre cápsulas é fundamental em qualquer casa ou sítio de trabalho. Antes do jantar, a minha irmã preparou-me umas tostinhas com sardinhas oriundas das rias gallegas e quando cheguei a casa do me pai vi arroz de polvo na mesa. Sonhei com hipermercados, pareceu-me mau sinal. Preferia o mercado de peixe.
Devorei ao pequeno almoço - como de costume - três tangerinas biológicas que me tornam numa pessoa mais feliz e saudável. Almocei em casa da minha madrinha, que já não via há muito tempo, arroz de feijão com bifinhos de porco. A sopa de agriões estava óptima e sabia a antigo. No final ofereceu-me amêndoas coloridas e um ovo de chocolate. Estou com sede. Decidi fazer um chá japonês. Não percebo a gente que não admite que somos selvagens.
Devorei ao pequeno almoço - como de costume - três tangerinas biológicas que me tornam numa pessoa mais feliz e saudável. Almocei em casa da minha madrinha, que já não via há muito tempo, arroz de feijão com bifinhos de porco. A sopa de agriões estava óptima e sabia a antigo. No final ofereceu-me amêndoas coloridas e um ovo de chocolate. Estou com sede. Decidi fazer um chá japonês. Não percebo a gente que não admite que somos selvagens.
terça-feira, março 18, 2008
há sonhos que são bem chatos
Sonhei a noite toda que estava a comprar camarões. Um mercado de peixe estreito e comprido, o cheiro que não sei definir, o gelo sujo de onde os animais quase vivos submergem. Não havia mais nada a não ser camarões, nada de petinga, nada de solha, só camarões. Parei no primeiro balcão, não conseguia decidir o que levar. E se são frescos, e se são saborosos, e se são caros, e se os do balcão do lado são melhores que estes, e se tudo isto não passa de uma lúxuria, ai jesus e se eles não queriam ter morrido e eu para aqui a apreciar cadáveres. Este é o ponto de viragem. Adorava comer camarões até hoje, descascá-los bem descascadinhos, tirar-lhes as patinhas moles primeiro, depois o invólucro duro do corpo e sugar as cabecinhas com cuidado para não tocar nos bigodes que podem picar. Logo no primeiro balcão, comecei a imaginar aquele grupo de bichos enterrados no gelo como se fossem uma grande família. Quantas gerações de camarões irei eu indiferentemente dizimar no estômago? Hum, aquele ali dos bigodes compridos tem aspecto de pai, o outro pequenino do canto foi o filho que não teve tempo de crescer, e aquele mais mole e afrouxado talvez seja o avô. Os mais brilhantes seriam as fêmeas pois está claro, olha aquela que bonita que era, devia ser galada pelo outro machão dos bigodaços compridos.
Andei mais um bocado pelo corredor estreito e comprido. Não comprei nada. O mercado estava para fechar e os vendedores começavam a reunir as famílias em caixas grandes de esferovite daquelas que parecem sempre sujas.
Levantei-me, gelada. Perguntei à minha avó o que estava a pensar fazer para o almoço: “ Massa com camarão e bróculo”. Tentei estabelecer uma lógica para tal coincidência, mas rapidamente fui invadida por um sentido prático da vida.
E se a fome apertar vou comê-los sim senhora, não posso ser hipócrita, logo eles que me sabem tão bem, ai pai mãe avó filho desculpem, afinal vocês se calhar nem são uma família porra, e sabe-se lá se sofreram ou não, também hão-de comer os outros que estão ao vosso lado, para além de já ter ouvido que sois uns necrófagos do pior e vos alimentais de qualquer resíduo orgânico que se encontre no mar, ou seja, o que vocês apreciam mesmo é um cadaverzito como nós, seus malandrecos.
Andei mais um bocado pelo corredor estreito e comprido. Não comprei nada. O mercado estava para fechar e os vendedores começavam a reunir as famílias em caixas grandes de esferovite daquelas que parecem sempre sujas.
Levantei-me, gelada. Perguntei à minha avó o que estava a pensar fazer para o almoço: “ Massa com camarão e bróculo”. Tentei estabelecer uma lógica para tal coincidência, mas rapidamente fui invadida por um sentido prático da vida.
E se a fome apertar vou comê-los sim senhora, não posso ser hipócrita, logo eles que me sabem tão bem, ai pai mãe avó filho desculpem, afinal vocês se calhar nem são uma família porra, e sabe-se lá se sofreram ou não, também hão-de comer os outros que estão ao vosso lado, para além de já ter ouvido que sois uns necrófagos do pior e vos alimentais de qualquer resíduo orgânico que se encontre no mar, ou seja, o que vocês apreciam mesmo é um cadaverzito como nós, seus malandrecos.
s/ título
“Recordar-se não é o mesmo que lembrar-se; não são de maneira nenhuma idênticos. Podemos muito bem lembrarmo-nos de um evento, rememorá-lo com todos os pormenores, sem por isso dele ter a recordação. A memória não é mais do que uma condição transitória da recordação: ela permite ao vivido que se apresente para consagrar a recordação. Esta distinção torna-se manifesta ao exame das diversas idades da vida. O velho perde a memória, que geralmente é de todas as faculdades a primeira a desaparecer. No entanto, o velho tem algo de poeta; a imaginação popular vê no velho um profeta, animado pelo espírito divino. Mas a recordação é a sua melhor força, a consolação que os sustenta, porque lhe dá a visão distante, a visão de poeta. (…) Os óculos dos velhos são graduados para ver ao perto; mas o jovem que tem de usar óculos, usa-os para ver ao longe; porque lhe falta o poder da recordação, que tem por efeito afastar, distanciar."
Soren Kierkegaard
Soren Kierkegaard
quinta-feira, março 13, 2008
patinhos
Não sei se por cepticismo ou preguiça, nunca fui grande entendida a política. Uma vergonha. Mas parece-me que quase todos os políticos nacionais têm qualquer coisa de aborrecido. A começar pela desastrosa coincidência de maior parte serem feios ou desinteressantes fisicamente. Torna-se chato ver constantemente homens (não me apetece falar de mulheres muito menos deputadas) de gravata congelada e timbre de garoto estudioso. Sem querer parecer arrogante e muito menos maternal, quase todos os eles me provocam um sentido de protecção inconveniente. Apetece-me dar-lhes miminhos nas suas carinhas de shrek, abraça-los orgulhosamente por saberem fazer contas e adverti-los que é muito feio mentir.
Drama em imensos f(actos)
Dores de cabeça, pois, a insónia, os ladrões carinhosos, os cigarros mentolados noite fora. Almoço com pena de estar sem fome para as sardinhas fritas da afurada. Alto, vem aí gritaria, a Júlia foi à rua comprar a revista “Caras” e regressa sobressaltada: “O dono da padaria de Gondarém, o médico, matou os irmãos todos e depois matou-se a ele. Corre perigos de vida.” Pelos vistos depois de morrermos, ainda temos que nos sujeitar aos mesmos riscos de quem está vivo. Ele há coisas. Era médico, mas matou os irmãos todos por dinheiro, Santo Deus, onde já se viu. Já toda a gente sabe. Aparece a Lé na sala, larga o pedal da velha Singer e junta-se à tertúlia. “ Ah, se calhar esse médico era aquele homem que eu vi a morrer no Santo António.”
O telemóvel da Júlia toca ininterruptamente, a Liliana quer saber se aconteceu alguma coisa ao Zé, ainda parente de seu marido e que trabalha na dita padaria, não vá ele ter sido atingido com uma bala perdida ou com uma baguete ressequida. Ainda conseguem ser bem duras. A Lé abre bem a boca mostrando orgulhosamente os dois dentes da frente que lhe sobram e reclama a veracidade dos factos, vai mas é perguntar tudo à Zeza que ela é que sabe. A minha avó abre a “Caras”, pergunta se a menina do balcão também morreu e relembra as bolas de berlim que "eram tão boas".
O telemóvel da Júlia toca ininterruptamente, a Liliana quer saber se aconteceu alguma coisa ao Zé, ainda parente de seu marido e que trabalha na dita padaria, não vá ele ter sido atingido com uma bala perdida ou com uma baguete ressequida. Ainda conseguem ser bem duras. A Lé abre bem a boca mostrando orgulhosamente os dois dentes da frente que lhe sobram e reclama a veracidade dos factos, vai mas é perguntar tudo à Zeza que ela é que sabe. A minha avó abre a “Caras”, pergunta se a menina do balcão também morreu e relembra as bolas de berlim que "eram tão boas".
quarta-feira, março 12, 2008
roubem tudo menos os sonhos
Descobri há poucos minutos na wikipedia (costumo ter uma insónia por ano, foi hoje) que ao dormir, os sentidos perdem-se pela seguinte ordem: visão, paladar, olfacto, audição e tacto. Mas não pensem os mais espertinhos que ao despertar será respeitada a dita fila indiana ao revés. Será então assim que acordarei amanhã de remelas penduradas nos olhos (a palavra "remela" é badalhoca) e por ordem de chegada: tacto, audição, visão, paladar e olfacto. Dizem eles que o tacto desperta ao mais leve toque sobre a pele. É o vigia do corpo adormecido. Claro está. Mas que chatice. Imagino-me agora submersa na imensidão deste silêncio a assaltarem-me a casa e eu a acordar só com a festinha do gatuno:
-"Menina, dá para levar umas coisinhas de sua casa?"
-"Dá sim senhor, desde que me deixe dormir em paz."
-"Menina, dá para levar umas coisinhas de sua casa?"
-"Dá sim senhor, desde que me deixe dormir em paz."
segunda-feira, março 10, 2008
sr. arrepiado
Hoje o lenço de seda molhou-se e encolheu. Os buracos da traça deixaram a água entrar pelo pescoço do velho e ele deixou-se ficar assim, parado, cheio de frio, arriscando a via dos condutores que tentam seguir a sua vida pelos pés escorregadios de tal burguês feitos de calçada granítica e trilhos deslizantes.
sexta-feira, março 07, 2008
quinta-feira, março 06, 2008
dor al dente
Dói-me um dente. Sinto-me rídicula. O dente que me dói já nem é dente, é um pedaço de qualquer coisa pendurado à gengiva, por isso sinto-me ainda mais idiota. Um resto de qualquer coisa que já nem é nada continua a incomodar-me. Absurdo. Curiosamente, é nestas alturas que me encho orgulhosamente de uma leve noção de poder, acreditando que ao beber uns copos de vinho tinto transformarei a raíz do meu dente numa pequena alma insignificante, embriagada e tonta.
felinos apagados
Sim, ele diz-se casado mas não me parece por plena vontade e desejo. Não sei até que ponto tenho direito de achar isto, mas bamos, isto da internet é meio esquizo, a gente até diz umas coisas e não se sabe de quem, nem quem existe, nem quem não existe. Voltando. Ele, de voz fina, “femifina”, pois, feminina mas sem o conseguir ser com a naturalidade de uma mulher, diz-me sem eu lhe perguntar nada: “ Já faz 16 anos que eu comecei a namorar para a minha esposa”. Assim, naquela garagem semi-escura como as garagens costumam ser, e eu a tentar ler na penumbra o que traz estampado na t-shirt preta ainda mais escura. Já consegui, a vermelho, assim, e a explodir dos peitos, a frase: “ Wild at heart”. E enquanto penso no coração têxtil do Alberto, a Dona Amélia queixa-se que está a fazer fisioterapia à cervical porque que deu um “jeito”. Um jeito que não deu jeito portanto, todas as línguas têm os seus processos paradoxais. Reparo que pintou o pouco cabelo que lhe resta de um roxo difícil de aturar, e as unhas roídas de vermelho tipo sangue de ferida no jardim infantil. Ao fim de alguns anos de suspeitas, começa a agradar-me esta dependência quase física que as mulheres têm da cor - as bases que tornam as caras castanhas no inverno, os lápis que disfarçam as olheiras, os vernizes que cobrem a transparência das unhas, as tintas que escondem as brancas. Considero este recurso à maquilhagem um acto criativo, com o devido factor de falsidade que é intrínseco aos caminhos da imaginação. O Alberto continua escuro e imóvel de coração selvagem cosido ao peito. Dona Amélia, ensine-lhe umas coisas.
ballad of big júlio
“Há dias que são só de dúvidas” diz o Sr. Júlio enquanto me faz a sandes de salpicão. Começo a duvidar se não deveria dedicar inteiramente o meu blog à observação deste senhor, sábio de mãos e memória, que por me parecer ter duvidado mais do que eu ao longo de todos estes anos de vida, duvido que tenha chegado a conclusões tão vagas quanto as minhas presentes.
segunda-feira, março 03, 2008
am(p)or(to)
Se o Porto fosse alguém era um velho de cabelo cinzento e duro, com um certo charme e lenço de seda ao pescoço atacado pela traça. Simpático mas teimoso. Daquelas pessoas com manias muito peculiares que só fazem rir os que não têm que conviver com ele diariamente. Sim, teimoso, talvez chato, talvez seco, inflexivel, coração granítico, pernas cheias de varizes, e de vez em quando uma maquilhagem que tenta esconder as entranhas envelhecidas. Tinha um negócio que já deu muito mas já não dá. Olhos claros, água, muita água, às vezes sujos, os olhos tão sujos com tantos outros (talvez também sujos) a olhar para eles, a vivê-los e a amá-los porque se diz que um é feito de ouro e outro de sal. Que terrível paixão tenho por esse velho que não me larga, esse manhoso que me faz sempre voltar, esse queixoso que entrega toda a gente à lamúria, esse cínico que ainda não percebi se também gosta de mim, esse tio avô solteiro que me oferece chocolates imperial no natal.
pêlos pouco mediáticos
A minha esteticista enquanto me arrancava animadamente os pêlos da raiz, contou que a naomi campbell estava no brasil e teve que ser operada de urgência. Tadinha. Os jornalistas ainda não sabem a quê, mas parece ser qualquer problema da parte abdominal.
Falava dela com um ar tão sério e familiar, que por momentos desconfiei que a top model era sua cliente e já tinha estado deitada naquela marquesa onde sofro volta e meia. Até se referiu à fulana como "a naomi", seguramente considerando que dizer "campbell" seria uma redundância.
Sem querer subir na tabela das preferências pessoais da esteticista cristina, agradar-me-ia que perguntasse se me estava a fazer doi doi em vez de falar da parte abdominal da outra. Assustam-me estas amizades criadas no papel foleiro da nova gente, como se fosse a naomi e não eu que lhe confiasse as entranhas da minha epiderme.
Falava dela com um ar tão sério e familiar, que por momentos desconfiei que a top model era sua cliente e já tinha estado deitada naquela marquesa onde sofro volta e meia. Até se referiu à fulana como "a naomi", seguramente considerando que dizer "campbell" seria uma redundância.
Sem querer subir na tabela das preferências pessoais da esteticista cristina, agradar-me-ia que perguntasse se me estava a fazer doi doi em vez de falar da parte abdominal da outra. Assustam-me estas amizades criadas no papel foleiro da nova gente, como se fosse a naomi e não eu que lhe confiasse as entranhas da minha epiderme.
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
papás e mamãs
Se voltasse a ser criança, ficaria ofendidíssima se os meus pais ao tentarem mostrar-me o que é uma complexa rede linguística, me dissessem doi doi em vez de ferida, popó em vez de carro, miau miau em vez de gato, ou tau tau em vez de "dou-te já uma coça".
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
li verdade
"Os apetites são ou naturais e necessários, como o beber e comer; ou naturais e não necessários, como a intimidade com as mulheres; ou não são nem naturais, nem necessários: desta última espécie são quase todos os dos Homens; são todos supérfluos e artificiais, pois é admirável quão pouco é necessário à natureza para se contentar, quão pouco ela nos deixou para desejar."
Michel de Montaigne, in Ensaios
Michel de Montaigne, in Ensaios
terça-feira, fevereiro 26, 2008
é de gente
Hoje sonhei que fui invadida por pessoas. Logo eu, que gosto tanto delas. Era uma praga de gente, quanto mais seres humanos via mais eu desesperava. Que horror. Eles e elas a invadirem os meus espaços físicos, mentais, emocionais, assim, gente por todo o lado em mim, eu tão esbatida no meio desse excesso de almas, se calhar não eram almas, eu sem saber como lhes dar um pontapé, sim, um pontapé bem dado no rabinho de cada invasor, era o que eles mereciam.
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
é de mundo
A Júlia contou-me que o filho da ex-amante do marido morreu atropelado pelo metro. Apareceu lá em casa de recorte de jornal em punho e fui praticamente obrigada a ler a notícia de tal desgraça. Não se mostrou muito comovida pela morte do pequeno Edmundo, e mantinha uma cara séria que me pareceu previamente planeada. Pelos vistos mãe e filho viviam umas portas acima da dela. Perguntei-lhe se tinha ido ao funeral ao que ela respondeu imediatamente que não, mas a minha irmã foi e ninguém achou bem na família.
Pelos vistos a Júlia considera a mulher que lhe meteu as cornetas a verdadeira culpada de tal infidelidade. Pior. Ela própria se responsabiliza pelo delito sexual cometido por Nelo + Vizinha.
Eu trabalhaba noite e dia, chegaba a casa às tantas da madrugada, não lhe daba atençon, olhe, e ela ali a ligar-lhe, e ele, e ele, prontus, coitado do Nelo, olhe sabe como é que são os homens, assim sem a atençon da isposa, prontus, ela é que debia ter mantido a postura, a baca.
Gosto imenso do Nelo, conheço-o desde pequena e não me dizem respeito os seus devaneios nocturnos. Mas não consigo aceitar esta ordem de ideias e valores. Tentei mostrar-lhe, em vão, que todo o ser humano (homens solitários ou carentes incluídos) é livre para tomar certas opções. E que houve certamente um momento em que o Nelo pode decidir entre ficar em casa ou tocar numa das campainhas acima da sua.
Pelos vistos a Júlia considera a mulher que lhe meteu as cornetas a verdadeira culpada de tal infidelidade. Pior. Ela própria se responsabiliza pelo delito sexual cometido por Nelo + Vizinha.
Eu trabalhaba noite e dia, chegaba a casa às tantas da madrugada, não lhe daba atençon, olhe, e ela ali a ligar-lhe, e ele, e ele, prontus, coitado do Nelo, olhe sabe como é que são os homens, assim sem a atençon da isposa, prontus, ela é que debia ter mantido a postura, a baca.
Gosto imenso do Nelo, conheço-o desde pequena e não me dizem respeito os seus devaneios nocturnos. Mas não consigo aceitar esta ordem de ideias e valores. Tentei mostrar-lhe, em vão, que todo o ser humano (homens solitários ou carentes incluídos) é livre para tomar certas opções. E que houve certamente um momento em que o Nelo pode decidir entre ficar em casa ou tocar numa das campainhas acima da sua.
gravidezes
Reparei que o Sr. Júlio faz festinhas na própria barriga enquanto fala de expressões algébricas e metalurgia. Quando se cansa do movimento, cruza as maõs secas e pousa-as paternalmente nesse excesso avolumado de si mesmo, onde talvez começe uma nova vida, embrião alimentado a tripas e vinho verde.
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
hora do almoço
Há dias em que ficava eternamente a observar baratas ou pessoas sentada numa poltrona daquelas que nos sugam o cú.
Bebia um chá, e assistia serenamente à luta entre o peso na consciência por não estar a fazer nada versus a felicidade de poder exceder os limites da inércia.
Vou já sair de casa.
Bebia um chá, e assistia serenamente à luta entre o peso na consciência por não estar a fazer nada versus a felicidade de poder exceder os limites da inércia.
Vou já sair de casa.
terça-feira, fevereiro 19, 2008
não se deve matar só porque é barato.
Já sabia que havia baratas na cozinha da minha avó. Mas ainda não percebi se me incomodam ou não.
Há uns anos houve uma praga gigante e a gente teve toda que fugir lá de casa que nem medricas asseados. Coitadinha da minha avó, acho que não tem idade para pegar no "necessaire" por causa de uma colónia de insectos, mas teve que ser. Pelos vistos dizem que são porcalhonas. A mim não me metem grande nojo, nem sequer as tento matar a meio da noite quando me levanto cheio de sede e as vejo que nem domingueiras a passearem-se pelos balcões. Depois, mal acendo a luz, transformam-se em pequenas vanessas fernandes frenéticas. Curto observar a metamorfose.
Não sei que faça com elas, mas irrita-me serem "baratas". Acho o nome pejorativo. Como se fossem pouco caras, vulgares, a verdadeira pechincha que Deus criou, os saldos Outono-Inverno da Natureza.
Há uns anos houve uma praga gigante e a gente teve toda que fugir lá de casa que nem medricas asseados. Coitadinha da minha avó, acho que não tem idade para pegar no "necessaire" por causa de uma colónia de insectos, mas teve que ser. Pelos vistos dizem que são porcalhonas. A mim não me metem grande nojo, nem sequer as tento matar a meio da noite quando me levanto cheio de sede e as vejo que nem domingueiras a passearem-se pelos balcões. Depois, mal acendo a luz, transformam-se em pequenas vanessas fernandes frenéticas. Curto observar a metamorfose.
Não sei que faça com elas, mas irrita-me serem "baratas". Acho o nome pejorativo. Como se fossem pouco caras, vulgares, a verdadeira pechincha que Deus criou, os saldos Outono-Inverno da Natureza.
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
especialistas
"O que precisamos fazer é arranjar casamentos, ou melhor, trazer de volta ao seu estado original de casados os diversos departamentos do conhecimento e das emoções, que foram arbitrariamente separados e levados a viver em isolamento nas suas celas monásticas. Podemos parodiar a Bíblia e dizer: "Que o homem não separe o que a natureza juntou"; não permitamos que a arbitrária divisão académica em disciplinas rompa a teia densa da realidade, transformando-a em absurdo."
Aldous Huxley, in 'A Situação Humana'
Aldous Huxley, in 'A Situação Humana'
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
são quê?

Não sei se estou a ficar outra vez adolescente ou se nunca o deixei de ser, mas ultimamente o meu sentido de crítica tem aguçado consideravelmente. Achar toda a gente palerma, querer mudar o mundo e coisa e tal.
Não consigo perceber o dia dos namorados. Acho fraco. Cansa-me saber que existe um dia onde há gente a oferecer swatchs ao seu mais que tudo. Já para não falar de peluches, que eu considero um atentado à higiene mental e nasal de qualquer individuo que se preze. Quando era pequenina gostava de ursos, mas não eram tão peludos quanto os de agora.
Fui comer sushi com uns amigos, neste tal dia do valentino. Óbvio que o restaurante estava cheio de casais, uns mais entusiasmantes que outros.
Há muito que já não mando nos meus olhos e quando reparo, estou colada na mulher da mesa ao lado. Esta fulana de meia idade andava a espalhar más vibrações por todo o restaurante (era pequeno o que se torna perigoso). Tinha a bicanca afiada, o cabelo imóvel cortado pela orelha, e estava com um sobretudo cinzento que manteve enfiado durante todo o jantar.
Tinha os olhos muito juntos que emanavam do centro a palavra "frete", e na ponta descaíam ligeiramente, de cadelinha marota. Passou o jantar assim. E de cada vez que pegava nos pauzinhos, eu temia a saúde do marido.
No final, quando se levantaram para pagar ouvi o dono do restaurante a dizer: "Tome um cêgripe que isso passa".
Onde isto já chegou. Agora, mesmo com gripe, esta gente continua a achar giro celebrar um santo que não se lhe conhece a cara, mas que nos invade as montras uma vez por ano com corações vermelhos feitos de plástico.
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
razão e medida
Entro na tasca. Esta lá sr. Júlio sozinho e cumprimenta-me com os seus olhos semi-estrábicos e esbugalhados do vinho. A sra. Elisa adoeceu da vesícula e faz-me falta. Há um banco vazio atrás do balcão, onde ela costumava sentar-se que nem rainha à espera de clientes.
Olho para o presunto pendurando no tecto e parece-me o mesmo desde a minha primeira meia de leite. Gosto daquele presunto ali, um monte de carne inerte decorada a facadas incertas.
O sr. Júlio começa a falar do tempo em que se pagavam as coisas com feijões e ovos, e eu pergunto se quer que eu lhe traga grão de bico em vez de cinquenta cêntimos para pagar o descafeinado. Ele ri-se. E quando se ri assim, eu sinto-me invadida por aqueles olhos que entortam a cada gargalhada, e saiem de onde estavam tão quietos. Depois ensina-me palavras novas. Explica-me o que é uma padieira, que um alqueire de milho são 18 quilos e que razão é o rolo da massa com que se passa por cima deste. Divaga em números, medidas, quilos, metades, quartos e oitavos. Eu anoto o vocabulário novo num caderno vermelho e digo-lhe que ele deve perceber muito de matemática, ao que ele responde: "Se a menina quiser, resolvo-lhe já aqui uma expressão algébrica". Agradeço-lhe a dignidade e a ortografia. Antes de sair, acaba a aula dizendo: "A menina devia-se dedicar a estas coisas antigas. Estas coisas antigas têm valor, sabia?"
Olho para o presunto pendurando no tecto e parece-me o mesmo desde a minha primeira meia de leite. Gosto daquele presunto ali, um monte de carne inerte decorada a facadas incertas.
O sr. Júlio começa a falar do tempo em que se pagavam as coisas com feijões e ovos, e eu pergunto se quer que eu lhe traga grão de bico em vez de cinquenta cêntimos para pagar o descafeinado. Ele ri-se. E quando se ri assim, eu sinto-me invadida por aqueles olhos que entortam a cada gargalhada, e saiem de onde estavam tão quietos. Depois ensina-me palavras novas. Explica-me o que é uma padieira, que um alqueire de milho são 18 quilos e que razão é o rolo da massa com que se passa por cima deste. Divaga em números, medidas, quilos, metades, quartos e oitavos. Eu anoto o vocabulário novo num caderno vermelho e digo-lhe que ele deve perceber muito de matemática, ao que ele responde: "Se a menina quiser, resolvo-lhe já aqui uma expressão algébrica". Agradeço-lhe a dignidade e a ortografia. Antes de sair, acaba a aula dizendo: "A menina devia-se dedicar a estas coisas antigas. Estas coisas antigas têm valor, sabia?"
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
terça-feira, fevereiro 12, 2008
last news about familia com chamadas de graça
A Júlia veio informar-me que o homem da cabine trabalha no restaurante chinês lá da senhora da luz. Afinal foi precipitado chamar-lhe de machista. Pelos vistos as mulheres trabalham na loja e os homens fritam crepes. A loja, à qual eu chamei improvisadamente de "hao-hua" porque me pareceu um nome credível, tem um tolde vermelho a dizer "loja das lojas". Entre a ourivesaria sousa e o morgado sobrinho, a família decidiu que o seu estabelecimento era o melhor da rua. Gosto desta frontalidade desmedida.
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
o mistério da cabine
Todas as noites, ao lado de casa da minha avó, está um chinês a falar numa cabine telefónica. Isto começa a provocar-me uma curiosidade mórbida. Será que estão a falar
à pala para a China ou a encomendar artigos dos armazéns da Varziela?
Não é sempre o mesmo homem lá dentro. Ora um velho, ora um jovem. Devem revezar-se (acho que nunca tinha escrito a palavra "revezar").
Estava eu a ir para o Bonaparte e ouço uma voz histérica vinda da cabine. Reparo que é o chinês do costume. Cá para mim ele pertence à loja hao-hua ali ao lado onde costumo comprar ganchos para o cabelo, embora só tenha visto mulheres a trabalhar lá dentro. A família de chineses da rua senhora da luz deve ser meia machista. Já desconfiava.
Regresso do Bonaparte. Venho contente depois de algumas cervejas e cigarros legais.
Talvez tenham passado duas horas.
E ele ainda lá, com a sua voz aguda e penetrante falando esse mandarim que por momentos me apeteceu entender.
à pala para a China ou a encomendar artigos dos armazéns da Varziela?
Não é sempre o mesmo homem lá dentro. Ora um velho, ora um jovem. Devem revezar-se (acho que nunca tinha escrito a palavra "revezar").
Estava eu a ir para o Bonaparte e ouço uma voz histérica vinda da cabine. Reparo que é o chinês do costume. Cá para mim ele pertence à loja hao-hua ali ao lado onde costumo comprar ganchos para o cabelo, embora só tenha visto mulheres a trabalhar lá dentro. A família de chineses da rua senhora da luz deve ser meia machista. Já desconfiava.
Regresso do Bonaparte. Venho contente depois de algumas cervejas e cigarros legais.
Talvez tenham passado duas horas.
E ele ainda lá, com a sua voz aguda e penetrante falando esse mandarim que por momentos me apeteceu entender.
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
o sentido sem sentido

Hoje, durante a minha caminhada matinal tentei fechar os olhos e andar um bocado sem ver. Conheço aquela avenida desde pequenina, é sempre em frente, banda sonora marítima, nada que saber.
Toda a gente já fez isto uma vez ou outra, mas não sei como é que se costumam safar. Eu sou uma perra.
Não podia vir ninguém contra mim, nem vivalma no passeio, e os ciclistas desviam-se sempre tão rápido quanto aparecem.
Um segundo, dois, três, talvez quatro, perna firme, cabeça levantada, mas isto assim não dá - e abro os olhos num impulso quase desesperado.
Tento outra vez, novamente os olhos a despertarem incontrolavelmente.
Oh maria mas estás com medo de quê? O mar continua ali, o passeio não vai fugir e tu vais chegar a casa só um bocado mais tarde.
Pensei no "ensaio sobre a cegueira" de Saramago.
E percebi que se na vida tiver sempre medo de fechar os olhos e seguir em frente, estou completamente lixada.
terça-feira, fevereiro 05, 2008
just like a man
O meu irmão fez ontem 18 anos e ofereceram-lhe um cd do bob dylan.
Afinal este blog sempre serve para alguma coisa.
Viva a família Vasquez.
(durante a festa comovi-me ao vê-lo genuinamente bêbado e comecei a achar chato categorizá-lo de "pseudo-irmão")
Afinal este blog sempre serve para alguma coisa.
Viva a família Vasquez.
(durante a festa comovi-me ao vê-lo genuinamente bêbado e comecei a achar chato categorizá-lo de "pseudo-irmão")
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
ballad of a human being
"Ética é estarmos à altura do que nos acontece."
Gilles Deleuze
Saltitava de blog em blog e encontrei esta frase. Tão certa. Tão curta.
Fiquei sem vontade de escrever.
E tornou-se inevitável fazer um copy paste.
Gilles Deleuze
Saltitava de blog em blog e encontrei esta frase. Tão certa. Tão curta.
Fiquei sem vontade de escrever.
E tornou-se inevitável fazer um copy paste.
quarta-feira, janeiro 30, 2008
não lavo mais a loiça

Hoje, outra vez.
Eu na cozinha a lavar os pratos com restos de lulas guizadas.
E música a sair do quarto do meu pseudo-irmão e a entrar-me nos ouvidos, nos olhos ainda com gordura, nas mãos feitas de fairy.
Não, não era a Laura Pausini.
Umas flautas abafadas.
Uma versão estranha de uma música qualquer conhecida.
Ai, não.
Não pode ser.
Com todo o respeito por música tradicional e étnica,
aquilo era mesmo o pior dos Pan Pipes.
sexta-feira, janeiro 25, 2008
serei eu do tamanho das minhas botas?
Hoje, numa sapataria, ouvi uma voz pequena e orgulhosa a dizer:
"Olha mãe, já sou mais alto que o espelho".
(os espelhos das sapatarias também não deviam ser tão pequenos, como se para comprar sapatos deixássemos de ser um todo e nos reduzíssemos a pés chularentos)
Lembrei-me de Fernando Pessoa que dizia "porque sou do tamanho que vejo e não do tamanho da minha altura", mas rapidamente senti que o pensamento às vezes nos torna grandes mas secos. Depois olhei novamente para o rapazinho, reparei no seu reflexo segmentado, ri-me com ele, deitei um olhar cúmplice à mãe, esqueci Fernando Pessoa, e saí feliz da loja.
"Olha mãe, já sou mais alto que o espelho".
(os espelhos das sapatarias também não deviam ser tão pequenos, como se para comprar sapatos deixássemos de ser um todo e nos reduzíssemos a pés chularentos)
Lembrei-me de Fernando Pessoa que dizia "porque sou do tamanho que vejo e não do tamanho da minha altura", mas rapidamente senti que o pensamento às vezes nos torna grandes mas secos. Depois olhei novamente para o rapazinho, reparei no seu reflexo segmentado, ri-me com ele, deitei um olhar cúmplice à mãe, esqueci Fernando Pessoa, e saí feliz da loja.
quarta-feira, janeiro 23, 2008
hum...
"Todos os acasos da nossa vida são materiais de que podemos fazer o que quisermos. Quem possui muito espírito faz muito da sua vida - cada tomada de conhecimento, cada acontecimento seria para ele inteiramente espiritual - um primeiro membro de uma série infinita, o início de um romance infinito."
Friedrich von Novalis, in 'Fragmentos'
Friedrich von Novalis, in 'Fragmentos'
terça-feira, janeiro 22, 2008
auto de fé

Irritam-me certas formalidades.
Ontem estava a entrar na bomba da galp da boavista a falar ao telémovel. Já sei que é perigoso, já sei que é proibido, já sei que põe em risco a segurança da via pública - e por isso é raríssimo fazê-lo. Mas quando reparei estava um bando de polícias à minha esquerda a tomar café e a fumar. O chefe olhou para mim e chamou-me.
-"A menina pode ser autuada, e a coima é de 120 euros. Para além de não poder estar ao telemovel enquanto conduz, também não o pode fazer numa bomba de gasolina. Faz interferência."
- "Ai, o quê? Não me diga...pensei que podia...desculpe, estava distraída, até pensei que se estava a rir para mim..."
- "Menina, é proibido tudo o que possa interferir com a segurança a nível da condução. Outro dia um colega meu até autuou uma senhora que se ia a assoar na VCI."
Pensei que a única solução era rir-me. Rir-me dele que também não devia estar a fumar numa bomba, de mim, do ranho da pobre coitada, das possiveis explosões por interferência do meu nokia, e acima de tudo das palavras "autuada" e "coima". Mas porquê é que eles me vêm sempre com este paleio todo?
Eu não quero ser autuada e muito menos efectuar o pagamento de uma coima. Quero ser multada e pagar uma multa, no máximo.
No final, eu perguntei se ele me podia perdoar. O chefe disse: "Perdoar não perdoo, mas esqueço." Mas que falta de vocabulário sr. agente, seria muito mais interessante se tivesse dito que não me podia absolver mas que iria olvidar. Esquecer deve ser só para burros.
segunda-feira, janeiro 21, 2008
"Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidos. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fossem pessoas vivas."
Agustina Bessa-Luís, in 'Antes do Degelo'
Agustina Bessa-Luís, in 'Antes do Degelo'
quinta-feira, janeiro 17, 2008
quarta-feira, janeiro 16, 2008
festival de pó celeste

Ontem fui a um concerto de harpa no salão árabe do palácio da bolsa.
A sala cheirava a casaco de peles com pouco uso, a pó de arroz que esteve na gaveta e a perfume deixado de fabricar. Da minha idade quase ninguém. Alguns velhotes não resistiram até ao fim e foram tirando a sua soneca. Mas aquelas senhoras, essas, mantinham a postura, de peles rugosas e maquilhadas, cabelos bem armados, tentando dignamente que as suas costas se alinhassem com a verticalidade das cadeiras.
Às vezes, os homens, parecem-me tão mais reais que as mulheres.
Entre o som etéreo das harpas e o princípio de um ressonar - eu não sabia decidir qual era o mais perfeito.
quinta-feira, janeiro 10, 2008
"Do meu pai recebi desde menino uma imprudente
Forma de receber as frases que nos dizem: não esperar
Por elas numa cadeira, mas saltar em redor, eis
Um método que não era método porque era instinto:
Ouvir a frase de todos os pontos de vista,
Como se a linguagem depois de dita
Fosse uma matéria que permanecesse no ar,
E nós, animais representantes do diabo, à sua volta,
Tornássemos visível o que ela queria esconder:
A frase tentava exibir o rosto bem maquilhado
E nós apontávamos a sua roupa íntima,
As borbulhas deselegantes, a sua fealdade e a sua falsidade."
Forma de receber as frases que nos dizem: não esperar
Por elas numa cadeira, mas saltar em redor, eis
Um método que não era método porque era instinto:
Ouvir a frase de todos os pontos de vista,
Como se a linguagem depois de dita
Fosse uma matéria que permanecesse no ar,
E nós, animais representantes do diabo, à sua volta,
Tornássemos visível o que ela queria esconder:
A frase tentava exibir o rosto bem maquilhado
E nós apontávamos a sua roupa íntima,
As borbulhas deselegantes, a sua fealdade e a sua falsidade."
terça-feira, janeiro 08, 2008
não fumadores ou não fumadores
Hoje durante uma caminhada pela baixa, reparei que todas as lojas - seja do que for - têm agora um papel vermelho a dizer que não se pode fumar. Tentei lembrar-me de alguma vez em que estive na Zara a provar um vestido enquanto fumava uma cigarrada. Senti-me um pouco perseguida por esta papelada proibitiva e achei-a totalmente despropositada. Nós não somos estúpidos. Qualquer dia por lei ainda teremos que ver anunciado na porta de todas as lojas papéis vermelhos a dizer "não é permitido roubar" ou "proibido cagar no chão".
segunda-feira, janeiro 07, 2008
70 euros para o inimigo
Algumas oficinas são centros de metafísica. O Sr. Manuel mete qualquer Platão no bolso.
Ora bem, hoje foi a vez do polo começar a fazer barulhos estranhos vindos do além, juntamente com uma luzinha vermelha do óleo que piscava freneticamente. Pois, devo ter que encher aquela coisa com óleo e ele pára de grunhir, pensei. Parei na repsol da marginal e vejo um homem de fato macaco a roer animadamente uma daquelas coisas "tipo colher" que nos dão nas bombas para mexer o café. O roedor era bem simpático e ajudou-me em todo o processo. Pois bem, boto primeira em direccção à baixa e aquela merda a apitar outra vez. Hum, então afinal não era do óleo. Porra.
Tentei disfarçar que aquela luz não é vermelha nem está a apitar - às vezes a força da mente resulta - mas nada.
Resolvi então ir a uma oficina onde já tinha ouvido falar que a mecânica chefe era uma tal de Carla.
" - Boa tarde, a Carla está?
- Não menina, só deve chegar lá para as três e meia.
- Hum, então o senhor talvez me possa ajudar. O meu carro está prestes a explodir e eu quero evitar explodir com ele. A luz do óleo apita, o motor faz um barulho estranho, o carro vai abaixo repentinamente e quando travo é uma chiadeira dos diabos. Pode arranjá-lo?
- Isso pode ser muita coisa. Não sei o que é. Estamos em obras. Até pode ser da vela. Ou pode ter que fazer uma revisão. Mas nós não sabemos quando é que podemos fazer-lhe a revisão. A menina marque. Talvez possa deixá-lo aqui amanhã. Mas quer deixar hoje? É uma questão de marcar. Mas isso eu não sei o que é. Nós não temos aqui as peças, temos que mandar vir. Não sei por quanto tempo tem que ficar a arranjar, isso tem que se ver."
Percebi que com o Sr. Manuel não ia a lado nenhum.
- Olhe, então eu só preciso de saber se acha que eu posso andar com ele hoje, se isto não me vai gripar, se eu não vou explodir juntamente com o carro.
- Isso não sei menina, ele andar anda."
E andou mesmo. Dirigi-me a outra oficina, a do Sr. Zé Manel.
Relato o meu pequeno drama.
" - Menina, tem que mudar o filtro do óleo, limpar a borboleta e verificar os calços do travões. Fica-lhe à volta dos 70 euros, deve estar pronto ao fim da tarde e nós ligamos-lhe para vir buscá-lo."
Desculpe Sr. Manuel, mas gente prática é outra coisa. E eu a pensar que gostava tanto de filosofia.
Ora bem, hoje foi a vez do polo começar a fazer barulhos estranhos vindos do além, juntamente com uma luzinha vermelha do óleo que piscava freneticamente. Pois, devo ter que encher aquela coisa com óleo e ele pára de grunhir, pensei. Parei na repsol da marginal e vejo um homem de fato macaco a roer animadamente uma daquelas coisas "tipo colher" que nos dão nas bombas para mexer o café. O roedor era bem simpático e ajudou-me em todo o processo. Pois bem, boto primeira em direccção à baixa e aquela merda a apitar outra vez. Hum, então afinal não era do óleo. Porra.
Tentei disfarçar que aquela luz não é vermelha nem está a apitar - às vezes a força da mente resulta - mas nada.
Resolvi então ir a uma oficina onde já tinha ouvido falar que a mecânica chefe era uma tal de Carla.
" - Boa tarde, a Carla está?
- Não menina, só deve chegar lá para as três e meia.
- Hum, então o senhor talvez me possa ajudar. O meu carro está prestes a explodir e eu quero evitar explodir com ele. A luz do óleo apita, o motor faz um barulho estranho, o carro vai abaixo repentinamente e quando travo é uma chiadeira dos diabos. Pode arranjá-lo?
- Isso pode ser muita coisa. Não sei o que é. Estamos em obras. Até pode ser da vela. Ou pode ter que fazer uma revisão. Mas nós não sabemos quando é que podemos fazer-lhe a revisão. A menina marque. Talvez possa deixá-lo aqui amanhã. Mas quer deixar hoje? É uma questão de marcar. Mas isso eu não sei o que é. Nós não temos aqui as peças, temos que mandar vir. Não sei por quanto tempo tem que ficar a arranjar, isso tem que se ver."
Percebi que com o Sr. Manuel não ia a lado nenhum.
- Olhe, então eu só preciso de saber se acha que eu posso andar com ele hoje, se isto não me vai gripar, se eu não vou explodir juntamente com o carro.
- Isso não sei menina, ele andar anda."
E andou mesmo. Dirigi-me a outra oficina, a do Sr. Zé Manel.
Relato o meu pequeno drama.
" - Menina, tem que mudar o filtro do óleo, limpar a borboleta e verificar os calços do travões. Fica-lhe à volta dos 70 euros, deve estar pronto ao fim da tarde e nós ligamos-lhe para vir buscá-lo."
Desculpe Sr. Manuel, mas gente prática é outra coisa. E eu a pensar que gostava tanto de filosofia.
sexta-feira, janeiro 04, 2008
xô palavrões
Estava agora a reler o que escrevo e reparei que estou a ficar muito malcriada.
Vou começar a escrever coisas suaves e bonitas outra vez.
(se é que alguma vez escrevi coisas suaves e bonitas, mas acho que sim)
Vou começar a escrever coisas suaves e bonitas outra vez.
(se é que alguma vez escrevi coisas suaves e bonitas, mas acho que sim)
quarta-feira, janeiro 02, 2008
a culpa nem sequer é minha
Não percebo o que é que há entre mim e o meu carro. Não vibro com aquele gajo. Ligo-me a qualquer merdice, custa-me deitar a escova de dentes fora ao final de alguns meses de uso. Mas o meu polo, porra, o meu polo não me curte.
Para além de já ter tido dois mini acidentes (culpa dele claro), de ter atraído um gang de polícias na marginal, e de me dar vontade de fumar um maço de sg mentol cada vez que entro nele - hoje foi a vez de se por a fazer peões numa rotunda. Oh que canudo. Estava eu a contornar a anémona de matosinhos que está prestes a transformar-se num olho do cú gigante (a rede está decadente), e aquela coisa começa a derrapar. Senti-me naquelas chávenas gigantes da feira popular que dão voltas e mais voltas. Foram praí três. Quando o polo decide parar, ficou de cú virado para o mar. Que chic é o gajo. Reparei que por intervenção dos autocolantes de deuses indianos que me acompanham sempre nas janelas, não havia nem um carro na rotunda. Ninguém viu sequer. Era meio dia. Entretanto, com o embate, subi uma merda qualquer de granito - tipo separador de faixas - que me impedia de sair dali. Fiquei presa. Primeira e nada.
Aparece um homem com ar de tio da foz, um ser bondoso que reparou em mim. Ou um "tipo civilizadíssimo" como diriam algumas pessoas da minha família. E no meio daquela chuva imensa, depois daquelas voltas que pareceram nunca acontecer, o tio mete primeira e tira-me facilmente o carro dali. O gajo comigo queria era ficar de cú virado para o mar. Ai o traiçoeiro.
Para além de já ter tido dois mini acidentes (culpa dele claro), de ter atraído um gang de polícias na marginal, e de me dar vontade de fumar um maço de sg mentol cada vez que entro nele - hoje foi a vez de se por a fazer peões numa rotunda. Oh que canudo. Estava eu a contornar a anémona de matosinhos que está prestes a transformar-se num olho do cú gigante (a rede está decadente), e aquela coisa começa a derrapar. Senti-me naquelas chávenas gigantes da feira popular que dão voltas e mais voltas. Foram praí três. Quando o polo decide parar, ficou de cú virado para o mar. Que chic é o gajo. Reparei que por intervenção dos autocolantes de deuses indianos que me acompanham sempre nas janelas, não havia nem um carro na rotunda. Ninguém viu sequer. Era meio dia. Entretanto, com o embate, subi uma merda qualquer de granito - tipo separador de faixas - que me impedia de sair dali. Fiquei presa. Primeira e nada.
Aparece um homem com ar de tio da foz, um ser bondoso que reparou em mim. Ou um "tipo civilizadíssimo" como diriam algumas pessoas da minha família. E no meio daquela chuva imensa, depois daquelas voltas que pareceram nunca acontecer, o tio mete primeira e tira-me facilmente o carro dali. O gajo comigo queria era ficar de cú virado para o mar. Ai o traiçoeiro.
sábado, dezembro 29, 2007
esclarecimentos aos leitores que me restam
Ontem ouvi certas críticas à forma "leve" como descrevi o julgamento, anunciando vislumbres de nova irresponsabilidade. Que lata que eu tenho - sou apanhada com um 1,9 de alcool no sangue, e no final ainda me ponho a gozar os agentes da polícia em vez de dar graças aos céus por ter sido absolvida. Pois, falando na esfera do real, é óbvio que reconheço o meu erro, e é mais do que óbvio que tive uma sorte do caneco. Mas isto é um bloguezito de merda, um espaço virtual onde deposito sonhos, deliríos ou caprichos. E que piada teria escrever sobre os males da minha consciência? Pronto, vou confessar-vos: o meu coração por algumas semanas tornou-se frágil como um copo do ikea, duro que nem a estrada onde pelos vistos andei aos "esses" sem reparar, medricas que nem lareira à chuva. Mas isto são assuntos chatos, parece-me. Estou arrependida, sim, estou. Sei que tive sorte, sim, sei. Mas também sei que a chefe Manuela é mal cheirosa, e que as alegações finais tanto da minha advogada como do ministério público, pouco falaram da dona Maria Sottomayor. Acreditem ou não, os protagonistas foram mesmo os senhores agentes.
domingo, dezembro 23, 2007
o julgamento - pormenores de uma chefe chocante
A chefe Manuela para além do seu perfume e baton desprezíveis, também tinha os olhos carregados de risco preto daquele que parece nunca mais sair, e madeixas mal feitas. Via-se tão bem aquela raíz preta que começava despreocupadamente a nascer, acusando as pontas loiras e secas da sua tamanha artificialidade. Apesar de toda a sua idiotice e de usar produtos de maquilhagem insultuosos, a chefe tinha uns olhos que se podem considerar bonitos. Gosto de olhos que falem de qualquer coisa, que nos dêm festinhas ou que nos mandem para o caralho, mas que falem. Os dela mandavam-me para o caralho.
A Juíza para a chefe Manuela:
- "Lembra-se da arguida?"
A chefe olha para o lado com queles olhos pretos tipo azeitona prontos a espichar azeite para cima de mim e diz:
- "Perfeitamente".
Que contente que ela estava por se lembrar de alguém como eu, uma imbecil distraída que se esquece de contar os copos que bebe.
Depois lá se pôs a contar a sua versão sobre aquela noite, começando por dizer que já trabalha há 27 anos naquela esquadra. Que maneira pobre de começar um discurso, como se os anos de serviço fossem encobrir todas as mentiras que passados uns minutos começou animadamente a expelir por aquela boca vermelha imunda.
"A dona Maria Sottomayor não queria fazer a contra-prova, depois queria, depois recebia toques, depois punha-se ao telefone, eu falava pra ela mas a dona Maria Sottomayor não me ligava, ela esteve para cima de vinte minutos ao telefone, a dona Maria Sottomayor." Eu já não me sentia nem Dona, nem Maria, nem Sottomayor, e à custa da chefe Manuela aquele julgamento começou a ser exercer um tipo de fascínio sobre mim, como se tudo já me fosse distante e eu pudesse apreciar de forma neutra todos os exercicios de linguagem e manipulação que ali se praticavam.
A Juíza para a chefe Manuela:
- "Lembra-se da arguida?"
A chefe olha para o lado com queles olhos pretos tipo azeitona prontos a espichar azeite para cima de mim e diz:
- "Perfeitamente".
Que contente que ela estava por se lembrar de alguém como eu, uma imbecil distraída que se esquece de contar os copos que bebe.
Depois lá se pôs a contar a sua versão sobre aquela noite, começando por dizer que já trabalha há 27 anos naquela esquadra. Que maneira pobre de começar um discurso, como se os anos de serviço fossem encobrir todas as mentiras que passados uns minutos começou animadamente a expelir por aquela boca vermelha imunda.
"A dona Maria Sottomayor não queria fazer a contra-prova, depois queria, depois recebia toques, depois punha-se ao telefone, eu falava pra ela mas a dona Maria Sottomayor não me ligava, ela esteve para cima de vinte minutos ao telefone, a dona Maria Sottomayor." Eu já não me sentia nem Dona, nem Maria, nem Sottomayor, e à custa da chefe Manuela aquele julgamento começou a ser exercer um tipo de fascínio sobre mim, como se tudo já me fosse distante e eu pudesse apreciar de forma neutra todos os exercicios de linguagem e manipulação que ali se praticavam.
sexta-feira, dezembro 21, 2007
o julgamento - uma possivel perspectiva
Um julgamento pode ter alguma piada. Principalmente se sairmos absolvidos à custa da incompetência dos outros.
Eu, que por lei tinha cometido um crime, devido a outra lei qualquer, tive que ser absolvida.
O agente França, o agente Silva, o agente Pinto. Que queridos que eles eram. Juro que por momentos me apeteceu abraçar o agente França. Era alto, com principios de barriga. Imaginei-o perfeitamente vestido de pai natal no dia 24 à noite tentando surpreender a sua recém-nascida neta (não sei porquê acho que o agente França só pode ter uma neta, e que essa corre riscos de se chamar katia e de se vestir de cor-de-rosa todos os dias).
O Agente Pinto era igualmente fofo. Reparei que a alcunha perfeita para este agente seria a de "Pintoínho", pois tinha cara de pequeno pássaro.
O Silva era o único baixo dos três, por isso também me enterneceu. Ainda por cima tinha uma cara assim meia amacacada. Consegui vislumbrá-lo no jardim de infância como sendo o mais feio da classe e deu-me pena.
Apanhei o França à porta do tribunal antes do julgamento, e ele até me disse: "Menina, não temos nada contra si, isto é só mais um deber." Um dever. Estou a ver. O Pintoínho, à saída, desejou-me as boas festas.
Mas a chefe Manuela, ai, a chefe Manuela. Essa, nem festas, nem deberes, queria era lixar-me bem lixada dentro daquele tribunal onde o seu perfume gucci dos chineses nos invadia a todos de forma injusta. E gritava tão alto e tão mal, meu deus, as palavras desajeitadas que saíam daquela boca vermelha mal pintada. Culpa outra vez dos chineses, provavelmente.
Eu, que por lei tinha cometido um crime, devido a outra lei qualquer, tive que ser absolvida.
O agente França, o agente Silva, o agente Pinto. Que queridos que eles eram. Juro que por momentos me apeteceu abraçar o agente França. Era alto, com principios de barriga. Imaginei-o perfeitamente vestido de pai natal no dia 24 à noite tentando surpreender a sua recém-nascida neta (não sei porquê acho que o agente França só pode ter uma neta, e que essa corre riscos de se chamar katia e de se vestir de cor-de-rosa todos os dias).
O Agente Pinto era igualmente fofo. Reparei que a alcunha perfeita para este agente seria a de "Pintoínho", pois tinha cara de pequeno pássaro.
O Silva era o único baixo dos três, por isso também me enterneceu. Ainda por cima tinha uma cara assim meia amacacada. Consegui vislumbrá-lo no jardim de infância como sendo o mais feio da classe e deu-me pena.
Apanhei o França à porta do tribunal antes do julgamento, e ele até me disse: "Menina, não temos nada contra si, isto é só mais um deber." Um dever. Estou a ver. O Pintoínho, à saída, desejou-me as boas festas.
Mas a chefe Manuela, ai, a chefe Manuela. Essa, nem festas, nem deberes, queria era lixar-me bem lixada dentro daquele tribunal onde o seu perfume gucci dos chineses nos invadia a todos de forma injusta. E gritava tão alto e tão mal, meu deus, as palavras desajeitadas que saíam daquela boca vermelha mal pintada. Culpa outra vez dos chineses, provavelmente.
segunda-feira, dezembro 10, 2007
"O pão" ou o bordel imaginário
Estou em Matosinhos, numa padaria chamada " O pão". Giro. Peço descafeinado e fumo sg mentol.
Isto é escuro cá dentro. Por cima da máquina de cigarros há três embrulhos de natal, daqueles com papéis de motivos natalícios que costumam estar nas caixas de supermercado ao lado das chicletes. Que feios são estes três caixotes, e os laços, os laços dos embrulhos, os laços que foram encaracolados com a tesoura, que feios estes laços são. Ao lado da máquina de cigarros há duas coisas daquelas grandes com bolas de plástico lá dentro. Paga-se um euro por cada bola inútil, mas vá lá, é surpresa, e por isso há sempre quem pague um euro pelo desconhecido.
Em cima do balcão, outro caixote embrulhado a papel natalício (verde, vermelho, dourado) onde se pode ler : "As funcionárias deste estabelecimento desejam a todos os seus clientes um feliz natal e um próspero ano novo". Com todo o respeito pelas funcionárias de " O pão", reparo que isto em cima em cima de o balcão de um bordel é que ficava giro. Depois comecei a sentir pena da palavra " próspero", que só é utilizada nesta altura do ano. Tadinhos dos que são prósperos, nunca ninguém lhes liga.
Na mesa mais próxima da minha vejo duas mulheres a conversarem. Uma tem um penso branco no nariz, como é que será que ela foi fazer aquilo? Caiu no parque recreativo da senhora da hora? É jovem, tem cabelo preto e come uma torrada por volta das três da tarde (ninguém come torradas a essa hora). Mas a sua amiga é ainda mais bizzara, apesar de não comer torradas. É loira permanentada. Penso que as permanentes deviam ser proibidas, porque as mulheres não são para serem confundidas com caniches. É mais velha do que a outra do penso no nariz, tem um ar assim meio gasto. Look tipo anos 90, jaqueta de ganga e baton cor de rosa. Isto podia ser mesmo um bordel diurno de matosinhos onde se vendem torradas à sucapa.
Apago o segundo sg mentol. Pago o descafeinado com uma moeda de um euro. Penso: se tivesse outra igual a esta (e se fosse mais estúpida) metia-a naquela coisa grande com bolas de plástico à espera de outro porta-chaves ou de um urso feio de peluche.
Isto é escuro cá dentro. Por cima da máquina de cigarros há três embrulhos de natal, daqueles com papéis de motivos natalícios que costumam estar nas caixas de supermercado ao lado das chicletes. Que feios são estes três caixotes, e os laços, os laços dos embrulhos, os laços que foram encaracolados com a tesoura, que feios estes laços são. Ao lado da máquina de cigarros há duas coisas daquelas grandes com bolas de plástico lá dentro. Paga-se um euro por cada bola inútil, mas vá lá, é surpresa, e por isso há sempre quem pague um euro pelo desconhecido.
Em cima do balcão, outro caixote embrulhado a papel natalício (verde, vermelho, dourado) onde se pode ler : "As funcionárias deste estabelecimento desejam a todos os seus clientes um feliz natal e um próspero ano novo". Com todo o respeito pelas funcionárias de " O pão", reparo que isto em cima em cima de o balcão de um bordel é que ficava giro. Depois comecei a sentir pena da palavra " próspero", que só é utilizada nesta altura do ano. Tadinhos dos que são prósperos, nunca ninguém lhes liga.
Na mesa mais próxima da minha vejo duas mulheres a conversarem. Uma tem um penso branco no nariz, como é que será que ela foi fazer aquilo? Caiu no parque recreativo da senhora da hora? É jovem, tem cabelo preto e come uma torrada por volta das três da tarde (ninguém come torradas a essa hora). Mas a sua amiga é ainda mais bizzara, apesar de não comer torradas. É loira permanentada. Penso que as permanentes deviam ser proibidas, porque as mulheres não são para serem confundidas com caniches. É mais velha do que a outra do penso no nariz, tem um ar assim meio gasto. Look tipo anos 90, jaqueta de ganga e baton cor de rosa. Isto podia ser mesmo um bordel diurno de matosinhos onde se vendem torradas à sucapa.
Apago o segundo sg mentol. Pago o descafeinado com uma moeda de um euro. Penso: se tivesse outra igual a esta (e se fosse mais estúpida) metia-a naquela coisa grande com bolas de plástico à espera de outro porta-chaves ou de um urso feio de peluche.
terça-feira, dezembro 04, 2007
segunda-feira, novembro 26, 2007
quinta-feira, novembro 22, 2007
domingo, novembro 18, 2007
padaria ribeiro
"- Olhe, e agora por favor dê-me duas natas bem cheinhas para uma pessoa que só come o interior."
segunda-feira, novembro 12, 2007
domingo, novembro 11, 2007
Nietzsche e eu
The advantage of a bad memory is that one enjoys several times the same good things for the first time.
terça-feira, outubro 30, 2007
segunda-feira, outubro 22, 2007
terça-feira, outubro 16, 2007
faulkner
It's a shame that the only thing a man can do for eight hours a day is work. He can't eat for eight hours; he can't drink for eight hours; he can't make love for eight hours. The only thing a man can do for eight hours is work.
terça-feira, outubro 02, 2007
o prazo das coisas
"Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos."
sexta-feira, setembro 21, 2007
segunda-feira, setembro 10, 2007
A grande encosta
" Quando se deixa esta província de que vos falei, desce-se por duas jornadas e meia uma grande encosta. Durante aquelas nada há que mereça ser contado, salvo que se encontra uma grande praça, onde se realiza uma grande feira, certos dias do ano.Vêm até aí muitos comerciantes que trazem ouro, prata e muitas outras mercadorias. São originários de regiões onde ninguém consegue ir, senão eles próprios, tão selvagem e remota é das outras; nem ninguém chega a saber onde fica situada porque ninguém lá consegue ir.
Depois de se ter caminhado aquelas duas jornadas, chega-se a uma província situada a sul, que está nos confins da Índia e que se chama Mien. Depois, continua-se durante quinze dias, por lugares desabitados e por florestas cheias de elefantes, rinocerontes e muitos outros animais; não se encontram nem homens nem habitações.
Assim deixemos esta região e vou contar-vos uma história, como irão ouvir."
Marco Polo in "O livro das maravilhas"
Depois de se ter caminhado aquelas duas jornadas, chega-se a uma província situada a sul, que está nos confins da Índia e que se chama Mien. Depois, continua-se durante quinze dias, por lugares desabitados e por florestas cheias de elefantes, rinocerontes e muitos outros animais; não se encontram nem homens nem habitações.
Assim deixemos esta região e vou contar-vos uma história, como irão ouvir."
Marco Polo in "O livro das maravilhas"
terça-feira, julho 24, 2007
Escrita II
"Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livros nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara"
Sophia
Vazia
Não precisa de livros nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara"
Sophia
domingo, julho 15, 2007
quarta-feira, maio 23, 2007
sábado, abril 07, 2007
sexta-feira, março 30, 2007
quarta-feira, março 28, 2007
o radio KAIDE ou a Babilonia
Depois te o macaco safado ter roubado os headphones, apercebi-me mais uma vez que nao consigo viver sem musica. Mas o som do meu mp3 com headphones e' demasiado egoista e intransmissivel, e ja que estou a viajar com uma grande amiga, resolvi comprar um radio. A partilha e' uma coisa bonita, supondo que ha algo para partilhar. Pois bem, pedi a um amiguito indiano que me fosse comprar um radio que custasse menos que um euro. Passado uma hora la vinha ele todo contente com um objecto minusculo e fragil, prestes a partir-se se algum espirito mais arriscado o resolvesse por a funcionar. Sim, made in _______ (Adivinha com grau de complexidade elevado). Tinha 2 bandas como de costume: AM e FM. Nenhuma funcionava. As vezes ouviam-se umas vozes arranhadas em sofrimento la do fundo, mas por pouco tempo sofriam. Segundos depois la vem o som das formigas da televisao nao sintonizada em versao radio. Merda. Pensei: "Tenho que apostar na qualidade".
Foi entao que vi um standzito com oculos de sol e chaves de parafusos numa estacao de autocarros. Estava la o radio desejado tambem. Um radio nao com 2 bandas, mas sim com 8, de seu nome Kaide. Talvez Kaide seja uma marca de qualidade bem conhecida nos campos de plantacoes de arroz chineses, pensei. Propus ao gajo do stand uma troca: dava-lhe o bebe radio e mais algum dinheiro em troca do grande Kaide. Ele aceitou. Toda a negociacao foi, no minima, muito divertida.
O Kaide portava-se um bocadinho melhor que o seu antecessor, mas nem por isso. Era daquele tipo de objectos que precisam de carinho, muito carinho. So funcionava em determinadas posicoes ou comigo por perto, coisas assim. Como tem 8 bandas, a probabilidade de sair algum som estranho dali tambem e' maior, mas so a eterna busca do impossivel ia-me satisfazendo.
Ate' que um certo dia, estava eu em lutas com o meu kaide, experimentando o que ele daria se apontasse a antena a minha testa ou outras posicoes estranhas, quando ouco: "Boa noite, vamos deixar agora os nossos ouvintes com o melhor da musica portuguesa" O que? Nao, eu nem sequer estou em Goa... Sera da minha testa? Nao era. Era a RDP internacional a tentar dar o melhor da musica portuguesa com os GNR, Cla, Delfins. Imaginei o Miguel Angelo de sari, o que me pareceu um cenario bem mais perfeito do que a sua musica. De vez em quando apareciam vozes indianas e, por momentos, pensei estar a ouvir a minha propria cabeca onde ultimamente soam 3 linguas ao mesmo tempo. Portugues, ingles, e a lingua local.
Mas depois disto veio ainda a melhor parte, o programa "Bem comer para melhor viver". Qual Lourdes Modesto, esta era uma senhora que filosofava acerca do tempo que as pessoas ja nao tinham para se alimentarem correctamente. Tinha uma voz tao familiar, imaginei-a de saia travada e cabelos daqueles que secam debaixo dos capacetes da nasa (e que tambem existem nos cabeleireiros portugueses). Vieram os grunhidos outra vez e a pobre senhora cada vez mais la ao fundo. Ja nada era saudavel para se comer no meio de tanto ruido e o penteado corria o risco se estar a desfazer tambem. Deixei a minha imaginacao pousar no ponto maravilhoso onde estava. Desliguei o Kaide e pedi desculpa a senhora filosofa da alimentacao por estar a abrir um pacote de bolachas.
Foi entao que vi um standzito com oculos de sol e chaves de parafusos numa estacao de autocarros. Estava la o radio desejado tambem. Um radio nao com 2 bandas, mas sim com 8, de seu nome Kaide. Talvez Kaide seja uma marca de qualidade bem conhecida nos campos de plantacoes de arroz chineses, pensei. Propus ao gajo do stand uma troca: dava-lhe o bebe radio e mais algum dinheiro em troca do grande Kaide. Ele aceitou. Toda a negociacao foi, no minima, muito divertida.
O Kaide portava-se um bocadinho melhor que o seu antecessor, mas nem por isso. Era daquele tipo de objectos que precisam de carinho, muito carinho. So funcionava em determinadas posicoes ou comigo por perto, coisas assim. Como tem 8 bandas, a probabilidade de sair algum som estranho dali tambem e' maior, mas so a eterna busca do impossivel ia-me satisfazendo.
Ate' que um certo dia, estava eu em lutas com o meu kaide, experimentando o que ele daria se apontasse a antena a minha testa ou outras posicoes estranhas, quando ouco: "Boa noite, vamos deixar agora os nossos ouvintes com o melhor da musica portuguesa" O que? Nao, eu nem sequer estou em Goa... Sera da minha testa? Nao era. Era a RDP internacional a tentar dar o melhor da musica portuguesa com os GNR, Cla, Delfins. Imaginei o Miguel Angelo de sari, o que me pareceu um cenario bem mais perfeito do que a sua musica. De vez em quando apareciam vozes indianas e, por momentos, pensei estar a ouvir a minha propria cabeca onde ultimamente soam 3 linguas ao mesmo tempo. Portugues, ingles, e a lingua local.
Mas depois disto veio ainda a melhor parte, o programa "Bem comer para melhor viver". Qual Lourdes Modesto, esta era uma senhora que filosofava acerca do tempo que as pessoas ja nao tinham para se alimentarem correctamente. Tinha uma voz tao familiar, imaginei-a de saia travada e cabelos daqueles que secam debaixo dos capacetes da nasa (e que tambem existem nos cabeleireiros portugueses). Vieram os grunhidos outra vez e a pobre senhora cada vez mais la ao fundo. Ja nada era saudavel para se comer no meio de tanto ruido e o penteado corria o risco se estar a desfazer tambem. Deixei a minha imaginacao pousar no ponto maravilhoso onde estava. Desliguei o Kaide e pedi desculpa a senhora filosofa da alimentacao por estar a abrir um pacote de bolachas.
quinta-feira, março 15, 2007
nao ha maior metafisica do que a de comer chocolates
India. Uff...
Desculpem os leitores mais assiduos, mas isto as vezes de organizar ideias nao e' coisa facil.
Ja tinha escrito um belo post, mas o caderno onde tinha o rascunho caiu inesperadamente no rio Ganges e la se foi toda a tinta, todas as palavras. Por obra dos destino ou dos mortos que por la navegam, fui encontrar o caderno 3 dias depois. Um velhote que vendia flores a beira rio encontrou-o e como eu ainda sou maryconnections, o gajo veio a saber atraves de outro que aquele objecto moribundo era meu. Enfim, coincidencias.
A verdade e' que tenho vindo a perder demasiadas coisas. Desta vez o rato nao roeu a mochila, mas um macaco entro dentro do meu quarto e roubou-me um champo, uns headphones e umas calcas novinhas acabadas de comprar. Filho da mae. Deve andar prai' de galho em galho a lavar-se todo e a ouvir musica.
Na semana passada fui dar um mergulho ao mar e assim perdi um brinco e duas pulseiras. Ontem roubaram-me o telemovel. Acredito que este fenomeno da perda seja um pequeno treino para me desapegar dos bens materiais. Assim o quero ver. A verdade e' que de calcas, brincos e telemoveis esta o mundo farto.
Um dos episodios mais comicos que me aconteceram ate agora foi um acidente de biciclete que provoquei. Armei-me em espertinha e aluguei uma biciclete anos 60 mais alta do que eu podia aguentar. Estava numa estrada de terra batida e vi uma senhora de sari vermelho. So consigo descrever o que senti como simples atraccao pelo abismo. Em vez de travar, fui literalmente contra o meio do cu da mulher. Ela caiu suavemente (nao sei andar de biciclete, muito menos rapido), parecia quase que estava a dancar. Nisto, quando olhou para tras viu que eu era branca e comecou a chorar. A idiota era ma como as cobras. Pobre de bolso e de espirito. Em 3 segundos juntou-se ali uma comunidade de indianos cheios de ideias, mas nenhum se queria meter para ajudar. Chegou mesmo a aparecer um policia que disse que nao tinha nada a ver com o assunto!! Maravilhoso. No final, a senhora de rabo magoado queria um euro e pronto. Antes disso, ofereci-lhe um analgesico e uma bela licao de moral com direito a traducao para hindi por um trauseunte, mas a pobre nada. Queria um euro e pronto. Contra os meus principios e farta de estar naquele circo, saquei da nota e dei-lhe.
O branco, aqui, e em tantos outros sitios, esta conotado com uma especie de poder que me assusta. Andamos prai a colonizar e depois e' isto: ou eles sao estupidamente submissos ou tentam nos comer a toda a hora. Outro dia um homem virou-se para mim com cara de encantado e disse: " Ei madame, your skin is shiny as silver". Uma bela e eficaz metafora.
Portugal fica numa especie de sitio a parte onde ninguem sabe onde e'. Uns la falam do Vasquinho, mas muito raramente. Por vezes digo que sou da Argentina, da Coreia, ou do Paquistao para os provocar.
Mas esta infinidade de linguas, culturas e religioes, prolongam a minha paixao por este espaco da terra.
Uma Historia que se come a ela propria atraves dos mais perversos paradoxos.
A sensualidade do vestuario, das cores e dos multiplos ornamentos joga no mesmo campo de um rigido sistema de castas onde o ascetismo e a pureza sao valores a preservar. Os deuses hindus sao muitos e para todos os gostos. Normalmente sao representados de uma forma androgena. Tem caras e vidas. Ha tambem em versao animal: macacos filhos do vento ou elefantes com corpos de humano.
Ha tambem uma enorme comunidade muculmana e em menor numero, crista, sikh, jain, whatever. Para os primeiros, so ha apenas um grande e unico criador.
Sim, porque para um biliao de pessoas, ha que haver uma certa variedade divina. Para que todos se possam indentificar e poderem, por vezes, venerarem-se tambem a eles proprios.
Desculpem o atraso.
Beijo com calor, muito calor.
Desculpem os leitores mais assiduos, mas isto as vezes de organizar ideias nao e' coisa facil.
Ja tinha escrito um belo post, mas o caderno onde tinha o rascunho caiu inesperadamente no rio Ganges e la se foi toda a tinta, todas as palavras. Por obra dos destino ou dos mortos que por la navegam, fui encontrar o caderno 3 dias depois. Um velhote que vendia flores a beira rio encontrou-o e como eu ainda sou maryconnections, o gajo veio a saber atraves de outro que aquele objecto moribundo era meu. Enfim, coincidencias.
A verdade e' que tenho vindo a perder demasiadas coisas. Desta vez o rato nao roeu a mochila, mas um macaco entro dentro do meu quarto e roubou-me um champo, uns headphones e umas calcas novinhas acabadas de comprar. Filho da mae. Deve andar prai' de galho em galho a lavar-se todo e a ouvir musica.
Na semana passada fui dar um mergulho ao mar e assim perdi um brinco e duas pulseiras. Ontem roubaram-me o telemovel. Acredito que este fenomeno da perda seja um pequeno treino para me desapegar dos bens materiais. Assim o quero ver. A verdade e' que de calcas, brincos e telemoveis esta o mundo farto.
Um dos episodios mais comicos que me aconteceram ate agora foi um acidente de biciclete que provoquei. Armei-me em espertinha e aluguei uma biciclete anos 60 mais alta do que eu podia aguentar. Estava numa estrada de terra batida e vi uma senhora de sari vermelho. So consigo descrever o que senti como simples atraccao pelo abismo. Em vez de travar, fui literalmente contra o meio do cu da mulher. Ela caiu suavemente (nao sei andar de biciclete, muito menos rapido), parecia quase que estava a dancar. Nisto, quando olhou para tras viu que eu era branca e comecou a chorar. A idiota era ma como as cobras. Pobre de bolso e de espirito. Em 3 segundos juntou-se ali uma comunidade de indianos cheios de ideias, mas nenhum se queria meter para ajudar. Chegou mesmo a aparecer um policia que disse que nao tinha nada a ver com o assunto!! Maravilhoso. No final, a senhora de rabo magoado queria um euro e pronto. Antes disso, ofereci-lhe um analgesico e uma bela licao de moral com direito a traducao para hindi por um trauseunte, mas a pobre nada. Queria um euro e pronto. Contra os meus principios e farta de estar naquele circo, saquei da nota e dei-lhe.
O branco, aqui, e em tantos outros sitios, esta conotado com uma especie de poder que me assusta. Andamos prai a colonizar e depois e' isto: ou eles sao estupidamente submissos ou tentam nos comer a toda a hora. Outro dia um homem virou-se para mim com cara de encantado e disse: " Ei madame, your skin is shiny as silver". Uma bela e eficaz metafora.
Portugal fica numa especie de sitio a parte onde ninguem sabe onde e'. Uns la falam do Vasquinho, mas muito raramente. Por vezes digo que sou da Argentina, da Coreia, ou do Paquistao para os provocar.
Mas esta infinidade de linguas, culturas e religioes, prolongam a minha paixao por este espaco da terra.
Uma Historia que se come a ela propria atraves dos mais perversos paradoxos.
A sensualidade do vestuario, das cores e dos multiplos ornamentos joga no mesmo campo de um rigido sistema de castas onde o ascetismo e a pureza sao valores a preservar. Os deuses hindus sao muitos e para todos os gostos. Normalmente sao representados de uma forma androgena. Tem caras e vidas. Ha tambem em versao animal: macacos filhos do vento ou elefantes com corpos de humano.
Ha tambem uma enorme comunidade muculmana e em menor numero, crista, sikh, jain, whatever. Para os primeiros, so ha apenas um grande e unico criador.
Sim, porque para um biliao de pessoas, ha que haver uma certa variedade divina. Para que todos se possam indentificar e poderem, por vezes, venerarem-se tambem a eles proprios.
Desculpem o atraso.
Beijo com calor, muito calor.
terça-feira, janeiro 30, 2007
O lado ao tasco do atelier meu
Afinal, a Sra. que me faz pães com queijo não se chama Isilda. É Elisa e Augusta ao mesmo tempo.
Entro na porta tipo saloon. Já não ia lá desde o Natal e a ausência aqueceu (um bocadinho) o encontro: "Então menina, já há muito que não aparecia".
Observo enquanto espero pela meia de leite. O JN está aberto em cima do balcão e eu faço-o esperar. Há sítios pequenos onde se concentram todas as riquezas. Reparo num daqueles papéis cheios de alvarás e números e capitais. Leio o nome de Maria Augusta da Silva.
- "Sra. Isilda, quem é a Sra.Maria Augusta?
- Sou eu menina, não tem nada a ber com Elisa pois não?
(conclui que sempre tinha ouvido Isilda em vez de Elisa)
- Não...
- Pois é, os meus padrinhos queriam que eu fosse Elisa e os meus pais Augusta. Então o meu nome de baptismo é Maria Elisa Augusta da Silva, mas no registo ficou só Maria Augusta da Silva. Até já tibe problemas com a polícia."
(reparei que havia ali um leve orgulho em ter um nome real e outro oficial)
-"Ah...que engraçado."
Depois vi o Sr. de pano no ombro a chegar, e percebi que entre baptismos e registos, tinha perdido o seu nome. Pensava em Alfredo, mas Alfredo sabia que não era. Não tive coragem para perguntar directamente:
- " Ó Sra. Elisa, e o seu marido também tem dois nomes? O dele começa por um A, não começa?
Ela foi mais rápida do que a minha memória que estava a ir por caminhos inúteis e complexos.
- O quê menina? Ai se começa por A ai isso já não sei. Eu não sei ler nem escreber. Ele é Júlio, Júlio Rocha."
Veio a meia de leite.
Fiquei indecisa se começava a ler o jornal em silêncio ou em voz alta.
Entro na porta tipo saloon. Já não ia lá desde o Natal e a ausência aqueceu (um bocadinho) o encontro: "Então menina, já há muito que não aparecia".
Observo enquanto espero pela meia de leite. O JN está aberto em cima do balcão e eu faço-o esperar. Há sítios pequenos onde se concentram todas as riquezas. Reparo num daqueles papéis cheios de alvarás e números e capitais. Leio o nome de Maria Augusta da Silva.
- "Sra. Isilda, quem é a Sra.Maria Augusta?
- Sou eu menina, não tem nada a ber com Elisa pois não?
(conclui que sempre tinha ouvido Isilda em vez de Elisa)
- Não...
- Pois é, os meus padrinhos queriam que eu fosse Elisa e os meus pais Augusta. Então o meu nome de baptismo é Maria Elisa Augusta da Silva, mas no registo ficou só Maria Augusta da Silva. Até já tibe problemas com a polícia."
(reparei que havia ali um leve orgulho em ter um nome real e outro oficial)
-"Ah...que engraçado."
Depois vi o Sr. de pano no ombro a chegar, e percebi que entre baptismos e registos, tinha perdido o seu nome. Pensava em Alfredo, mas Alfredo sabia que não era. Não tive coragem para perguntar directamente:
- " Ó Sra. Elisa, e o seu marido também tem dois nomes? O dele começa por um A, não começa?
Ela foi mais rápida do que a minha memória que estava a ir por caminhos inúteis e complexos.
- O quê menina? Ai se começa por A ai isso já não sei. Eu não sei ler nem escreber. Ele é Júlio, Júlio Rocha."
Veio a meia de leite.
Fiquei indecisa se começava a ler o jornal em silêncio ou em voz alta.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
O tasco ao lado do meu atelier
No tasco ao lado do meu atelier, há uma porta tipo "saloon" que o sr.Júlio tira ilegalmente ao sábado para entrar mais sol. A porta, por onde não entram cowboys do faroeste mas de outro tipo latino, tem quadrados azuis e amarelos cortados à mão com papel autocolante. Quando se está lá dentro, não se ouve a porta abrir. Mas qualquer pessoa, por mais discreta que seja, quando empurra aquilo como se estivesse a nadar, racha o pequeno mundo de quem já está lá dentro. Vem a luz ou vem o frio. E depois lá vão as duas metades da porta, qual baloiço decadente, para trás e para a frente até se amarem novamente e finalmente pararem.
Depois, o universo recomeça. O tasco é um estreito corredor com umas escadas de madeira lá ao fundo (nunca subi, deve dar a casa deles). Do lado direito o balcão. Do lado esquerdo máquina de cigarros (que ela liga quando alguém precisa) e uma pintura na parede a dizer: "Caza Poveira, especialidade em vinhos verdes e petiscos". A Sra. Isilda, que está sentada à espera que não entre mais ninguém, levanta-se num misto de preguiça e subserviência (depende do cliente).
" O que é que bai ser?" Serve e senta-se outra vez. O marido aparece mais de vez em quando, deve gostar de andar a pé para trás e para a frente como a porta, e de pano de cozinha ao ombro.
Lá eu sou sempre menina, e começam a tirar-me a meia de leite ainda a porta está a baloiçar. Às vezes confundo-os: em vez do habitual queijo (de bola) que a Sra. Isilda corta (na hora) em fatias mais grossas que a minha própria fome, peço um pão com manteiga. Uma vez tive coragem de pedir que mas cortasse mais finas. Arrependi-me. Ela queria cobrar-me meia sandes.
No Natal fazem-se rabanadas para oferecer aos machos e às meninas.
-"Lebe para a sua irmã e mãezinha."
-"Elas não gostam Sra. Isilda. Obrigado."
-"Lebe na mesma."
No Outono, também oferecem castanhas assadas.
Normalmente há um exemplar de cada bolo, e cada cliente, tem assim o previlégio de comer o único queque ou o único napoleão que ainda sobraram do dia de ontem.
(sempre me intrigou o nome "napoleão" para um bolo feito de massa folhada com chocolate por cima)
De vez em quando há sandes de lombo. E como os corpos são tão fáceis de repartir, ao lado dos bolos, um pratinho de alumínio com o que parecem ser umas orelhas de porco. Talvez ouçam a porta, gozem os cowboys em silêncio ou chamem-me menina.
Depois, o universo recomeça. O tasco é um estreito corredor com umas escadas de madeira lá ao fundo (nunca subi, deve dar a casa deles). Do lado direito o balcão. Do lado esquerdo máquina de cigarros (que ela liga quando alguém precisa) e uma pintura na parede a dizer: "Caza Poveira, especialidade em vinhos verdes e petiscos". A Sra. Isilda, que está sentada à espera que não entre mais ninguém, levanta-se num misto de preguiça e subserviência (depende do cliente).
" O que é que bai ser?" Serve e senta-se outra vez. O marido aparece mais de vez em quando, deve gostar de andar a pé para trás e para a frente como a porta, e de pano de cozinha ao ombro.
Lá eu sou sempre menina, e começam a tirar-me a meia de leite ainda a porta está a baloiçar. Às vezes confundo-os: em vez do habitual queijo (de bola) que a Sra. Isilda corta (na hora) em fatias mais grossas que a minha própria fome, peço um pão com manteiga. Uma vez tive coragem de pedir que mas cortasse mais finas. Arrependi-me. Ela queria cobrar-me meia sandes.
No Natal fazem-se rabanadas para oferecer aos machos e às meninas.
-"Lebe para a sua irmã e mãezinha."
-"Elas não gostam Sra. Isilda. Obrigado."
-"Lebe na mesma."
No Outono, também oferecem castanhas assadas.
Normalmente há um exemplar de cada bolo, e cada cliente, tem assim o previlégio de comer o único queque ou o único napoleão que ainda sobraram do dia de ontem.
(sempre me intrigou o nome "napoleão" para um bolo feito de massa folhada com chocolate por cima)
De vez em quando há sandes de lombo. E como os corpos são tão fáceis de repartir, ao lado dos bolos, um pratinho de alumínio com o que parecem ser umas orelhas de porco. Talvez ouçam a porta, gozem os cowboys em silêncio ou chamem-me menina.
quinta-feira, janeiro 11, 2007
domingo, dezembro 31, 2006
terça-feira, dezembro 26, 2006
Descrição de uma cidade
Não há lado esquerdo na metafísica,
O que não é uma limitação.
A produção industrial de problemas
Solta para o ar nuvens espessas
Que interferem no aeródromo.
Aviões cobertos de graffiti não conseguem levantar voo
Porque, entre os vários desenhos, os miúdos
Desenharam pedras de granito. A Ideia de granito
Pesa mais que a existência concreta de um
Balão, o mundo das ideias é estado transitório entre
O Nada e a montanha. Entretanto, a
Natação tornou-se importante para a cidade
Depois do dilúvio ocorrido há três mil anos. O governo
oferece inscrições gratuitas e ainda casais de animais
Bruscos, mas mansos. Os homens andam felizes, e também
As mulheres, porque todos aprendem a nadar antes dos
Sessenta. Hoje, neste século, morre-se afogado mais tarde.
O mundo é perfeito de todos os lados,
Menos do lado onde estamos: como um sólido geométrico
Belo que cai na cabeça desprevenida.
O mundo é fantástico visto de cima, de helicóptero. A linguagem
Sobe e interfere em camadas específicas da atmosfera,
As palavras que usas não são inertes. O inglês por exemplo,
É Língua que entra excessivamente nas nuvens. O inglês
Para a Astronomia é deselegante, e prejudica ligeiramente
As aves baixas.
No outro lado do mundo, entretanto, alguém, de grandes dimensões
Enfia o aeródromo num saco de plástico. As pulsações
Da alma medem-se pelos pressentimentos, não por
Aparelhos medicinais. E não se ilumina a escuridão,
Ilumina-se algo que já não é escuridão; precisamente porque
A escuridão é escura, escuríssima segundo dizem.
Gonçalo M. Tavares
O que não é uma limitação.
A produção industrial de problemas
Solta para o ar nuvens espessas
Que interferem no aeródromo.
Aviões cobertos de graffiti não conseguem levantar voo
Porque, entre os vários desenhos, os miúdos
Desenharam pedras de granito. A Ideia de granito
Pesa mais que a existência concreta de um
Balão, o mundo das ideias é estado transitório entre
O Nada e a montanha. Entretanto, a
Natação tornou-se importante para a cidade
Depois do dilúvio ocorrido há três mil anos. O governo
oferece inscrições gratuitas e ainda casais de animais
Bruscos, mas mansos. Os homens andam felizes, e também
As mulheres, porque todos aprendem a nadar antes dos
Sessenta. Hoje, neste século, morre-se afogado mais tarde.
O mundo é perfeito de todos os lados,
Menos do lado onde estamos: como um sólido geométrico
Belo que cai na cabeça desprevenida.
O mundo é fantástico visto de cima, de helicóptero. A linguagem
Sobe e interfere em camadas específicas da atmosfera,
As palavras que usas não são inertes. O inglês por exemplo,
É Língua que entra excessivamente nas nuvens. O inglês
Para a Astronomia é deselegante, e prejudica ligeiramente
As aves baixas.
No outro lado do mundo, entretanto, alguém, de grandes dimensões
Enfia o aeródromo num saco de plástico. As pulsações
Da alma medem-se pelos pressentimentos, não por
Aparelhos medicinais. E não se ilumina a escuridão,
Ilumina-se algo que já não é escuridão; precisamente porque
A escuridão é escura, escuríssima segundo dizem.
Gonçalo M. Tavares
segunda-feira, dezembro 18, 2006
colo com este livro
as cidades e os olhos. 3
Depois de ter caminhado sete dias através de bosques, quem vai para Bauci não consegue vê-la e no entanto já lá chegou. São as finíssimas andas que se elevam do solo a grande distância umas das outras e se perdem acima das nuvens que sustêm a cidade. Sobe-se com escadotes. No chão os habitantes raramente se mostram: têm já tudo de que precisam lá em cima e preferem não descer. Nada da cidade toca o solo à excepção daquelas pernas compridíssimas de fenicóptero em que assenta e, nos dias luminosos, uma sombra perfurada e angulosa que se desenha na folhagem.
Três hipóteses se põem sobre os habitantes de Bauci: que odeiam a Terra; que a respeitam a ponto de evitar qualquer contacto; que a amam tal como ela era antes deles e com binóculos e telescópios apontados para baixo não se cansam de passá-la em resenha, folha a folha, pedra a pedra, formiga por formiga, contemplando fascinados a sua própria ausência.
_________________
Italo Calvino, As Cidades invisíveis
Depois de ter caminhado sete dias através de bosques, quem vai para Bauci não consegue vê-la e no entanto já lá chegou. São as finíssimas andas que se elevam do solo a grande distância umas das outras e se perdem acima das nuvens que sustêm a cidade. Sobe-se com escadotes. No chão os habitantes raramente se mostram: têm já tudo de que precisam lá em cima e preferem não descer. Nada da cidade toca o solo à excepção daquelas pernas compridíssimas de fenicóptero em que assenta e, nos dias luminosos, uma sombra perfurada e angulosa que se desenha na folhagem.
Três hipóteses se põem sobre os habitantes de Bauci: que odeiam a Terra; que a respeitam a ponto de evitar qualquer contacto; que a amam tal como ela era antes deles e com binóculos e telescópios apontados para baixo não se cansam de passá-la em resenha, folha a folha, pedra a pedra, formiga por formiga, contemplando fascinados a sua própria ausência.
_________________
Italo Calvino, As Cidades invisíveis
colo infinitamente com este livro (e com o dos proverbios qd estou mais cansada)
"- De agora em diante serei eu a descrever as cidades - disse Kublai Kan - Tu nas tuas viagens verificarás se existem.
Mas as cidades visitadas por Marco Polo eram sempre diferentes das pensadas pelo imperador.
- Contudo eu tinha construído na minha mente um modelo de cidade de que deveria deduzir-se todos os modelos de cidades possíveis - disse Kublai - Contém tudo o que corresponde à norma. Como as cidades que existem se afastam em grau diverso da norma, basta-me prever as excepções à norma e calcular as combinações possíveis.
- Também pensei num modelo de cidade de que deduzo todas as outras - respondeu Marco - É uma cidade feita só de excepções, impedimentos, contradições, incongruências, contrassensos. Se uma cidade assim é o que há de mais improvável, diminuindo o número dos elementos anormais aumentam as probabilidades de existir realmente a cidade. Portanto basta que eu subtraia excepções ao meu modelo, e proceda com que ordem proceder chegarei a encontrar-me perante uma das cidades que existem, embora sempre como excepção. Mas não posso fazer avançar a minha operação para além de um certo limite: obteria cidades demasiado verosímeis para serem verdadeiras.
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis.
quarta-feira, dezembro 13, 2006
quanto sabes, tanto vales
Ultimamente ando a colar com um livro de provérbios portugueses que roubei ao meu pai.
Este tipo de sabedoria popular, às vezes é surpreendente e emocionante, outras apenas irritante.
Ontem estava eu na rua do Almada a comprar umas lâmpadas e entra uma mulher a cheirar a peixe fresco e botinhas de borracha. Ficou lá uns 10 minutos a querer convencer toda a gente que as sapateiras dela eram melhores que as outras, que para nós eram só 7 euros, que para a próxima semana trazia um polbo marabilha ispanhole.
"Anda lá filha, compra-me os bichinhos".
Depois atendeu o telemovél e recebeu uma encomenda para o restaurante Garreti. Desconfio que este último I não faz parte do nome do restaurante. E lá foram as (agora alegres) botinhas de borracha carregando as (agora tristes) sapateiras.
Amo cada cantinho de cada loja de ferragens na Rua do Almada.
Mas agora é tempo de sabedoria...
Provérbios surpreendentes:
-Banana madura não se sustenta no cacho.
- Se queres ver teu marido morto, dá-lhe pepino em Agosto.
-Não te assustes que a pistola não tem fecho.
-Com arte e engano se vive metade do ano, com engano e arte a outra parte.
-Nem mesmo Deus pode por inteiros os ovos mexidos.
-É melhor ser porqueiro que porco.
- Depois do coito todo o animal fica triste, excepto a mulher e o galo.
-Ai Manel Manel, não tens abelhas e vendes mel.
-Se vês que o vinho te prejudica o trabalho, deixa de trabalhar.
Provérbios irritantes para o próximo post.
Espero pelos vossos também.
Este tipo de sabedoria popular, às vezes é surpreendente e emocionante, outras apenas irritante.
Ontem estava eu na rua do Almada a comprar umas lâmpadas e entra uma mulher a cheirar a peixe fresco e botinhas de borracha. Ficou lá uns 10 minutos a querer convencer toda a gente que as sapateiras dela eram melhores que as outras, que para nós eram só 7 euros, que para a próxima semana trazia um polbo marabilha ispanhole.
"Anda lá filha, compra-me os bichinhos".
Depois atendeu o telemovél e recebeu uma encomenda para o restaurante Garreti. Desconfio que este último I não faz parte do nome do restaurante. E lá foram as (agora alegres) botinhas de borracha carregando as (agora tristes) sapateiras.
Amo cada cantinho de cada loja de ferragens na Rua do Almada.
Mas agora é tempo de sabedoria...
Provérbios surpreendentes:
-Banana madura não se sustenta no cacho.
- Se queres ver teu marido morto, dá-lhe pepino em Agosto.
-Não te assustes que a pistola não tem fecho.
-Com arte e engano se vive metade do ano, com engano e arte a outra parte.
-Nem mesmo Deus pode por inteiros os ovos mexidos.
-É melhor ser porqueiro que porco.
- Depois do coito todo o animal fica triste, excepto a mulher e o galo.
-Ai Manel Manel, não tens abelhas e vendes mel.
-Se vês que o vinho te prejudica o trabalho, deixa de trabalhar.
Provérbios irritantes para o próximo post.
Espero pelos vossos também.
domingo, dezembro 10, 2006
sexta-feira, dezembro 08, 2006
hoje
o inverno, esqueci-me dele.
agora apareceu feito gente. feito gente que nos manda usar camisolas, ligar aquecedores.
o inverno tem algo de passado, as pessoas vivem no verão para se lembrarem no inverno.
copianço mal feito na copipronto que nos aquece quando ouvimos a fotocopiadora lá ao fundo.
lá ao fundo. tudo parece longe com esta chuva, com este vento, com estas nuvens.
vai chover amanha, esta muito vento, as nuvens anunciam. que tempo é este?
o monopólio esquecido nos arrumos, o baralho que lhe faltam algumas cartas.
falta sempre alguma coisa no inverno.
agora apareceu feito gente. feito gente que nos manda usar camisolas, ligar aquecedores.
o inverno tem algo de passado, as pessoas vivem no verão para se lembrarem no inverno.
copianço mal feito na copipronto que nos aquece quando ouvimos a fotocopiadora lá ao fundo.
lá ao fundo. tudo parece longe com esta chuva, com este vento, com estas nuvens.
vai chover amanha, esta muito vento, as nuvens anunciam. que tempo é este?
o monopólio esquecido nos arrumos, o baralho que lhe faltam algumas cartas.
falta sempre alguma coisa no inverno.
sábado, dezembro 02, 2006
velhas conexoes nunca se perdem
talvez maior parte de vocês já tenha visto os quadros ao vivo (vivos).
talvez maior parte de vocês já não venha aqui.
haja fidelidade.
o natal aproxima-se com o ano novo (quão novo?).
tenho vontade de emigrar outra vez.
talvez escolha um novo destino para passar os primeiros meses de 2007, um sítio quente com janeiros diferentes dos nossos.
ha também a possibilidade de ir para uma residência artística em berlim, mas não consigo perceber o critério de selecção. é mandar o application form e esperar.
esperar.
tempo.
ano novo.
natal velho.
os outros à espera que eu não respeite o tempo, que eu goste de natais velhos.
que eu sinta o novo ano como uma nova adulta ou como uma velha adolescente.
até janeiro.
talvez maior parte de vocês já não venha aqui.
haja fidelidade.
o natal aproxima-se com o ano novo (quão novo?).
tenho vontade de emigrar outra vez.
talvez escolha um novo destino para passar os primeiros meses de 2007, um sítio quente com janeiros diferentes dos nossos.
ha também a possibilidade de ir para uma residência artística em berlim, mas não consigo perceber o critério de selecção. é mandar o application form e esperar.
esperar.
tempo.
ano novo.
natal velho.
os outros à espera que eu não respeite o tempo, que eu goste de natais velhos.
que eu sinta o novo ano como uma nova adulta ou como uma velha adolescente.
até janeiro.
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